Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Notícias, Opinião, Artigo | 10/12/2019 às 13:19:22

No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, amor

O tempo presente é marcado por várias mudanças. Entre as principais está o questionamento dos absolutos. Em suma, as instituições tradicionalmente sólidas são permanentemente postas à prova: família, igreja, casamento, escola etc. A realidade é desafiadora e mais desafiador ainda é tratar de um tema caro à teologia cristã: a unidade da igreja.

Como povo metodista temos algumas bases históricas e teológicas para pensar a Igreja como expressão do corpo vivo de Cristo. Por isso, os escritos de John Wesley e a produção em torno de seu pensamento são de suma importância para refletir sobre o tema da unidade.

Em primeiro lugar destacamos que para a Igreja se manter una é necessário que Cristo seja o senhor dela. À primeira vista, isso pode parecer estranho e óbvio ao mesmo tempo. Por que ressaltar o senhorio de Cristo na Igreja cristã? A necessidade se faz porque nos tempos atuais o personalismo é algo que assola as Igrejas. Muitos/as líderes manifestam a tendência de domínio e poder sobre outras pessoas satisfazendo assim suas tendências egoicas mais vis. Nesse sentido, as palavras de Pedro são atuais: “tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” (Mt 16.16). A afirmação é que a Igreja só pode se manter una tendo Cristo como fundamento. Collins, analisando a perspectiva de Wesley sobre a Igreja, destaca que para o fundador do metodismo “a Igreja […] é um organismo vivo, Corpo de Cristo, incitado pelo Espírito Santo e chamado àquela santidade condizente aos santos” (COLLINS, 2010, p. 320). Quando Cristo é o senhor há espaço para a diversidade: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11, 12).

O outro aspecto que se pode destacar sobre a unidade da Igreja é sua vocação discipuladora. É imprescindível que a Igreja esteja voltada para o discipulado cristão. O tema é deveras controverso, mas Wesley foi um defensor voraz de um modelo que tinha como prisma a perfeição cristã. “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4.13).

As bands (classes) eram utilizadas no metodismo para promover o crescimento espiritual, fortalecer a unidade e proporcionar o crescimento maduro dos cristãos e cristãs. Runyon em A nova criação destaca que “Wesley entendia que o sustento e encorajamento oferecidos pelas sociedades, classes e bands­ seguiam o padrão dado pelos apóstolos e pela Igreja Primitiva. Desde o início, “Deus […] edifica sobre seus filhos, uns pelos outros, em toda a boa dádiva, nutrindo e fortalecendo o ‘corpo’ a que servem os membros” (RUNYON, 2002, p. 148).

Tal fortalecimento não era dissociado da santidade social. Para Wesley, a vocação cristã era cooperar na missão de Deus em salvar o mundo. Para ele, mundo era visto sempre no sentido amplo (kósmos), despertando as vocações para agirem no mundo visando restaurá-lo à imagem e semelhança de Deus.

A vocação discipuladora da Igreja é também de responsabilidade social. Diante de uma realidade de violência e corrupção, desesperança política, ascensão de lideranças com caráter messiânico, a Igreja é chamada a exercer seu papel em unidade de fé, crescimento espiritual e sinalizadora da graça por meio de sua mensagem de transformação integral do ser humano, pautada na palavra de Deus.

O que o discipulado metodista tem a contribuir para a realidade social brasileira? A visão do discipulado metodista é integral. Esse é o diferencial em relação às inúmeras propostas que se veicula no meio cristão. O diferencial do discipulado metodista wesleyano é a perfeição cristã. 

Para Wesley, a santidade é necessariamente social. Nesse sentido, sempre primou pelos/as pobres, necessitados/as, analfabetos/as, órfãos/ãs, escravos/as, trabalhadores/as etc. Sem a responsabilidade social e a vocação integral do evangelho não há discipulado. Vejamos o que Runyon diz sobre a atuação do metodismo primitivo em relação à santidade social: “Todos os membros das sociedades tinham a responsabilidade de cuidar uns dos outros. O penny que davam semanalmente cresceu e transformou-se na primeira cooperativa de crédito, que oferecia empréstimos sem juros aos que estavam em situação difícil. Os metodistas já não precisavam ser presos por terem dívidas. A preocupação de Wesley com os desempregados resultou na criação de indústrias caseiras, e a venda de seus produtos entre os metodistas era feita pelos pregadores ambulantes” (RUNYON, 2002, p. 240).

A unidade da Igreja se faz respeitando sua diversidade e sinalizando para seu caráter discipulador integral. 

Luis Fernando Carvalho
Igreja Metodista em Cidade Alegria, Resende/RJ. 

// Referências:
T. RUNYON. A nova criação: a teologia de João Wesley hoje. São Bernardo do Campo: Editeo, 2002.
K. COLLINS. A teologia de John Wesley. Rio de Janeiro. CPAD, 2010.


Publicado originalmente na edição de DEZEMBRO de 2019 do jornal Expositor Cristão 

*Reprodução parcial ou integral deste conteúdo autorizado desde que seja citado a fonte conforme abaixo:

[Nome do repórter ou autor do artigo], Expositor Cristão (Edição dezembro de 2019)


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