Publicado em Metodismo, Reflexão, Episcopal, Opinião | 30/10/2017 às 08:58:00


Ação social e a oração: um ritual de espiritualidade

"E chegou a Cafarnaum e, entrando em casa, perguntou-lhes: Que estáveis vós discutindo pelo caminho?
Mas eles calaram-se; porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maior.
E ele, assentando-se, chamou os doze, e disse-lhes: Se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos."

 

Marcos 9.33-35


À Luz do texto do Evangelista Marcos, procuramos relacionar que toda ação social identificada a partir da fé cristã prescinde de um lugar de cultivo de uma espiritualidade encarnada no cotidiano de nossas ações pessoais e institucionais.

Para João Wesley, assim como as primeiras gerações de metodistas, o desejo de fazer a vontade de Deus e a busca da santidade se refletiam na espiritualidade pessoal e comunitária em que o princípio para as transformações sociais eram ações concomitantes com a prática da espiritualidade cristã, notadamente da oração, do jejum e do estudo das escrituras.

Hoje, em tempos de pós-modernidade, em uma sociedade líquida marcada pela flexibilidade e inconstância, refletidas na pluralidade de expressões religiosas dentro dos mesmos pressupostos básicos, a oração cristã, enquanto tal, necessita de definições e formas de expressão que sejam mais coerentes com o sentido presente na tradição bíblica e na tradição apostólica.

Em nossos tempos, a oração tem tido a conotação de um carisma exercido por determinada pessoa, cuja finalidade seja a interferência divina nas questões mais variadas de interesse pessoal. Considerando esta perspectiva: a finalidade da oração é determinada pela necessidade pessoal de quem a busca; e a sua eficiência é determinada pelo carisma pessoal de quem a realiza. Assim, a oração é tomada como uma forma de mediação; ou como exercício de um poder individual.

O texto bíblico do evangelista Marcos (9.33-35) coloca-se entre dois fatos significativos: o relato da discussão entre escribas e alguns/as discípulos/as sobre a grave enfermidade de uma criança. O tema é sobre o direito à vida de uma criança ameaçada por um mal que traz riscos à sua integridade física.

Sabemos que a vida das crianças é sinal evidente da presença do Reino de Deus entre nós. Quando Jesus liberta a criança do que atenta contra a sua vida, os/as discípulos/as perguntam: Por que nós não podemos expulsar esse mal (demônio)? A resposta é porque as forças que atentam contra a vida precisam ser enfrentadas com ações, jejum e oração.

Oração tem relação com a libertação de tudo quanto impede a vida humana e principalmente as nossas crianças de viverem plenamente. Jesus ensina que a oração nos conduz à tolerância e à ação social solidária, ecumênica. “Vimos alguém em teu nome expulsando demônios, mas que não nos segue”, denunciaram os/as discípulos/as.

Para espíritos armados, arrogantes e intolerantes, contra quem não anda conforme os seus passos, Jesus mostra que o seu nome não deve ser razão para os nossos estranhamentos e discriminações. O nome de Cristo é instrumento, potencializado pela oração, à libertação e comunhão, para que a vida se manifeste de forma plena aos filhos e filhas.

Outra razão no texto é a discussão sobre o poder: sobre quem é maior ou quem é melhor. Sobre as diferenças que nos separam; que escondem pretensões de poder. Wesley em suas notas sobre o NT refere-se à criança em idade e criança no coração.

Ao colocar uma criança no meio dos/as discípulos/as, põe fim a uma discussão inadequada àqueles/as que pretendem ser seus/as seguidores/as, ontem e hoje. Jesus mostra que a vida expressa nas suas condições mais frágeis é a força da unidade da Igreja, e a disposição para participar dessa unidade é o compromisso com esta vida. Quem é maior é quem serve; e se todos/as estão a serviço desta causa, não haverá nem maiores nem menores. Este é o pressuposto básico da ação social cristã na sociedade: serviço.

Portanto, é da natureza da oração o fortalecimento da unidade em torno de Cristo e do Seu Reino; e de nossas ações na defesa da vida e na transformação da sociedade. Portanto, o carisma de todo o Corpo de Cristo, de toda a Igreja é estar a serviço da vida humana, especialmente de nossas crianças mais desassistidas e mais fragilizadas socialmente.

Nossa ação social deve priorizar a transformação da sociedade a favor da vida de todas as crianças, orando e agindo.

Bispo Luiz Vergílio Batista da Rosa
Publicado originalmente no Expositor Cristão de novembro/2017

 

 


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