Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Notícias, Capa, Eventos | 04/06/2019 às 14:48:56


Pentecostes ontem e hoje!


Em hebraico, espírito é ruah, e em grego, pneuma. Ambos os termos estão ligados a processos fundamentais, pois significam vento, sopro, furacão e vendaval. Inicialmente, o Espírito não é conscientizado como pessoa, mas como uma força divina e originária que originária da criação, move-se nos seres vivos e age nos homens. Pois o ser humano não pode viver sem garganta, respiração, alento e fôlego. No mundo que considera tudo material, mecânico, sentimental, é importante sublinhar e enfatizar a força do Espírito Santo na nossa vida, como uma renovação saliente de todas as coisas. 

Para nós, cristãos/ãs, o Pentecostes marca o nascimento da Igreja e sua vocação para a missão universal. Festa do diálogo e da compreensão. Portanto, a Igreja deve continuar a ser sinal, ou seja, precisa tornar visível o Deus invisível; tornar visível o transcendente. Como ela faz isso? Através de sinais visíveis: da comunidade cristã; da celebração do sacramento; da proclamação da palavra.

O Bispo João Carlos Lopes, presidente da Sexta Região Eclesiástica, considera que a vivência e transformação das pessoas é um sinal que o Pentecostes continua com a mesma experiência do passado. “Há boas notícias no final da história de hoje. Se estamos desencorajados/as, desapontados/as; se nossos esforços parecem não gerar resultados; se de coração desejamos a alegria da presença de Deus; milagres realmente acontecendo; vidas sendo mudadas; a Igreja fazendo real diferença na sociedade, então a história de Pentecostes é nossa segurança de que aquele que fez no passado faz hoje também”, disse o bispo.

“Chegando o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos num só lugar. De repente veio do céu um som, como de um vento muito forte, e encheu toda a casa na qual estavam assentados. E viram o que parecia línguas de fogo, que se separaram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava” (Atos 2. 1-4)

De fato, sem o Espírito Santo, Deus está distante, o Evangelho é letra morta, Cristo é do passado, a Igreja é uma simples organização. Com o derramamento do Espírito Santo narrado por Lucas, em Atos dos Apóstolos (2.1-13), os discípulos que estavam trancados numa casa porque tinham medo dos judeus agora saem em missão. Portanto, o Pentecostes tornou-se o símbolo do nascimento das igrejas cristãs, reunidas ao redor dos ensinamentos de Jesus. Com a presença do Espírito Santo, Deus se faz presente, o Evangelho se torna vida, Cristo se faz presente e a Igreja faz sentido para a comunhão de seus membros em continuar a missão dada por Jesus. 

Para a pastora e docente na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, Margarida Ribeiro, Pentecostes é um tempo de vivenciar a unidade do povo de Deus. “Neste tempo de Pentecostes há muitas histórias para trazermos à nossa memória. Em meio à diversidade, destaco a unidade. Como dizia John Wesley: ‘No essencial, Unidade, no não essencial, Liberdade, e em tudo, Amor’. Que nesses tempos de Pentecostes e em meio às agruras da vida, possamos vivenciar a unidade na busca da Justiça, dignidade de vida e a paz”, disse a Pastora Margarida.

O Bispo João Carlos Lopes ressaltou na Palavra Episcopal desta edição (ver pág. 3) que é importante ler essa história narrada em Atos com esperança. “Não podemos ler a história de Pentecostes apenas como a memória de um dia glorioso no passado, mas que possamos ler essa história como uma promessa; como um sinal daquilo que ainda será. Leiamos com gratidão, otimismo e esperança. Com a certeza de que a renovação é sempre possível e pode começar hoje”, destacou o bispo.

Para o Bispo Adonias Pereira do Lago, presidente da Quinta Região Eclesiástica, o Pentecoste não é menos importante que a Páscoa. “O Pentecoste precisa ser celebrado e vivenciado pela Igreja Cristã tanto quanto a Páscoa! Precisamos aquecer nosso coração com a presença poderosa do Espírito Santo, sem o qual os/as perdidos/as não serão convencidos/as de seus pecados, a Igreja perderá seu vigor missionário. O Pentecostes gera vida nova na velha criação, produz em nós frutos de uma comunhão transformadora e testemunho contagiante na sociedade”, disse o bispo. 

“A partir do dia seguinte ao sábado, o dia em que vocês trarão o feixe da oferta ritualmente movida, contem sete semanas completas. Contem cinquenta dias, até um dia depois do sétimo sábado, e então apresentem uma oferta de cereal novo ao Senhor” (Levítivo 23.15-16)

História - Pentecostes é uma celebração muito importante do calendário cristão e comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo. Tradicionalmente, o Pentecostes é celebrado 50 dias depois do domingo de Páscoa, e no décimo dia depois do dia da Ascensão. 
O termo Pentecostes é de origem grega e significa “cinquenta dias depois”. Celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e seguidores/as de Cristo, durante aquela celebração judaica do quinquagésimo dia em Jerusalém. Essa data também é considerada o dia do nascimento da igreja.

