Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Conscientização, Liderança, Entrevista, Capa, Pastoral | 02/04/2019 às 14:59:35


O gemido da liderança pastoral


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Em abril comemora-se o Dia do Pastor e da Pastora na Igreja Metodista. Poderíamos elencar uma série de exemplos de homens e mulheres íntegros/as, retos/as que são verdadeiros/as canais de bênçãos na vida de muitas pessoas. Mas um fato preocupante que temos visto ultimamente é a depressão que tem chegado à liderança pastoral. Muitas vezes, para muitos/as desses/as líderes, a opção é a licença pastoral como refúgio de um esgotamento profundo, outros/as não podem tirar a licença porque a Igreja acaba sendo a única fonte de renda da família pastoral. As cobranças acompanhadas do esmero e dedicação pastoral, se não forem bem dosadas, podem ocasionar depressão. 

Como lidar com essas situações? Como ajudar pastores e pastoras que sofrem calados/as em seu trabalho ministerial? Como prevenir para que não ocorram outras tragédias pessoais nas histórias das igrejas pelo Brasil afora? São questões que Everton Lacerda procurou corajosamente responder em sua pesquisa: Suicídio de Pastores: uma análise dos fatores de risco que contribuem para a consumação do suicídio. O trabalho relata a trajetória do conceito de suicídio analisando sua evolução histórica, enfatizando a produção de estudos sobre suicídios de pastores e pastoras, que têm aumentado nos últimos anos, mas ainda são escassos. Da mesma forma que são escassas as pesquisas sobre depressão e Burnout, considerada como “síndrome da desistência de exaustão ou consumição”. Ainda que pouco conhecida, o diagnóstico da síndrome de Burnout tem sido muito comum em pastores/as devido às demandas desmedidas e metas utópicas às quais se submetem e se frustram por não atingirem no contexto da religião.

Jacira Lima, teóloga e mestra em Psicologia, explica que é preciso coragem para falar sobre o tema. “A pesquisa exigiu coragem porque o autor procurou abordar as causas e principalmente o cuidado que homens pastores evangélicos precisam tomar para viver bem em meio a uma sociedade que exige cada vez mais deles no exercício do ministério”, destacou.
A pesquisa, disponível no site da Amazon, propõe que ações e medidas preventivas possam contribuir para aqueles/as que estão flertando com a própria morte mediante o sofrimento insuportável e a desesperança, a fim de que eles/as resgatem o sentido da existência a partir da tomada de consciência da importância do cuidado de si mesmo/a, que acontece mediante a definição e priorização de parâmetros que estruturam os pilares de sustentação da vida pessoal, familiar e ministerial proporcionando o equilíbrio necessário para uma mente saudável.
A Bispa Marisa de Freitas Ferreira, presidente da Região Missionária da Amazônia, também defende que não é fácil discutir o assunto. “Esta não é uma resposta fácil de se dar. O tema depressão anda, de certa forma, banalizado. Como portadora de depressão de causa endógena, tratada por psiquiatra e psicóloga, oro para que mais pessoas encontrem a saúde que tenho encontrado”, disse a bispa.

Preocupação
Segundo estudos realizados pelo Instituto de Desenvolvimento de Liderança da Igreja, cerca de 70% dos/as pastores/as lutam diariamente contra a depressão e 72% dizem que estudam a Bíblia somente para preparar sermão. Esse mesmo estudo demonstrou que 80% consideraram que o ministério pastoral afeta de maneira negativa as suas próprias famílias e 70% dizem que não têm um/a amigo/a próximo/a.

Os dados são realmente preo­cupantes. José Carlos Martins, em sua obra “O Pastor”, destaca algo extremamente alarmante. “A família do/a pastor/a é sempre a primeira que sofre com ele/a. A Igreja tem o/a pastor/a, mas nem sempre a família o/a tem. O/a líder religioso/a acaba tendendo a ser mais atencioso/a com a Igreja do que com a própria família. Isso é uma característica da nossa herança teológica espiritual. É muito bom sentir-se vocacionado/a, mas a excessiva sacralização da vocação pode fazer com que o/a pastor/a perca o senso de si mesmo/a, tornando-se uma ‘propriedade da sua vocação’. Por isso, ocorre em muitos casos a perda da individualidade e da identidade, para não dizer da santidade”, destacou Martins.

Para o missionário da Sepal, Marcos Quaresma, na vida de um pastor ou pastora, há três fatores que influenciam mais fortemente seu comportamento. “Sua fé, seus/as amigos/as e parentes e sua comunidade. Os valores de sua fé o/a estimulam a ser simples e humilde, seus/as amigos/as e parentes esperam que ele/a seja um sucesso profissional e sua comunidade espera que ele/a trabalhe duro, para ela crescer e todos/as se sentirem orgulhosos/as de fazer parte daquela grande e famosa igreja. O problema é que em geral essas três influências não conseguem se equilibrar, o que gera tensão e estresse no/a pastor/a. Quando esta situação chega ao limite, ele/a perde a esperança e o sentido de viver e prega seu ‘último sermão’”.

