Publicado em Opinião, Reflexão, Conscientização, Pastoral | 02/04/2019 às 15:31:20


Repensando a dimensão terapêutica o cuidado e pastoreio mútuo

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Uma leitura atenta do Novo Testamento nos ajuda a perceber a importância da dimensão terapêutica da Igreja. O anúncio e a manifestação do reino de Deus encontram expressão marcante através da ação terapêutica da comunidade dos/as discípulos/as conforme Lucas 10.9: “Curai (therapeúete) os enfermos que nela (cidade) houver e dizei ao povo: O reino de Deus está próximo de vós”. 

Na perspectiva do evangelista Mateus, a pregação, o ensino e a cura “formam um tripé onde estes três movimentos caracterizam o ministério público de Jesus e eles envolvem uma mesma realidade” (SOUZA): “Percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mateus 4.23). O apóstolo Paulo nos ensina que o reino de Deus se manifesta através da luta constante contra as forças da morte, é através do “curar” a comunidade que, de acordo com 1 Coríntios 12.9,28 e 30, a Igreja dispõe do “carisma da cura” enquanto expressão do amor e misericórdia de Deus. No entanto, durante certo período, algumas igrejas (especialmente as caracterizadas como protestantismo de missão) privilegiaram uma leitura bíblica onde apenas o pregar e o ensinar ocupavam um lugar de destaque. 

Ao mesmo tempo, não se sabia ao certo o que deveria ser feito em relação à dimensão da cura (dimensão terapêutica). Alguns sintomas dessa dificuldade podem ser observados no empobrecimento da doutrina da salvação. A teologia e a práxis da Igreja passaram a focalizar as doutrinas da salvação “eterna” (pouco cuidado com as necessidades do cotidiano). Cura dizia respeito apenas à purificação dos pecados e à conversão (para o “além”), reforçando assim uma visão conservadora e conformista da realidade. Outro efeito de tal desvalorização da cura em relação à doutrina da salvação é que “a cura sofre uma secularização indevida. Há um divórcio entre o ‘reino da cura’ e o ‘reino da salvação’. A ciência da cura perde o contato com a teologia e a práxis da Igreja. O diálogo entre a teologia e a medicina (ciên­cias) tornou-se difícil” (DOBBERAHN).

O Desafio de (re)construir uma cultura de cuidado e pastoreio mútuo
Uma das urgentes tarefas da Igreja é reconhecer as fragilidades de compreensão da dimensão terapêutica na agenda pastoral. Além disso, é preciso reconhecer também o alto grau de individualismo do cristianismo contemporâneo, uma tendência surgida a partir do pietismo e de seu entendimento do cristianismo, dificultando o engajamento e compromisso com mudanças de comportamento que impliquem vínculos comunitários mais profundos em redes formais e informais de apoio e encorajamento mútuo. Nas palavras de Theodore Runyon, “o grau a que essa visão chegou a dominar a cultura ocidental, incluindo aqueles que se consideram seculares, é percebido no modo como a fé religiosa é compreendida como uma questão particular, algo que cada pessoa determina para si mesma e que normalmente não é discutida em grupos mais instruídos”.

Pastores e pastoras correm o risco de sucumbir aos crescentes apelos da opinião pública evangélica que, em certa medida, refletem tal individualismo em expectativas e anseios projetados na figura do/a pastor/a. Precisamos enfrentar e superar a cultura do isolamento e do individualismo com sabedoria bíblica e conhecimento de nossa própria tradição teológica metodista. 

John Wesley nos deixou um importante legado a esse respeito. No ano de 1729, em um momento de intensa luta pessoal sobre os rumos de sua vida e ministério, ele decidiu buscar ajuda de um conselheiro cujo nome permaneceu desconhecido. A única menção que ele faz a essa pessoa é que se tratava de um “homem sério”. Naquela ocasião angustiante e decisiva em sua jornada espiritual, depois de levantar algumas questões que o deixavam inquieto e com dúvidas, ele ouve atentamente o seguinte conselho: “O senhor deseja servir a Deus e ir para o céu. Lembre-se de que o senhor não poderá servi-lo sozinho. Por isso o senhor deve encontrar seus companheiros; ou, então, fazê-los. A Bíblia não sabe nada de uma religião solitária”. 

A partir daquele momento Wesley decide voltar a Oxford e juntar-se a um pequeno grupo de amigos junto com seu irmão Charles. Desde então, o movimento metodista passou a cultivar uma leitura bíblica comunitária, um pastoreio e cuidado mútuo pautado em amor, solidariedade, amizade, santidade e misericórdia. Não precisamos reinventar a roda quando o assunto é o cuidado e o pastoreio mútuo de pastores e pastoras. Contudo, carecemos de uma atitude humilde capaz de nos conduzir de volta à Escritura, a uma redescoberta do valor da dimensão terapêutica em nossa agenda pastoral iluminada pela rica e relevante tradição bíblica e teológica metodista. Sozinho/a não! 

Pr. Helerson Alves Nogueira Docente na Fateo
Fonte: Jornal Expositor Cristão - edição de abril/2019

Referências
BARBOSA, Ricardo. Pregar, Ensinar e Curar. Igreja Evangélica Holiness do Bosque. Mensagens Fevereiro/2017. Disponível em http://www.holinessbosque.org.br/mensagem.php?code=535 (acesso em 10/03/2019).
DOBBERAHN, Friedrich E. Estudos Bíblicos Sobre Cura e Salvação. Revista Estudos Teológicos. V. 33, n. 03 (1993): EST/São Leopoldo, p. 278-293. Disponível em est.com.br/periodicos/index.php/estudos_teologicos/article/view/949 (acesso em 10/03/2018).
JOSGRILBERG, Rui S. A Motivação Originária da Teologia Wesleyana: O Caminho da Salvação. Revista Caminhando, vol. 8, n. 2 [12], (2003). São Bernardo do Campo-SP: Editeo. Disponível em https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/Caminhando/article/view/1419 (acesso em 10/03/2019).
RUNYON, Theodore. A Nova Criação: a teo­logia de John Wesley hoje. [trad. Cristina Paixão Lopes]. São Bernardo do Campo-SP: Editeo, 2002, p.133.


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