Publicado em Notícias, Igreja e Sociedade | 02/04/2018 às 12:03:17


Metodistas de Boa Vista acolhem Imigrantes que chegam à capital de Roraima

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Projeto que começou em abrigo da prefeitura já faz parte da Igreja Metodista Central 

Você já deve ter ouvido falar da história do povo de Israel, que saiu do Egito em peregrinação rumo a Canaã. Esse povo era liderado por Moisés no Antigo Testamento. Essa história, contada no livro de Êxodo, remonta a vários séculos atrás. A saída orientada por Deus a Moisés era para buscar algo novo. É normal as pessoas migrarem de uma cidade para outra em busca de novas oportunidades.

Em 2014, presenciamos os/as haitianos/as que chegavam ao Acre e de lá embarcavam para São Paulo, Paraná e outros estados em busca de novas oportunidades por causa do terremoto que assolou o Haiti em 2011. 

Há quase um ano, o Expositor Cristão abordou o tema Imigrantes e Refugiados/as para alertar a Igreja sobre essa realidade tão presente em nosso país. A bola da vez agora são os/as venezuelanos/as, que chegam a Roraima por causa da crise na Venezuela. 

A Igreja Metodista em Boa Vista/RR despertou para esse chamado de cuidar dos/as imigrantes, desde novembro de 2016, e tem realizado um excelente trabalho junto às crianças e famílias que estão em abrigos e praças. O Pastor Luis Augusto Cardias explica que o trabalho de acolher os/as venezuelanos/as em Boa Vista iniciou em um espaço cedido pela prefeitura. 
“Começamos dentro do refúgio do Pintolândia, cedido pela prefeitura para abrigar os/as indígenas e não indígenas que estavam perambulando pela cidade, dormindo em praças e nas esquinas das ruas pedindo ajuda”, disse o Pastor Augusto.

A intenção inicial era levar lanches e algumas atividades para umas 70 crianças que estavam ali, mas a realidade era outra. “A cada semana chegava mais gente. Chegavam em média 150 pessoas e depois foi para 250, 450, até 600 pessoas, sendo grande parte indígena da etnia Waraos”, relatou o pastor.

A enorme quantidade de pessoas no abrigo inviabilizou o trabalho que era realizado pela Igreja de Boa Vista. Não restou outra saída a não ser levar o projeto para a igreja local. “Nos reunimos em Concílio e aprovamos colocar em prática o projeto Sombra e Água Fresca, que atenderia, três vezes por semana, 60 crianças e 30 mulheres”. Surgiu, então, o projeto Recriareducar, que acontece nas salas da Igreja Central de Boa Vista. O projeto oferece atendimento médico, psicológico, recreação lúdica, duas refeições, educação, higiene, aulas de música, alfabetização e educação cristã. As mulheres têm aulas de artesanato e palestras sobre saúde da mulher e prevenção à gravidez.

Serviço

Além das ações mencionadas, a Igreja foi desafiada pelo Corpo de Bombeiros da Polícia Militar e pela Defesa Civil a dar apoio ao abrigo do bairro Tancredo Neves. São centenas de refugiados/as nesse espaço. “Conseguimos arrecadar, somente no mês de janeiro, 675 quilos de alimento para essas pessoas. Levamos um médico metodista americano da cidade de Helena (capital do estado norte-americano de Montana) que, em dois dias, atendeu 475 pessoas, com a equipe do Pastor Cleber França da Igreja Metodista da Barra do Piraí/RJ”, enfatizou o pastor, que tem conseguido algumas parcerias para lidar com essa realidade.


Mulher dá banho na criança em público na cidade de Pacaraima/RR.

O desafio realmente aumentou quando a praça Simon Bolivar, que, por ironia do destino, fica na Av. Venezuela, em Boa Vista, passou a abrigar cerca de 800 venezuelanos/as, sem água, banheiro, comida; são famílias inteiras, dormindo no chão, sem nada, em uma situação difícil.

Márcia Monteiro, esposa do Pastor Luis Augusto Cardias, publicou em sua rede social que tem conseguido alguma ajuda. “Já conseguimos algumas barracas, lonas, medicamentos, alimentos e levamos tudo até essas pessoas para amenizar o sofrimento deste povo. O projeto na Igreja continua acontecendo semanalmente, mas, paralelo a ele, estamos fazendo o possível para atender à demanda dessa gente. Demos mais um passo de fé no dia 11 de março, quando vamos inaugurar a nossa padaria, que vai gerar trabalho para dez famílias venezuelanas”.

