Publicado em Educação, Notícias | 05/10/2018 às 16:23:32


Cientista metodista morre aos 96 anos

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Foto: Warwick Kerr completou 96 anos em setembro. | Foto:Francisco-Emolo

Faleceu no dia 15 de setembro, em decorrência de uma parada cardíaca, o professor metodista Warwick Estevam Kerr. O cientista metodista foi cremado na cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A grande imprensa divulgou as informações sobre o falecimento do brasileiro, destacando a sua contribuição para pesquisas científicas no país. O professor completou 96 anos de idade em 9 de setembro, era casado com dona Lygia, que faleceu em 2017. Kerr deixou seis filhos.

A Universidade Federal de Uberlândia destacou que o geneticista reconhecido internacionalmente deixa um legado. “Em abril de 2017, o professor recebeu o título de ‘Professor Honoris Causa’ da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O título é oferecido a personalidades que se distinguem pelo saber ou pela atuação em prol da Filosofia, das Ciências, da Técnica, das Artes e das Letras, ou ainda, pelo melhor entendimento entre os povos e/ou em defesa dos direitos humanos”, afirma o texto, que compartilha a carreira de Warwick. 

O Bispo Honorário Stanley da Silva Moraes lembrou o reconhecimento do professor junto à Igreja Metodista: “Eu tive a honra de entregar-lhe o título de honra ao Mérito Metodista, concedido pelo 18º Concílio Geral (2006). Sempre aprendi com a vida deste precioso irmão que descansou no Senhor”, afirmou o Bispo Stanley. 

Outro metodista, o pastor Ely Eser Barreto César, escreveu sobre a relevante contribuição de Kerr, destacando os cargos que ocupou junto aos diversos espaços importantes na comunidade científica do país. “Ele não apenas foi presidente da importante FAPESP, como foi seu fundador, dada sua incansável intenção de promover a pesquisa científica no país. Neste sentido, foi também presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) nos anos de chumbo, a saber, auge do Golpe Militar e da tortura, sendo personagem que salvou muitos/as perseguidos/as pelos órgãos de repressão do poder militar”, afirmou Ely.

Biografia acadêmica

Entomologista, engenheiro agrônomo e geneticista de renome internacional, o professor atuou em outras diversas instituições de ensino, como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa) e Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Entre os principais trabalhos está a introdução no Brasil da abelha africana, em 1956. Ele também desenvolveu um novo tipo de espécie de abelha, denominada “africanizada”, que é mais dócil e grande produtora de mel.

Outro destaque das pesquisas desenvolvidas por Kerr é a descoberta de um tipo de alface com 20 vezes mais vitamina A do que a comum. Além disso, Kerr foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, de 1969 até 1973. Em 1990, tornou-se o primeiro brasileiro a pertencer à Academia de Ciências dos Estados Unidos. 

O professor Warwick Estevam Kerr e sua atuação na Igreja Metodista

No início dos anos 1960, residindo em Ribeirão Preto, foi professor da Classe de Jovens da Igreja Metodista Central de Ribeirão Preto, com um nível de frequência e de debate que nunca mais se repetiu. No final dos anos 1960 e começo dos 1970, foi membro do então Conselho Regional da Igreja Metodista da 5ª Região Eclesiástica, tendo exercido papel fundamental no processo de criação da Universidade Metodista de Piracicaba (consolidado no final de 1975).

Em um Concílio Regional da 5ª Região Eclesiástica, realizado no início da década de 1970, em Presidente Prudente/SP, fez uma importante palestra, a convite da Mesa do Concílio, sobre a teoria da evolução das espécies, em face da nossa fé na Criação de Deus. Provocou tal debate que o Plenário decidiu votar se os macacos estavam na cadeia evolutiva do homem. O Concílio, sendo esta uma matéria aleatória da agenda, aprovou a teoria da evolução por maioria de seus membros, após intenso debate teológico. 

Recebeu nos anos 1980 o título de Doutor Honoris Causa da UNIMEP. Como tinha sido seu pastor e acompanhado seu itinerário científico, fui convidado a realizar a apresentação oficial de sua atividade científica para a cerimônia. Na ocasião, fiquei perplexo ao constatar que, estando próximo dos 30 anos de seu doutorado, a produção científica do Dr. Kerr era a de um artigo científico, nacional ou internacional, a cada mês, desde seu doutorado, e isto nos mais de 30 anos já transcorridos. Quase 400 produções científicas no início de seus 60 anos.

Além de metodista, se afirmava socialista. Como tinha atividade internacional, durante suas muitas viagens nacionais e internacionais constatou que nossa antiga VARIG não tinha um/a negro/a sequer em seus quadros. Iniciou uma campanha denunciando a companhia brasileira. Foi convidado pela alta direção da VARIG para ser informado de que a companhia aérea estava introduzindo em seus editais de contratação de funcionários/a cotas para afrodescendentes. Orgulhava-se deste episódio menor, é evidente, mas que denota sua coerência com seus princípios por uma sociedade de direitos iguais.

Estou convencido de que o Dr. Kerr é um metodista a ser cultivado em nossa memória eclesiástica e um homem a ser honrado em todos os cenários da nação. Presto minha homenagem a este cristão que nos deixou aos 96 anos, ciente de que sua existência foi a de um luminar na vida da nação e de nosso globo.

Rev. Ely Eser Barreto César
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Redação EC
Publicada originalmente no Jornal Expositor Cristão de outubro


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