Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Artigo, Episcopal, Opinião, Notícias | 01/07/2019 às 14:22:24


Momento, prática e vida: a plenitude da devoção na caminhada cristã


Temos uma tendência muito humana em medir a qualidade de nosso relacionamento com Deus com base em como nos sentimos com maior ou menor propensão a momentos devocionais com Ele. Mas pode não ser bem assim. Quero abordar este tema em três aspectos básicos, à luz de Isaías 58.4-11: a vida, a prática e o momento devocional.

A vida: estar com Ele
“Jesus subiu a um monte e chamou a si aqueles que ele quis, os quais vieram para junto dele”, diz Marcos 3.13. Nós gostamos da sensação de dizer que temos um chamado. Muitas vezes isso parece colocar-nos numa posição de privilégio. Usamos nossas estruturas para proporcionar poder e ascensão a partir dessa ideia equivocada de vocação. Ostentamos posições ao invés de receber a designação divina. Mas a ideia de estar com Jesus é o real alvo da vida cristã expressa devocionalmente. E só é possível estar com Jesus quem Ele chama e que responde a esse chamado para “vir para junto d'Ele”.

Estar junto pressupõe intimidade, para conhecer e tornar-se conhecido/a. Pode ser algo extremamente perigoso para quem tem algo a esconder. Eu tenho 20 anos de casada. Agora, há muitos momentos em que meu esposo e eu nos entendemos com um olhar. Ele reconhece meus piores dias, já me viu nas piores fases. Sabe exatamente o que me alegra e o que me aborrece. Torno-me segura ou vulnerável conforme a decisão dele em usar o que sabe contra mim ou a meu favor. No entanto, por me amar, ele consegue me acolher nos dias piores e me estimular nos momentos bons a crescer como pessoa, a evoluir. Eu sou desafiada a fazer o mesmo em resposta a esse amor que recebo. Nem sempre é fácil. Nem tudo são flores. Muitas vezes, para manter o relacionamento, somos forçados/as a ações que não apreciamos, a entrar em desafios inesperados, mas nos dispomos, porque queremos manter a comunhão. 

Não é diferente na vida com Jesus. Por estarem juntos com Jesus, os discípulos foram identificados com suas causas, atados às suas palavras, comprometidos com suas posturas políticas, sociais e religiosas, repetiram seus chavões, escreveram seus escritos e morreram por causa da fé nEle. Isso é o chamado. Eles aprenderam o significado pleno de estar junto com Jesus.

Práticas e momentos devocionais podem não expressar uma vida devocional
Mesmo no Antigo Testamento, a vida com Deus não se compunha de rituais meros e externos. Deus se aborrece do jejum e da oração que eram feitos. As pessoas tinham momentos (tempo separado) marcados por práticas (jejum, oração, culto), isolados de uma vida (santificação e relacionamento). É como fazer declarações de amor a um/a completo/a estranho/a. Não faz o menor sentido e ofende toda definição de amor!

Quando vejo as injustiças que temos praticado e aceitado como cristãos/ãs em geral e como povo metodista, quando vejo que somos nós a colocar jugos nas pessoas, a reter direitos dos/as assalariados/as, estrangeiros/as, mulheres, crianças, viúvas e órfãos/ãs, Isaías me vem como um tapa na cara

Nesta perspectiva, é fácil entender o aborrecimento de Deus. Trata-se de um grande teatro. O jejum, cuja característica básica é despojamento e dependência, torna-se fonte de opressão (Marcos 2.18-22) ou de autoflagelo sem propósito. Os louvores se tornam autocentrados e aborrecidos. 

Quando vejo as injustiças que temos praticado e aceitado como cristãos/ãs em geral e como povo metodista, quando vejo que somos nós a colocar jugos nas pessoas, a reter direitos dos/as assalariados/as, estrangeiros/as, mulheres, crianças, viúvas e órfãos/ãs, Isaías me vem como um tapa na cara. Como líder, não posso me omitir a vestir o pano de saco da reparação e a agir de modo a restabelecer a santidade e a justiça. Como cristã, me aproximo dos pés da cruz para dizer ao Cristo ferido que me cure “do jugo, do estender do dedo, e do falar iniquamente”. Tenho pecado porque meu jejum e minhas orações não promovem a vida abundante como deveriam. 

Os atos de piedade (oração, leitura bíblica, jejum, consagração, etc.) devem parte da vida oculta à essência da intimidade. Só assim podem gestar os atos de misericórdia (dar de comer a quem tem fome, praticar a justiça, vestir o nu, dar água a quem tem sede, etc.). Práticas e momentos que nos colocam acima no patamar de santidade não servem. O objetivo é levar-nos para baixo, para os pés feridos, para as vidas caídas no caminho, para os bartimeus e coxos das beiras das estradas da vida. Momentos e práticas precisam ser resultados da vida devocional, resultados de andar junto com Jesus. Só assim – e só assim – obteremos o que almejamos e necessitamos: a proximidade de Deus. 

Até o tempo em que o Senhor me guiará continuamente, e fartará a minha alma em lugares áridos, e fortificará os meus ossos; e serei como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam (Isaías 58.11), eu preciso me arrepender – e muito – no pó e na cinza das minhas pretensões. 

Bispa Hideide Brito Torres

Presidente da 8ª Região Eclesiástica

Publicado originalmente na edição impressa do jornal Expositor Cristão de Julho


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