Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Opinião, Artigo | 27/08/2019 às 14:44:23


Artigo: O colo que ensina


Certa vez, Jesus ensinava (Marcos 10.13-16) em casa. Então, lhe trazem crianças para que as “tocasse” (10.13). Os discípulos, porém, as repreendem. “Repreender” é a mesma palavra usada pelo Mestre contra a tempestade (Marcos 4.39) e espíritos impuros (Marcos 1.25). Com ela corrige aos próprios discípulos em Marcos 8.30-33. Jesus se indigna com seus discípulos adultos, e não com as crianças. Crianças não são “encapetadas”. Adultos é que são problemáticos, e dão muito mais trabalho. Os adultos é que precisam de repreensão e de “receber o Reino como uma criança” (10.15).

Pensamos nas crianças pelo prisma da pureza. Na época de Jesus, porém, eram consideradas impuras. Crianças tocam em qualquer coisa que lhes interessa – até naquilo vedado pela Lei. Contaminavam-se a si e aos adultos. Na cabeça dos adultos só traziam problemas. Melhor deixá-las às margens. Se pudessem, entregariam a elas um tablet para distraí-las e deixar os adultos em paz.

A pureza que idealizamos nelas é fruto da nossa cultura. Crianças são sujeitos tão complexos quanto adultos. Há aquelas puras, inocentes. Outras, porém, aprendem a malícia do seu convívio. Há as muito alegres. Outras são feridas por tristeza e privação. Depressão infantil é real. A infância tem experiências positivas e outras traumáticas – abusos, abandono, humilhações. Quem lida com crianças sabe ser impossível idealizar esta faixa etária. O abstrato até pode ser “puro”. Mas não existem “crianças abstratas”.

Não falta nada ao real. O Salmo 122.1 expressa alegria em ir à casa de Deus. Já o Salmo 42.1 fala de “sede” pela presença divina e de tristeza pela ausência aos átrios do Senhor (Salmo 42.4). A vida é templo. Há espaço para o silêncio e a individualidade, mas também para alarido alegre e multidão. Deus acolhe quem chora e quem se rejubila. Isso expressa Graça. O Eterno tem algo especial para cada um/a de nós. Por que seria diferente com as crianças?

O Reino de Deus valoriza aqueles/as às margens social, política, econômica e espiritual. Todas as sociedades apresentam desequilíbrios. Muitos/as já estão de fora. Por isso, Jesus se posiciona junto aos/às mais vulneráveis. Justiça divina é assim: movimento em direção àqueles/as que não têm ninguém a seu favor. Cristo reequilibra relações, restaura o projeto de Deus e desfaz o caos gerado pelo pecado individual e social.

Surpreendente, toma as crianças ao colo e lhes impõe as mãos, sem medo de impureza alguma. É ato físico, mas também realidade e lição espirituais. O grego traduzido como “abençoava” (10.16) aparece somente aqui. Indica movimento de cima para baixo, com ênfase no destino da ação. Isto é: colo, imposição de mãos e oração enfatizam a criança como ‘pouso’ da bênção divina. Elas se movem na direção do Reino (10.14), e o Reino se move na direção delas (10.15) – um encontro! Não é porque são puras ou porque mereçam. É porque Deus as ama.

Crianças não trazem problemas para ninguém. O que fazem é aflorar nossos medos, angústias e conflitos. Cutucam os nossos monstros interiores. Destapam nossa fragilidade e expõem nossas incertezas e angústias mais profundas. Não é que não saibamos o que fazer com elas: não sabemos é o que fazer de nós mesmos/as! Com ação e palavras, Jesus abençoa a todos/as. O toque e bênção às crianças as legitima como seres plenos. A repreensão a nós, adultos/as, nos traz cura e nos reensina a viver.

Jesus pedagogo desvenda que só educamos e abençoamos de fato quando associamos ações às palavras que proferimos. “Educadores/as abstratos/as” são como os discípulos: falam, repreendem, censuram, cerceiam, vociferam, ralham, gritam, urram, se exasperam e batem, mas não ensinam. Para estes, tudo se resolverá por força de Lei ou dos braços. O ensino nos moldes do Reino requer apenas “abraçoar”: abraçar e abençoar na liberdade da Graça, pois isto cura adultos/as e crianças.

Feliz ao colo de Jesus! 

Pr. Carlos Guilherme F. S. Magajewski 
Igreja Metodista em Santo André/SP

/// Texto publicado originalmente na Revista Voz Missionária Set/Out 2019

Publicado REPLUBLICADO na edição de setembro do Expositor Cristão


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