Publicado por José Geraldo em Igreja e Sociedade | 23/07/2020 às 19:36:51

Os impactos do isolamento social nas igrejas evangélicas brasileiras

O isolamento e distanciamento social mudou o modo de ser Igreja. A equipe do Invisible College fez uma pesquisa entre os dias 24 de abril e 5 de maio de 2020, contando com a participação de 270 igrejas de diversas denominações, espalhadas nos 26 estados e no Distrito Federal, para entender as melhores formas de agir diante da pandemia de Covid-19.

Os dados foram coletados com pastores/as e líderes de igrejas brasileiras para tentar entender os impactos da crise nas suas comunidades locais. Esse material contém os principais dados obtidos. Muito provavelmente, o principal impacto do isolamento social na rotina da igreja foi em relação ao culto público, uma agenda que toda comunidade de fé possui. Uma parte da pesquisa foi dedicada a explorar como as igrejas lidaram com essa nova condição social para viabilizar uma rotina de cultos à sua membresia.

Resposta ao isolamento
A transmissão ao vivo foi a forma mais comum de suprir o culto público (74%). Em algumas igrejas, o WhatsApp foi utilizado como ferramenta de suporte para o envio de devocionais. Também foram adotadas reuniões de pequenos grupos remotamente. 

Por que escolheram a transmissão ao vivo? Por causa da interatividade, pessoalidade, evangelização e algumas das igrejas já tinham estrutura para isso. Antes da pandemia de Covid-19, quase metade das igrejas (48%) não realizava a transmissão ou gravação dos cultos.

Foi perguntado quais eram as alternativas encontradas para suprir o culto público das pessoas que, por algum motivo, não tinham acesso à internet. Sete por cento não souberam responder ou disseram não haver nenhuma alternativa. Os demais responderam que algumas ações eram realizadas: incentivo ao culto familiar; entrega de material impresso em casa, como devocionais; ligações telefônicas; atendimento pastoral individual; visita de irmãos da igreja; visita de equipe de apoio com notebook para exibição do sermão; envio de correspondências com as leituras recomendadas; encontros pontuais em locais abertos e sem aglomerações, além de proporcionar financeiramente o acesso à internet.

Ceia
Também questionou-se sobre como cada igreja lidou com o sacramento da Ceia. Seguem as repostas:
38,2% orientaram para celebração individual ou em família, com os elementos tradicionais;
2,6% orientaram para celebração individual ou em família, com elementos alternativos;
26,8% orientaram para que a ceia não fosse celebrada individualmente ou em família;
19,1% não deram nenhuma orientação;
13,3% responderam como outras.

Nota-se a manutenção das liturgias de costume das igrejas e a busca por formas alternativas de socialização digital. O aumento considerável na procura de transmissão dos cultos pela internet sinaliza uma modificação que poderá se tornar comum nas práticas eclesiásticas pós-pandemia. Relatórios de tendências apontam a “manutenção de ritos” como uma necessidade em um tempo no qual somos induzidos/as à ansiedade. Buscar formas de unir a família, sustentar comunidades e gerar união é fundamental, segundo especialistas.

Quanto à administração do sacramento da Ceia, a pesquisa mostrou que não existe consenso nas práticas das igrejas. Sabemos que vários pontos da teologia do culto são tangenciados quando passamos a “transmitir um culto” pela internet e ministrar um sacramento “a distância”. A ausência de unanimidade aponta para a necessidade de discutir teologicamente a viabilidade dessas práticas durante e após a pandemia.

Uma atividade que se mostrou muito relevante no cenário da pesquisa é a reunião de pequenos grupos remotos para que as pessoas compartilhem com irmãos e irmãs os seus desafios, as tristezas e alegrias, além de orarem juntos ou realizarem uma breve reflexão bíblica.

Projetos Sociais
Antes da pandemia de Covid-19, 10% das igrejas não realizavam nenhum tipo de trabalho social; 51% das igrejas que não tinham projetos sociais iniciaram algum durante a pandemia; 57% do total de igrejas que responderam o questionário iniciaram um novo projeto social durante a pandemia; 51% das igrejas disseram que gostariam que houvesse maior capacitação em “assistência social”.

Demandas emocionais
A pesquisa contemplou se houve alguma iniciativa para suprir as demandas emocionais dos membros durante o período de isolamento. Um quarto das igrejas não fez nada a respeito. As demais fizeram algo através de profissionais da saúde mental ou de obreiros/as da própria igreja.

Segundo o relatório “Connecting in a Isolated World”, da The Nucleus Group, é notório observar os efeitos colaterais emocionais provocados pelo isolamento social, tais como: confusão, solidão, tédio, desesperança e impotência.

Uma das razões disso é por estarmos em um período no qual somos confrontados/as com a incerteza. Assim, processamos tal momento como algo ameaçador, o que nos traz desgaste físico e emocional.

