Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Episcopal | 04/06/2019 às 12:04:01


Palavra Episcopal: Pentecostes hoje!


A história do primeiro Pentecostes, na tradição cristã, pode ser encontrada em Atos 2; já lemos essa história muitas vezes. Mas hoje gostaria que a puséssemos dentro de um contexto maior. Vamos rever os eventos que aconteceram logo antes de Pentecostes, em Atos 1.

Era tempo de festa em Jerusalém. Estavam se completando 50 dias da Páscoa. Era a celebração do Pentecostes dos Judeus. Na tradição judaica essa era um tipo de festa da colheita, na qual o povo, vindo de todos os lugares, reunia-se em Jerusalém.

Essa era, possivelmente, a primeira vez que os/as seguidores/as de Jesus tinham a chance de se reunir depois da crucificação. Havia 120 deles/as e se reuniram no Cenáculo – não seria exagero pensar que essa foi a primeira reunião da igreja cristã.

Havia uma grande agenda sobre a mesa. Uma questão dominante estava diante deles: E AGORA, O QUE FAREMOS? Esses/as seguidores/as haviam ouvido Jesus dizer coisas como estas:

“Ide por todo o mundo e fazei discípulos de todas as nações.”
“Como o Pai me enviou, eu também vos envio.”
 “Vocês serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como na Judeia, em Samaria e até os confins da terra.”
Os assuntos dessa agenda seriam suficientes para manter os discípulos ocupados pelo resto da vida, mas eles ainda não haviam feito nada a respeito dessa agenda.

O assunto que tomou mais tempo deles até agora foi o lugar vago, deixado por Judas, entre os discípulos.“O lugar precisa ser preenchido. É necessário escolher o sucessor”. 

O assunto parece, para eles, muito urgente. Imaginemos a conversa: “É, precisamos ser 12. Essa é a tradição. Sempre fomos em número de 12, como as tribos de Israel”.

“Bem, precisamos de alguém com experiência. Alguém que tenha nos acompanhado o tempo todo. Não pode ser qualquer um”.    

No final, apenas duas pessoas parecem atender às exigências: Matias e José – o Justo. Eles eram muito parecidos. Então lançaram sorte e Matias foi o escolhido.

Matias pode ter sido muito fiel acompanhando Jesus­. Porém, em sua eleição foi a primeira e a última vez que ouvimos a respeito deles. Mas ele representava um nome e, na Igreja,  muitas vezes, preencher as vagas com nomes parece ser uma grande realização.

Agora, imaginemos a grande expectativa que Deus pai e Deus filho deviam ter a respeito daquela reunião. Eles acabaram de completar o mais tremendo trabalho da história. Deus pai enviou seu filho ao mundo. O filho completou seu ministério e orientou os discípulos a respeito do desejo do pai. Sob a autoridade do pai, ele operou milagres e disse que “coisas maiores que essas vocês farão”. E o povo, reunido para ser a Igreja, foi testemunha disso tudo. Eles/as sabiam que Deus estava pronto para fazer coisas novas. Sabiam que para Deus nada é impossível.

Imaginemos o espírito de Deus gemendo enquanto a primeira assembleia desses/as cristãos/ãs acontece. Eleições; debates; critérios; críticas a Judas; críticas à metodologia usada na eleição.

De repente, um som como o de um vento impetuoso, línguas como que de fogo descendo sobre as pessoas. Grande poder que os/as impulsiona para as ruas.

Que maravilha! Quando Deus se cansa de igrejas satisfeitas com realizações ridículas. Quando ele percebe que a injustiça, a mentira, a acepção de pessoas – coisas contra as quais a Igreja deveria profetizar – estão acontecendo dentro da própria Igreja; Deus age de maneira extraordinária. Pentecostes é algo extraordinário.

Todos ficaram atônitos; ninguém sabia o que estava acontecendo. Deus agiu. Nunca os discípulos haviam experimentado aquilo. Mas o mais importante: antes do pôr do sol, três mil pessoas haviam crido e se juntado à comunidade dos discípulos.

Que maravilha! Que animador! Creio que esta história deveria deixar a Igreja hoje muito nervosa; muito tensa! Por quê? Responda você mesmo/a. Nossa Igreja se parece mais com essa do final da história ou com aquela da assembleia para eleição de Matias?

Há boas notícias no final da história de hoje. Se estamos desencorajados/as, desapontados/as; se nossos esforços parecem não gerar resultados; se de coração desejamos a alegria da presença de Deus; milagres realmente acontecendo; vidas sendo mudadas; a Igreja fazendo real diferença na sociedade, então a história de Pentecostes é nossa segurança de que aquele que fez no passado faz hoje também. Deus resgatou seu povo da letargia e da morte muitas vezes. E podemos ter certeza de que Ele está disposto a fazer hoje novamente.

Se perguntássemos aos discípulos, antes de Pentecostes, como estaria a Igreja 50 anos mais tarde, eles não conseguiriam sonhar o crescimento vibrante e o testemunho valente que explodiu como resultado daquele dia: vida saindo da morte, ossos secos sendo revivificados.

De fato, Deus já fez isso antes. O corpo de Cristo, que é a Igreja, nunca morrerá. Quando sinais de morte aparecem, Deus aparece também como aquele que reaviva, vivifica, santifica.

Não leiamos a história de Pentecostes apenas como a memória de um dia glorioso no passado. Leiamos essa história como uma promessa; como um sinal daquilo que ainda será. Leiamos com gratidão, otimismo e esperança. Com a certeza de que a renovação é sempre possível e pode começar hoje. 

Bispo João Carlos Lopes

Presidente da Sexta Região eclesiástica

Publicado originalmente na edição de junho de 2019


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