Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Opinião | 27/02/2019 às 14:10:27


A sociedade pós-moderna pode morrer de sede


Dia 22 de fevereiro de 1992. O risco iminente de falta de água potável no planeta reivindicava soluções. A sociedade não ignora o fato. Nessa data histórica, ideias marcam um encontro, que seria conhecido como a Declaração Universal dos Direitos da Água, assinada pela ONU, e o Dia Mundial da Água, a ser celebrado em 22 de março. Sua vocação é contribuir para mudanças significativas na forma de se relacionar com o uso desse líquido essencial à vida, nesse mundo em que o consumo, sem juízo, dita as regras de convivência. 

Nesse cenário, nosso primeiro personagem, a Sociedade Pós-Moderna, convida o Dia Mundial da Água para viverem juntos no planeta Terra. Por ter um propósito concreto, ele aceita o convite. Afinal, sabe que não o realizará habitando folhas de papel e gavetas. A urgência se justifica: a falta de água vai matar o projeto humano.

Aberta ao novo, porém individualista, narcisista e voltada apenas para o hedonismo, a efemeridade, o imediatismo e o consumo, a Sociedade Pós-Moderna o recebe de maneira afetuosa, embora um pouco desconfiada. Não, ela não tem culpa. Trata-se apenas de uma vítima de tantas promessas, feitas a partir dos anos 1950, segundo as quais a ciência positivista, o iluminismo, o marxismo e o estruturalismo, por exemplo, seriam caminhos seguros para alcançar o progresso. E mais: a vida humana seguiria uma trajetória sem tropeços, rumo à realização pessoal e comunitária no seu sentido pleno, algo como a segunda edição do Paraíso terrestre. Não foi bem assim. Consequência disso, no pós-modernismo não há mais qualquer garantia de nada. A atitude de compromisso estrangulou-se. E se até mesmo a ciência deixou de ser considerada fonte da verdade, imagine como a ideia de perenidade de alguns recursos, como a água, foi para o espaço. Hoje sabemos muito bem o risco que isso significa, e como evitá-lo.

— Você viu quanta coisa deixou de significar algo inatingível, “eterno”? – pergunta a Sociedade Pós-Moderna ao recém-chegado Dia Mundial da Água. Ela se refere ao fato de que tanta coisa foi se tornando líquida, como na imagem proposta pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, autor da expressão “modernidade líquida”, o outro jeito de dizer que tudo o que é sólido se desmancha no ar. E convém lembrar que isso inclui nossas certezas de infinitude, nesse clima de vazio e niilismo. 

— Impossível não perceber. Mas isso não acontece só no mundo dos conceitos. No físico é a mesma coisa – responde o Dia Mundial da Água, visivelmente interessado em refletir sobre a relatividade de alguns temas atuais. Sim, porque poucas coisas se mostram frágeis como a garantia de que teremos água indefinidamente sem atitudes individuais e coletivas que garantam a sua existência para todos/as. A regra, portanto, é manipular esse líquido vital com racionalidade, precaução e parcimônia. A Sociedade Pós-Moderna retoma a conversa.

— O estoque de combustível fóssil era dado como “eterno”. Não é. Não sei como vai ser. Com a água acontece a mesma coisa, tudo parecia infindável. Também não é, e esse é o nosso drama, você percebe? – a Sociedade Pós-Moderna acrescenta.

— Só que nesse caso, nós dois sabemos como vai ser. Sem água, sem vida. A morte é democrática, não tem cor, nem partido. Não olha a conta bancária. Sem água é o fim de tudo. Se a minha proposta, que está na Declaração, não for aceita por você, a sua história está com os dias contados, afirma, categoricamente, o Dia Mundial da Água.

— Não se preocupe. Você não ouviu falar da descoberta feita pela NASA? Um novo sistema planetário com sete exoplanetas, que podem conter água líquida e vida – a Sociedade Pós-Moderna tenta dar mais leveza ao diálogo, caudaloso.

— Sem gracinhas, por favor – responde o Dia Mundial da Água. E prossegue: – Essa descoberta não resolve o nosso problema de escassez de água potável. Melhor encarar os fatos, aqui e agora. Ou será o fim da humanidade, pouco importa o que ela tenha conquistado: tecnologia, bens de consumo, conforto extremo… – E mais não disseram.

Naquele dia, o fim da conversa foi a metáfora, a profecia do que estava por vir. A morte não fala. 

Rubens Marchioni 
IM Rudge Ramos

/// Acompanhe na próxima edição o artigo do Pastor Ronan Boechat, A responsabilidade ecológica da Igreja.

Fonte: Jornal Expositor Cristão - edição de março/2019

 


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