Em São Paulo, a Igreja Metodista do Jardim Colorado se sentiu desafiada por uma das lições da revista de Escola Dominical a se mobilizar em favor dos/as imigrantes. Camila Abreu Ramos, esposa do Pastor local, Gabriel Prado, já acompanhava a situação de sua amiga, Maria Berlyn Nel Milfort (ao lado) que migrou da Venezuela. “Nós olhamos a situação triste da Síria, queremos ajudar, e às vezes esquecemos que a Venezuela está aqui pertinho precisando de ajuda”. Maria é cabelereira, trabalha em São Paulo e está no processo de trazer seu filho para o Brasil.

A história da venezuelana é como a de tantas outras mulheres que saem de seus países em busca de oportunidades. Infelizmente ela conseguiu trazer somente a filha de oito anos. O filho, Wesley Marck Nel, 14, ainda está na Venezuela com a avó. “Paguei um advogado na Venezuela para tirar meu filho de lá, mas, ao chegar em Barcelona (cidade da Venezuela), não deixaram minha mãe embarcar com ele. O pai das duas crianças saiu do país e não me falou nada. Tive que ir até Barcelona e explicar que sou a mãe das crianças. Infelizmente só deixaram eu trazer minha filha. Já fui ao Consulado e eles fizeram um documento dando poder para minha mãe matricular meu filho na escola, mas na Venezuela eles não aceitaram o documento. Meu filho não está estudando”, lamenta Maria. 

Enquanto isso, o filho, Wesley, permanece na Venezuela à espera da mãe. “Meu filho me liga quase todos os dias me perguntando se eu vou voltar para pegar ele. Está muito complicado na Venezuela. Conversei com o diretor da escola e eles querem que eu volte para a Venezuela para matricular meu filho e, seu eu não voltar, eles vão colocar o Conselho Tutelar porque dizem que estou abandonando meu filho. Estou aguardando e deixando nas mãos de Deus. Minha mãe disse que o melhor caminho seria ir até Pacaraima, em Roraima”, finalizou.

A Igreja Metodista em Jardim Colorado continua fazendo a missão. Camila Abreu é uma das mobilizadoras. “Compartilhei a história da Maria com a igreja local e fiz referência à lição. Logo, todos começaram a arrecadar alimentos para enviarmos para a família dela. O porta-malas do meu carro sempre fica cheio de doações. Membros da Igreja e amigos/as já arrecadaram quase 100 quilos de alimentos entre arroz, feijão e leite em pó para enviar à família de Maria enquanto a situação não se resolve”, disse.

Crise

A situação é tão grave que o Governo de Michel Temer assinou um decreto reconhecendo a “situação de vulnerabilidade” em Roraima. O Estado é a principal porta de entrada dos/as imigrantes que fogem da crise de abastecimento de alimentos, do colapso dos serviços públicos e de uma inflação de 700% no país vizinho. O presidente ainda editou uma medida provisória (MP) que acena com ações de assistência a emergências para imigrantes venezuelanos/as no Estado em diversas áreas, como proteção social, saúde, educação, alimentação e segurança pública. Elas serão coordenadas por um comitê federal composto por representantes de distintos ministérios e conduzidas em parceria entre União, Roraima e municípios.


Igreja Metodista em Boa Vista acolhe crianças em projeto social

Márcia Cardias Monteiro gravou um vídeo com um venezuelano que faz um apelo. “Estou aqui em busca de ajuda. Minha família está na Venezuela e precisa de minha ajuda. Estou em busca de um trabalho. Sou bom cozinheiro, pedreiro, motorista especializado, mas estou disposto a qualquer trabalho”. O vídeo foi publicado na rede social de Márcia.

Junto com os/as venezuelanos/as que atravessam a fronteira em busca de refúgio no Brasil, chegam, por dia, 180 crianças com idade entre zero e 14 anos. Segundo a Polícia Federal, 15% dos/as refugiados/as estão nessa faixa etária. Somam-se a elas os bebês filhos/as dos/as imigrantes/as que nascem em território brasileiro. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde de Roraima, a cada quatro horas, nasce um bebê filho/a de pais venezuelanos em Boa Vista.

Somente em janeiro deste ano, foram realizados 183 partos, seis vezes mais que os 30 registrados nos últimos dois anos, quando o fluxo migratório rumo a Boa Vista não era tão intenso. 

