Publicado em Notícias, Igreja e Sociedade | 08/10/2018 às 09:09:31


Suicídio - Quando a vida não encontra espaço

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Foto: Noipornpan / Istockphoto.com

O tema do suicído para muitos/as de nós é encoberto pela falta de informação ou receios (medos) que envolvem essa morte prematura. Diferentemente daquilo que entendemos como ciclo natural de desenvolvimento humano, o suicídio é uma prática que tem atingido milhares de vidas em todo o mundo. Para início de conversa, proponho definir o tema sem carregá-lo de significados subjacentes. Pois não é qualquer morte, é a eliminação da vida determinada por uma ação intencional; logo, merece nossa atenção.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) faz referências em suas pesquisas sobre o tema de que o suicídio representa a décima principal causa de morte em todo o mundo. É a causa de morte de um milhão de pessoas por ano, e estima-se que sejam 1,5 milhão de pessoas em 2020. No Brasil, foi observado um aumento no índice de suicídio de 43,8% entre os anos de 1980 e 2005. Em 2010, a média brasileira era de 4,6 mortes a cada 100 mil pessoas. 

Se considerarmos pessoas entre 15 e 34 anos de idade, os estudos apontam que o suicídio é uma das três principais causas de morte no Brasil. Considerando que a vida é um dom de Deus, os dados nos mostram uma realidade a ser enfrentada pela nossa sociedade e pela Igreja.

Sabemos que histórias de suicídio estão presentes na Bíblia e em diferentes momentos históricos e contextos culturais indicando ser um fenômeno complexo, com diversos fatores convergentes. É um acontecimento que acompanha a humanidade desde os primórdios.

O suicídio se apresenta como resposta a uma desesperança e angústias intensas. Utilizam-se através dos tempos diversos métodos, meios ou recursos tecnológicos, sendo impossível desenhá-lo a um só contorno, por exemplo, com o surgimento da linha férrea (trem) no passado, as pessoas começaram a usar o trem como meio de cometer o suicídio. 

Assim, cada suicídio é o desfecho de um processo de crise vivido por determinada pessoa que não consegue enxergar alternativas, exceto a morte, naquele momento. É possível perguntarmos o que temos a ver com isso? Quando olhamos ao redor, dificilmente não encontraremos uma história para contar de uma vida precocemente ceifada pelo suicídio.

A morte pelo suicídio deixa no mínimo impacto significativo em seis pessoas próximas à vítima, as pesquisas apontam que há indícios de que estas precisaram de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Além disso, há impacto social em outras pessoas mais distantes das vítimas e nos espaços sociais em que a pessoa circulou. As consequências do suicídio não cessam com a morte, pois há a repercussão gerada pelo ato. Também é preciso considerar as consequências paras as pessoas sobreviventes de tentativas de suicídio, seus familiares e pessoas próximas. Muitas dessas pessoas buscam assistência na igreja. 

Como Igreja nós consideramos um corpo, constituído por pessoas e seus relacionamentos.  No cuidado com as pessoas, a Igreja preocupa-se com a vida. Portanto, uma ação possível ao enfretamento do suicídio é a prevenção e promoção da vida. Deve-se tornar-se um espaço que acolhe com amor e combate os meios de propagação da desesperança e do isolamento.  São formas de prevenção e exercício de vida comunitária. Pesquisas apontam que o apoio religioso, a participação em grupos/igreja e a existência de uma fé religiosa são fatores de proteção para a prevenção do suicídio, assim como para outros transtornos mentais. 

Concluo dizendo que a Igreja precisa reconhecer o seu potencial para a transformação da sociedade e valorização das vidas que ali congregam ou circulam. A busca pela promoção da integração, do convívio comunitário, fortalecimento dos relacionamentos interpessoais, formar articulações com serviços de saúde e rede de proteção são vias para a prevenção ao suicídio, ao apoio aos sobreviventes e familiares que podem ser construídas pelas comunidades eclesiais locais. Todos/as nós podemos fazer a nossa parte para prevenir o suicídio e proteger o dom da vida, estando dispostos/as a nos relacionar uns com os outros, a acolher com amor, a orientar e a caminhar e buscar outro recurso se for necessário. 

