Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Notícias, Opinião, Artigo | 30/09/2019 às 13:18:24


Reforma Protestante e a Bíblia: um olhar metodista


Luiz Carlos Ramos
Doutor em Ciências da Religião, 
Pastor na Igreja Metodista em Pirassununga, Professor na Universidade São Francisco

Já se passaram mais de 2 mil anos desde o nascimento de Jesus Cristo e mais de 500 desde a Reforma Protestante, e podemos afirmar categoricamente que o povo em geral ainda não conseguiu distinguir a Lei do Evangelho, o Mérito da Graça, a tentativa de apropriação da Vida Eterna por esforço da Salvação pela fé, o Deus implacável do Deus misericordioso, a religião do Ódio da religião do Amor…

Ora, Jesus Cristo, seus mais leais discípulos, bem como muitos Reformadores, deram sua vida para que o povo pudesse experimentar o Evangelho, a Graça, a Misericórdia e o Amor de Deus.

Em 2017 comemorou-se em todo o mundo os 500 anos da Reforma Protestante, e muitas denominações religiosas advogaram para si a designação “evangélicas” e “protestantes”, julgando-se herdeiras desse movimento.

A rigor, contudo, “evangélico” só seria aplicável àquilo que se conforma com o Evangelho, e “protestante”, o que se coaduna com os princípios fundamentais da Reforma. O que, a princípio, parece obviedade pueril, na prática se mostra em flagrante contradição.

Vamos por partes: a Lei é bíblica? Assim como as obras e o Deus-Juiz iracundo? Sim! Mas é aqui que entra a hermenêutica de Jesus Cristo, quando diz, no Sermão da Montanha: “Ouviste o que foi dito… eu porém vos digo.” (Mt 5)

Conclusão hermenêutica: Nem tudo que está na Bíblia é “Evangelho”. Evangelho é o “novo” jeito de ler a Bíblia e a Vida através dos olhos mansos de Jesus.

A Reforma e a questão da Bíblia 
Claro que foram inúmeros os fatores sociais, econômicos, políticos que deram o ensejo para que a Reforma Protestante tomasse a dimensão que tomou. Mas para nós, aqui, interessa particularmente os elementos bíblico-teológicos que fundamentaram essa grande transformação pela qual a Igreja passou.

Assim, o tema hermenêutico é determinante para entendermos a Reforma Protestante do ponto de vista teológico. Temos que nos lembrar de que o povo em geral não tinha acesso à Bíblia como literatura. Seu conhecimento dos Evangelhos vinha mais das representações artísticas em exposição nas igrejas e catedrais (verdadeiros museus sacros) do que das pregações dominicais e nem um pouco da leitura direta dos textos sagrados.

Lutero, ao afirmar que a “Bíblia é a única autoridade na igreja” (DREHER, 2013, p. 248), colocou em xeque a hierarquia vigente que determinava que o Magistério era essa autoridade. O Magistério se encarregava de dar as coordenadas que condicionavam a interpretação das Escrituras.

“O evangelho é palavra viva, dirigida ao ser humano, e quer provocar fé”(DREHER, 2013, p. 248). Para Lutero, o centro das escrituras é Jesus, e Jesus é o próprio Verbo divino encarnado, o único conteúdo da Escritura enquanto palavra de Deus.

A igreja só pode apontar para a Escritura e submeter-se a ela. Mas não devemos perder de vista que a própria Escritura se submete a Jesus Cristo, o Verbo divino.

Enfim, essa questão hermenêutica forneceu a chave para que se possa triar, dentre as páginas das Escrituras, o “Evangelho”, isto é, discernir aquilo que se submete a Cristo daquilo que se contrapõe a ele.
Dito isso, se pode compreender o porquê do esforço para disponibilizar a Bíblia para a leitura direta do povo. Claro que, para isso, ela precisava estar em linguagem acessível. Lembremo-nos de que até então, os poucos exemplares da Bíblia estavam disponíveis apenas nas línguas originais (hebraico, aramaico e grego) e em sua famosa versão para o latim (a Vulgata). Mesmo assim, esses exemplares eram raramente encontrados, e quando encontrados, eram caríssimos. Somente igrejas ou indivíduos muito ricos possuíam esses textos.

Lutero, biblista competente que era, se aplicou a traduzir a Bíblia para a língua do seu povo, o alemão. Depois dele outras versões foram preparadas para o inglês, o francês, o espanhol, o português, e assim por diante.

De posse das Sagradas Escrituras, a única autoridade reconhecida na igreja, muitos indivíduos e grupos, desviando-se da diretriz hermenêutica de Lutero, passaram a arriscar as suas próprias e mais díspares interpretações. 

O divisionismo que daí se sucedeu foi espantoso. Hoje somos fruto dessa hermenêutica fragmentada e fragmentadora. Os movimentos reformadores autênticos sempre foram uma tentativa de volta à essência do Evangelho, ao passo que os divisionismos foram sempre resultado de tentativas de “inovações”, que recebiam apelidos piedosos, tais como “avivamento” e “renovação”.

Por outro lado, como fruto maravilhoso da Reforma protestante do século XVI, podemos ver a Bíblia ao alcance de qualquer pessoa letrada que tenha acesso a uma livraria ou à internet.

No entanto, a chave que possibilita uma leitura cristã dessa literatura sagrada não está tão disponível. Dessa incontável multidão que lê diária ou quase diariamente a Bíblia, poucos parecem conhecer o Verbo de Deus. Leem as palavras, mas nada sabem da Palavra. Porque não submetem sua leitura ao crivo, à peneira, ao filtro, que é Jesus.

É por isso que tantos continuam citando a Bíblia para defender práticas absolutamente contrárias aos princípios do reino anunciados por Cristo: sectarismo, racismo, discriminação da mulher, da criança, dos/as deficientes, dos/as pobres, dos/as diferentes… 

Se lermos a Bíblia com os olhos de Jesus, nossas conclusões seriam muito diferentes das que vemos sendo anunciadas em nossos dias, não somente pelas igrejas novas mas também dentro da nossa família metodista. 

Publicado originalmente na edição de outubro de 2019 do jornal Expositor Cristão 

*Reprodução parcial ou integral deste conteúdo autorizado desde que seja citado a fonte conforme abaixo:

[Nome do autor do artigo ou o repórter], Expositor Cristão (Edição outubro de 2019)


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