Apoio

Servir a Deus com integridade exige o cumprimento do Ide de Jesus. Às vezes não é possível fazer a missão sozinho/a. Várias igrejas da 1ª, 3ª, 5ª, 7ª e 8ª Regiões Eclesiásticas e outros/as irmãos/ãs têm apoiado a missão e cuidado dos/as venezuelanos/as. “Em todo o tempo nós temos tido o apoio de várias regiões que, sempre sensibilizadas, ofertam para o sustento das ações do projeto com os/as refugiados/as. Recentemente fomos informados/as de que o projeto vai receber a ajuda da Oferta Nacional da Ação Social. Nossos desafios são enormes, mas cremos que Deus está na frente. Precisamos de orações porque esse êxodo não vai cessar agora”, finalizou o pastor.

Representantes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estiveram em Boa Vista na primeira quinzena de março para conhecer a situação vivenciada pelas famílias migrantes venezuelanas, sobretudo, os/as adolescentes e crianças. A prefeita, Teresa Surita (MDB), recebeu o grupo no Palácio 9 de Julho, onde foram discutidas medidas que possibilitem maior apoio às ações promovidas pelo município aos/às migrantes.

Atualmente, há cerca de 40 mil venezuelanos/as, representando aproximadamente 10% da população boa-vistense. Além disso, 15% das crianças na rede municipal de ensino são venezuelanas. Na área de saúde, a preocupação é ainda maior, quando há dezoito notificações de casos de sarampo, sendo que seis já foram confirmados.

Direitos Humanos

O coordenador da Pastoral de Direitos Humanos da Igreja Metodista, Pastor Welinton Pereira, esteve em Boa Vista para ver essa realidade de perto e participou também da reunião com a prefeita, Teresa Surita. Em seu relato, ele destaca que o quadro é assustador. São homens, mulheres, jovens e crianças em fuga pela busca de melhores condições de vida.

“Estamos diante de uma crise humanitária com uma grande imigração de venezuelanos/as que diariamente entram no Brasil através da fronteira com a Venezuela na cidade de Pacaraima. O quadro é desolador!”, disse o pastor, que acredita passar pela fronteira do Brasil com a Venezuela cerca de 800 pes­soas diariamente. 

Segundo o Pastor Welinton, o que lhe renovou as esperanças são os trabalhos realizados pela Igreja Metodista em Boa Vista. “Um alento que renovou minha esperança foi conhecer o trabalho do Pastor Luís Augusto Cardias, que, apesar de estar apenas há dois anos na cidade, seu trabalho já é uma grande referência para Boa Vista e para todos/as que visitam a situação dos refugiados/as”, desabafou. 

Citando as referências bíblicas no livro de Êxodo e quando Jesus buscou refúgio no Egito para fugir da perseguição de Herodes, o Pastor Welinton faz um apelo: “Como seguidores/as de Jesus, precisamos acolher a todos e todas que buscam refúgio em nosso país”, finalizou.

Invasão

De acordo com o jornal local Folha de Boa Vista, no dia 19 de março, moradores/as invadiram o abrigo em Mucajaí/RR, município localizado a 50 quilômetros da capital, e expulsaram venezuelanos/as, além de fechar a rodovia. A manifestação quase vira tragédia. O protesto reuniu centenas de pessoas e populares que invadiram o abrigo de venezuelanos/as na cidade, expulsaram os/as moradores/as do local e jogaram seus pertences na rua. Logo em seguida atearam fogo. 


A rodovia BR-174, que liga Boa Vista a Mucajaí, no perímetro urbano, também foi fechada pelos/as populares, que pediam o fim do que consideram “invasão venezuelana” na cidade. O clima ficou pior quando moradores/as organizaram um buzinaço pelas ruas da cidade, em protesto contra a morte do brasileiro Eulis Marinho de Sousa, de 49 anos, assassinado a pauladas na madrugada de 18 de março, supostamente em uma briga de bar envolvendo venezuelanos/as.


Os/as manifestantes também utilizaram cartazes e faixas para fazer o protesto e reclamaram da chamada “invasão venezuelana” na cidade. Segundo o jornal FolhaBV, Mucajaí está um caos com a presença de milhares de venezuelanos/as invadindo a região. Já não existe mais sossego e a violência aumentou drasticamente nos últimos meses. 

Pr. José Geraldo Magalhães 
Publicado originalmente no Jornal Expositor Cristão de abril.


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