Novos caminhos
Um dos caminhos a serem trilhados é o Pastoreio de Pastores. Para o Pastor Helerson Alves Nogueira, docente na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, reconhecer a fragilidade humana é fundamental. “Uma das urgentes tarefas da Igreja é reconhecer as fragilidades de compreensão da dimensão terapêutica na agenda pastoral. Além disso, é preciso reconhecer também o alto grau de individua­lismo do cristianismo contemporâneo”, disse o pastor.

Nogueira destaca ainda que pastores e pastoras correm o risco de sucumbir aos crescentes apelos da opinião pública evangélica que, em certa medida, refletem tal individualismo em expectativas e anseios projetados na figura pastoral. “Precisamos enfrentar e superar a cultura do isolamento e do individualismo com sabedoria bíblica e conhecimento de nossa própria tradição teológica metodista”, disse.

A Bispa Marisa aponta que a busca por ajuda clínica é uma saída indispensável. “Depressão é uma patologia tal como o são a diabetes, a hipertensão arterial, o lúpus, a artrose, uma cardiopatia etc. Como tal, para evitar tragédias envolvendo o quadro clínico da depressão (estagnação e/ou suicídio), é necessário que pastoras e pastores reconheçam que há muito que se aprender também com a medicina (assim como a medicina tem a aprender com a fé cristã)”, relatou a bispa em entrevista publicada no abaixo.

 

Entrevista com a Bispa Marisa de Freitas Ferreira, presidente da Região Missionária do Nordeste

Bispa Marisa, em sua percepção, quais os caminhos que devem ser percorridos para evitar essa tragédia no ministério pastoral?
Esta não é uma resposta fácil de se dar. O tema depressão anda, de certa forma, banalizado. Por estar em voga nas mídias, em meios de comunicação em massa e até na mídia cristã e gospel, o sentido da palavra me parece estar empobrecido. Muitas pessoas, pelo fácil acesso ao tema, se sentem em condição de discutir o assunto – o que é bom por um lado (divulgação do tema). Há, porém, o risco presumido de ter muitos/as entendedores/as do assunto, que na verdade só têm um conhecimento superficial da depressão.

Qual o primeiro passo a seguir para evitar a depressão?
O passo mais responsável para lidar com a depressão é o de obter conhecimento mais profissional e menos acercado de “achismos”. Depressão é uma enfermidade comprovada pela medicina. Ela não é uma reação imatura ou carencial oriunda de pessoas sem fé ou sem força (em alguns poucos casos de outras enfermidades psíquicas isso até pode ocorrer, mas são exceções). Depressão é uma patologia tal como o são a diabetes, a hipertensão arterial, o lúpus, a artrose, uma cardiopatia etc. Como tal, para evitar tragédias envolvendo o quadro clínico da depressão (estagnação e/ou suicídio), é necessário que pastoras e pastores reconheçam que há muito que se aprender também com a medicina (assim como a medicina tem a aprender com a fé cristã). 

Então, buscar ajuda é fundamental?
Sim. Buscar um conhecimento mais profundo e verdadeiro é o que permitirá que pessoas, cristãs ou não, se autoavaliem e percebam que precisam de auxílio para sua saúde. Uma conduta médica, na grande maioria das vezes acompanhada do suporte da terapia psicológica, certamente permitirá que a depressão seja erradicada. Em casos de depressão de causa endógena (que independem de uma causa externa, seja emocional, traumática ou similar), a doença pode ficar sob controle, tal como se dá com qualquer outra doença crônica.

Quem é a maior inimiga da depressão?
A maior inimiga do controle da depressão é a resistência que se tem a ela. Líderes cristãos/ãs já admitem doenças tais como parasitoses, cardiopatias, circulatórias e tantas mais. Até procuram cuidados médicos sem maior dificuldade. Entretanto, em relação à doença depressiva, há uma falsa aura de que ela só se achega a pessoas que não “exercem a fé” ou de que é uma doença proveniente de ação do demônio. Esses conceitos trazem vergonha e temor a quem se sente deprimido, inibindo mais ainda o enfrentamento da doença.

A senhora já declarou que tem depressão. Como lida com a doença?
Como portadora de depressão de causa endógena, tratada por psiquiatra e psicóloga, oro para que mais pessoas encontrem a saúde que tenho encontrado. E isto graças a reconhecimento da doença e o devido tratamento. Eu sou portadora de depressão, mas eu não sou a doença. Sou, sim, alguém com limitação, mas criada à imagem e semelhança de Deus.

Pr. José Geraldo Magalhães

Fonte: Jornal Expositor Cristão - edição de abril/2019

 

 


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