Juntamente com o Natal e a Páscoa, esta é a terceira data mais importante do Ano Litúrgico. No Novo Testamento, Pentecostes é o dia da vinda do Espírito Santo, da chegada de Cristo à Terra. O Pentecostes marca o final da festa Pascal, de acordo com a doutrina cristã.
No Antigo Testamento, o Pentecostes era celebrado tradicionalmente pelo povo hebraico como Shavuoth, que significa “Semanas”. Nessa época, o motivo dessa celebração era para agradecer a Deus pela colheita e lembrar do dia em que Moisés recebeu as Tábuas com as Leis Sagradas (Torah).

O Pastor Luiz Carlos Ramos relembra a profecia de Joel no Antigo Testamento, em estudo publicado em seu site (www.luizcarlosramos.net) sobre Pentecostes. O profeta precisou fazer uma viagem de reconhecimento para ver a real situação de seu país. O que o profeta encontrou está relatado no primeiro capítulo do seu livro: “videiras secas (1.7); campos assolados, cereal destruído e olivais murchos (v. 10); colheitas de trigo e cevada perdidas (v. 11); árvores frutíferas secas (v. 12); sementes secas, silos roubados, armazéns demolidos (v. 17); gado gemendo, bois e ovelhas padecendo por falta de pasto (v. 18); pastagens consumidas pelo fogo (v.19); rios secos e estepes devoradas pelo fogo (v. 20)”.

Segundo o ex-docente da Fateo, a palavra que melhor define a situação do povo é “precariedade: escassez de recursos, instabilidade econômica e psicológica, debilidade física e moral, etc. (…), Mais lamentável ainda é o fato de que parte dessa dominação se dava mediante o sacerdócio de Jerusalém, comprometido com o império persa. O povo tem que pagar altas taxas e lhe são cobrados pesados impostos. Este é só o primeiro estágio de uma crise que se agravaria ainda mais, pois, pouco a pouco, esse sistema tributarista vai cedendo lugar ao escravismo. À medida que os recursos escasseiam e que não se pode mais honrar os compromissos tributários, resta ao povo pagar com trabalho e seus próprios corpos”, relatou o professor enfatizando, ainda, que pior do que lidar com as crises é tentar fugir delas. “Joel desafia o seu povo a enfrentar essa situação ao apontar para o caminho que leva à ruptura com a crise e o desespero. O profeta mostra que a calamidade não é ponto final, mas ponto de partida para a reconquista da dignidade”.

Segundo o estudo, são quatro as “ferramentas” apontadas por Joel que devem ser usadas para confrontar a crise. Publicamos as quatro na íntegra e no final você confere o link do texto completo.

1.    A memória dos anciãos, que eram a liderança do povo (1.2-3): “Ouvi isto, vós, velhos, e escutai, todos os habitantes da terra: Aconteceu isto em vossos dias? Ou nos dias de vossos pais? Narrai isto a vossos filhos, e vossos filhos o façam a seus filhos, e os filhos destes, à outra geração.” Joel apela para aqueles que guardam a lembrança dos acontecimentos importantes da história do povo, pois são eles os portadores da memória de libertação. A crise começa a ser superada quando os mais velhos colocam a sua experiência a serviço da comunidade.

2.    A transformação do coração, isto é, a conversão interior e profunda que implica numa nova consciência da forma do relacionamento com Deus e com o próximo. “Ainda assim, agora mesmo, diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto. Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal” (2.12-13). A superação da crise tem de ser superada por cada um de corpo e alma, com a emoção e com a inteligência.

3.    A celebração do Dia do Senhor, a respeito do qual o profeta faz coro com Amós, Sofonias, Abdias, Zacarias, Malaquias, Isaías, Jeremias e Ezequiel. Principalmente para Joel, o Dia do Senhor se refere ao castigo contra os pecados de Israel, mas que, havendo conversão, assume a forma de felicidade e de esperança. “Quem sabe se não se voltará, e se arrependerá, e deixará após si uma bênção, uma oferta de manjares e libação para o SENHOR, vosso Deus?” (2.14). Isso indica que há solução para a calamidade, a crise não tem a última palavra; “talvez”, “quem sabe”, Deus mude o castigo em bênção. A sorte do povo está nas mãos de Deus. O Dia do Senhor vem, na medida em que o povo de Deus caminha em sua direção.

4.    A plenitude do Espírito de Deus, pelo qual se manifesta a libertação sobre toda a comunidade. “E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias. Mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque, no monte Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, como o SENHOR prometeu; e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (2.28-32 ou 3.1-5). Antecipando o que haveria de acontecer no Pentecostes cristão (At 2, ver principalmente os vv. 16-21), Joel anuncia a presença permanente do Espírito sobre todo o povo de Deus, sem distinção de idade, sexo, raça ou condição social. Assim, todas as pessoas, plenas do Espírito de Deus, se tornam profetas que anunciam o evangelho, por meio de uma prática de resistência e de celebração da esperança.

Joel conclui sua profecia com o anúncio da restauração da sorte do povo de Deus: “Eis que, naqueles dias e naquele tempo, em que mudarei a sorte de Judá e de Jerusalém” (4.1), a precariedade dará lugar à abundância; o abandono, à presença constante de Javé como refúgio; as relações sociais injustas e excludentes serão substituídas por uma nova ordem onde “velhos e jovens”, “escravos e escravas”, “filhos e filhas” não mais serão discriminados, mas plenamente incluídos e respeitados. 

O estudo do professor e Pastor Luiz Carlos Ramos está publicado em: www.luizcarlosramos.net/pentecostes
   

Pr. José Geraldo Magalhães

Publicado originalmente na edição de junho de 2019


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