Mitos sobre o suicídio

Embora não seja um tema novo, ainda existem discursividades construídas historicamente que, permeadas de narrativas sociologistas ou psicologizantes, criam-se “mitos” que necessitam ser revisitados para prevenir o suicídio. Entendemos aqui mito como construções culturais, sociais em determinados momentos históricos que são perpetuadas pela cultura oral e estão distantes da realidade construída pelas pesquisas e pelo fazer clínico da área da saúde. Ou seja, falsa verdade que sustenta hábitos e entendimentos sobre o tema.

1. “Suicida é louco”: Embora pessoas com transtorno mental estejam mais suscetíveis por sua condição de fragilidade e apresentem maior probabilidade de ter o desfecho suicídio, não significa que o suicida seja louco. Esse ato extremo não é exclusivo das pessoas que já fazem tratamento de saúde mental e deve ser levado em consideração independentemente de ter histórico psiquiátrico anterior. 

2. “É uma decisão individual, já que cada um tem o direito de exercitar o seu livre-arbítrio”: É uma inverdade se considerarmos que a pessoa que intenta a própria morte não está desconectada da sociedade, faz parte de um corpo maior, o qual deve zelar pela vida mesmo que a capacidade de julgamento esteja fragilizada.

3. “Quando uma pessoa pensa em suicídio terá risco de suicídio pelo resto da vida”: Precisamos considerar que existem tratamentos direcionados ao sofrimento psíquico e à prevenção de suicídio, e que há possibilidade de melhora e remissão do risco de suicídio. Os pensamentos suicidas podem ser recorrentes, mas não são permanentes e podem não retornar. Esteja atento para orientar a pessoa a buscar apoio com profissional qualificado para tal.

4. “Pessoas que querem se matar não falam”: Muitas pessoas acham que se uma pessoa fala em se matar é só para chamar a atenção e desvalorizam a fala. A maioria das pessoas que cometeram suicídio manifestou, seja em seu comportamento ou fala, algum sinal de sua intenção. Dê valor para os pedidos de ajuda. 

5. “Se uma pessoa que falava em suicídio de repente passa a sentir-se bem e evita falar sobre o assunto, o risco passou”:  É preciso estar atento, pois uma mudança de humor e comportamental repentina sem relação aparente com algum motivo ou tratamento pode indicar que há um plano em ação. O início de tratamento e recuperação após tentativa de suicídio é um momento crítico e requer cuidados. É importante que haja continuidade no acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico nesses casos de risco de vida.

6. “Se falar sobre suicídio vai incentivar ou dar ideias”: A possibilidade de falar sobre a vontade de morrer, suicídio não induz a ação se conduzida com responsabilidade. O fato de ter um espaço para expor seus sentimentos, sentir-se acolhida é uma via de integrar as pessoas em sofrimento psíquico e prevenir o suicídio.

7. “Quem se mata é fraco”: Muitas vezes a falta de compaixão conduz-nos a um olhar julgador, que nos afasta enquanto irmãos e irmãs. É preciso acolher a dor do/a outro/a, sem diminuí-la mesmo que não tenhamos entendimento, ou seja, motivos que não são tão intensos em nossa experiência de vida. Não é um ato de covardia e coragem que definem o suicídio, mas a existência de um momento de dor psíquica insuportável.

8. “Se falar em suicído tem que internar”: Conforme indica a OMS em Manual Prevenção do Suicídio: manual para professores e educadores, pensar em suicídio uma vez ou outra é natural no processo de desenvolvimento como da infância para a adolescência, contudo, é necessário estar atento à intensidade da fala e do sofrimento de quem a traz para dar o encaminhamento necessário. No caso de dúvida, busque ajuda. 

 

Raquel H. Rosa | Psicóloga 2ª Região
Publicada originalmente no Jornal Expositor Cristão de outubro


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