A pesquisa mostrou uma lista grande e variável de novas preocupações da igreja, enquanto instituição, em relação ao contexto de isolamento social. Entretanto, no que diz respeito às ações efetivas para lidarem com essas questões, predominou a atuação dos/as obreiros/as ou até mesmo nenhuma iniciativa a respeito. Isso aponta para a necessidade de desenvolvimento de propostas articuladas entre pastores/as e profissionais da saúde das mais diversas especialidades para fazer frente às novas demandas emocionais dos membros.

Ficou evidente também o desejo de mais da metade das igrejas em capacitar-se melhor para suprir as novas demandas de assistência social que surgiram durante a pandemia.
O relatório “Futuro Tensionado” traz uma reflexão sobre a questão da comunidade em que vivemos. Para os autores, é um momento oportuno para refletirmos sobre nosso papel enquanto cidadãos/ãs, colaboradores/as, familiares e amigos/as.

Para os/as cristãos/ãs, essa reflexão deveria ser constante e intencional. Faz-se necessário, mais do que nunca, entender as implicações do mandato cultural e do cuidado com o próximo.

Mídias sociais e educação
As mídias sociais tornaram-se uma importante – e talvez fundamental – ferramenta para a manutenção do contato entre os membros e as dinâmicas das igrejas.

Quase metade das igrejas (46%) que participaram da pesquisa passou a utilizar oficialmente o YouTube após o isolamento social, 26% passaram a usar o Instagram, 18% o Facebook, 9% o WhatsApp e 5% o Spotify. 

Antes do isolamento, 95,6% das igrejas não faziam uso de nenhum recurso de EaD. Após o isolamento, quase 1/3 adotou recursos de EaD para suprir as classes presenciais.

Uso de Ensino a Distância
A maioria das igrejas (78%) que adotaram a educação a distância tomou essa decisão para suprir as classes bíblicas. Depois, vieram as classes de crianças e adolescentes com 32%, e apenas uma minoria para a formação de lideranças, com 22%.

Quanto à produção de EaD, 3/4 das igrejas (76%) que adotaram o uso de EaD produzem os seus próprios materiais. As demais utilizam materiais de terceiros, sendo alguns de uso comum, outros de uso exclusivo da própria igreja.

Chama a atenção que mais de 95% das igrejas não faziam nenhum uso de recursos de EaD. Mesmo após a pandemia, menos de 30% das igrejas iniciaram algum projeto dessa natureza.

Fica evidente um imenso horizonte de trabalho a ser explorado pelas igrejas que, entre outras coisas, são comunidades de educação e formação cristã. Pensar a educação cristã na era digital é urgente para a maioria das comunidades de fé no Brasil.

Mesmo com todas as dificuldades mencionadas, das igrejas com iniciativas de EaD, 76% procuraram produzir o seu próprio material. Com certeza, essa é uma oportunidade de crescimento e criatividade nessa área pouco explorada, mas também sinaliza uma possível precariedade dos recursos, que foram iniciados sem preparo prévio, ou mesmo um esnobismo digital, tendo em vista a imensidão de materiais já disponíveis na internet.

A curadoria de conteúdo será uma prática cada vez mais fundamental para o sucesso da educação cristã na era da informação.

Próximos passos
Na última parte da pesquisa, buscou-se entender quais eram as perspectivas futuras das igrejas, bem como seus próximos passos. Importante ter em vista a data em que a pesquisa foi feita (24/04 a 05/05). Isso tem implicação direta nas respostas dadas, as quais podem ter mudado com o avanço da contaminação até a data de publicação.
Metade das igrejas afirma que retornarão com todas as atividades nos próximos seis meses, mas gradualmente. A outra metade voltará apenas com atividades prioritárias ou dominicais.

As igrejas pesquisadas também responderam sobre os desafios futuros, que seguem sem uma ordem de relevância: organização financeira; relevância ministerial; resgate de pessoas perdidas; restauração da esperança e da fé; cuidado emocional; retorno das atividades presenciais; enfrentamento do medo de voltar a se reunir; readequação do cronograma; compreensão do novo paradigma social e elaboração de um planejamento.

Os/as organizadores/as da pesquisa apontam a LSN Global como uma das mais importantes plataformas de pesquisa de hábitos de consumo e tendências do mundo; ela assinala um dado relevante: somos a população mais jovem da história. Dentre as diversas implicações que isso tem, uma delas é a relação com as marcas, que estão sendo questionadas sobre a incompatibilidade entre o discurso e a ação. 

Acredita-se que para a igreja isso não será diferente: cada vez mais seremos confrontados/as com a coerência entre aquilo que pregamos e fazemos.
É urgente uma teologia com desdobramentos públicos e práticos emanando das nossas comunidades. É urgente um testemunho mais coerente por parte da igreja evangélica brasileira. 

/// Leia a pesquisa acessando AQUI!
 


Publicado originalmente na edição de JULHO de 2020 do jornal Expositor Cristão 

*Reprodução parcial ou integral deste conteúdo autorizado desde que seja citado a fonte conforme abaixo:

[Nome do repórter ou autor], Expositor Cristão (Edição Julho de 2020)


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