Publicado por Sara de Paula em Notícias | 04/01/2018 às 15:34:20


Um homem para a eternidade


“Quanto a mim, andarei na minha integridade” (Salmo 26.11)

A clássica peça de Robert Bolt “Um Homem para a Eternidade”, vencedora de seis óscares em 1967, incluindo o de melhor filme, relata a história de Sir Thomas More. Ele se distinguiu como uma pessoa estudiosa, um bom advogado, embaixador e, por fim, como primeiro-ministro da Inglaterra. Era um homem de absoluta integridade. A peça se inicia com as palavras ditas por Sir Richard Rich: “Todo homem tem seu preço! (…) Em dinheiro também. (…) Ou em prazeres. Títulos, mulheres, posses, sempre existe algo”.

No decorrer da peça, o rei Henrique VIII aspirava separar-se da rainha Catarina e casar-se com Ana Bolena. Mas tinha um problema: o divórcio era proibido pela Igreja Católica. Então, o rei Henrique VIII, sem querer ver suas vontades frustradas, estabeleceu que seus subordinados jurassem apoiá-lo em seu plano de conseguir com êxito o divórcio. Mas existia outro problema. Sir Thomas More, que era amado e fascinado pelo povo, não o apoiava — sua consciência não admitia que assinasse o juramento. Ele não se dispunha a submeter-se, mesmo a um pedido pessoal do rei. 

Consequentemente, surgiram as provações. Seus amigos tentaram persuadi-lo. A pressão foi grande, mas não cedeu. Ele foi desprovido de sua riqueza, de sua família e cargo que ocupava por não assinar tal documento que colocava em xeque sua integridade. No final, foi julgado falsamente por sua vida, mas ainda assim não fraquejou.

Tiraram-lhe seu poder político, seu dinheiro, família e amigos — e iam tirar-lhe também a vida — só não podiam mesmo era tirar-lhe a integridade porque ela não estava à venda por preço algum.

No ponto crucial da peça, Sir Thomas More foi julgado falsamente por traição. Sir Richard Rich cometeu o perjúrio necessário para condená-lo. Quando Sir Richard saía do tribunal, Sir Thomas More lhe indagou: “Você está usando um emblema de cargo. (…) Do que se trata?”. O promotor Thomas Cromwell responde: “Sir Richard foi nomeado Procurador-Geral do País de Gales”.
More então olhou para Rich com um desprezo enorme e rebateu: “Pelo País de Gales? Ora, Richard, de nada vale um homem trocar a alma pelo mundo inteiro. (...) mas pelo País de Gales!”
Em nossa vida, sem dúvida alguma, muitos/as vão relembrar o passado em meio a lágrimas, como é o caso da maioria dos políticos brasileiros que foram presos na Operação Lava Jato e, quem sabe, repetir constantemente: “Por que vendi minha alma em troca do País de Gales ou da fama, de prazeres físicos momentâneos, ou por dinheiro, ou da aprovação de meus/as amigos/as? Por que vendi minha integridade por um preço?”

Integridade: uma pastoral

Como na peça relatada acima, a integridade é inegociável, aliás, também é o tema da palavra episcopal da Bispa Hideide Brito Torres, publicada na página 3. No texto, em dado momento, a Bispa volta às raízes. “Acredito que um passo importante é a gente começar pelo básico: o arrependimento. Nos/as crentes, diz João Wesley, o arrependimento é o conhecimento de si como ser humano pecador diante de Deus. Reconhecemos que a desintegração dos nossos valores compromete a integridade do nosso serviço e do nosso testemunho. Corremos o risco da injustiça, do desamor, da exploração de posições ou do poder do discurso, minamos a fé e a esperança das pessoas, descuidamos da família, do mundo como obra de Deus e prestamos um desserviço ao Evangelho de Cristo”.

O Colégio Episcopal publicou, em novembro, a Carta Pastoral sobre Integridade, tema a ser desenvolvido no próximo período eclesiástico. “Aspectos importantes da integridade, seu conceito no contexto do tema e como construir a integridade à luz dos valores e princípios da Palavra de Deus e de sua prática em nossos tempos atuais”, diz logo na introdução do documento.

Nota-se que a integridade preocupa a Igreja, pois trata-se de uma vida reta diante de Deus e dos/das homens/mulheres. O Bispo presidente da 4ª Região Eclesiástica, Roberto Alves de Souza, relembrou a postura de Jó. “A única maneira de agradar a Deus é sendo íntegro como Jó o foi; isto é um dever de todo discípulo e discípula que serve a Jesus Cristo”.

Na Pastoral, o documento traz alguns apontamentos para estudos em pequenos grupos, escola dominical, entre outros. O documento completo está disponível no site da Igreja Metodista em www.metodista.org.br.

Andar nos caminhos da integridade

No Jardim do Éden, Satanás se rebelou e levantou uma questão a respeito da legitimidade de Deus sobre toda a sua criação. Mais tarde, tentou levar vantagem em um discurso ao dizer que os/as homens/mulheres só serviam a Deus se fosse em troca de algo (Jó 1.9-11; 2.4). Dessa forma, a integridade humana tornou-se importante para a vida dos seres humanos, mesmo que a soberania de Deus não dependa da integridade de suas criaturas, os homens e mulheres, espiritualistas ou não, podem tomar partido nessa questão ao escolherem levar uma vida de testemunho, com integridade.

A integridade do ser humano está sempre em julgamento pelos/as próprios/as homens/mulheres, ou pelos tribunais, como vimos no início deste texto no caso do Sir Thomas More, que foi julgado falsamente por traição.

Jó e Davi em dado momento almejavam que Deus avaliasse e julgasse o povo, mas sempre reafirmavam a sua integridade. O próprio Jó chegou a dizer: “Se andei com falsidade, e se o meu pé se apressou para o engano; pese-me Deus em balanças fiéis e conhecerá a minha integridade” (Jó 31.5-6).

O que o Rei Davi desejava que Deus inspecionasse mesmo era sua integridade quando orou: “Julga-me, Senhor, pois tenho andado em minha integridade; tenho confiado também no Senhor; não vacilarei” (Salmo 26.1). Claro que não podemos esquecer que Davi desviou-se da integridade quando colocou Urias à frente das batalhas para tomar sua esposa Betsabá. O Salmo 51 relata que a integridade passa pelo arrependimento, como bem lembrou a Bispa Hideide na palavra episcopal publicada nesta edição. Afinal, como podemos andar no caminho da integridade e o que pode nos ajudar a manter uma integridade que agrade aos olhos do Senhor?

Manter a integridade não exige perfeição. O Rei Davi era imperfeito e cometeu vários erros graves na vida. No entanto, a Bíblia se refere a ele como homem que andou “com integridade de coração” (1 Reis 9.4). Por quê? Porque Davi amava a Deus. Seu coração estava completamente voltado para Deus. Ele reconheceu prontamente seus erros e aceitou a repreensão, mas principalmente corrigiu seu caminhar com Deus. De fato, a integridade de Davi é evidente na sua devoção e amor sinceros a seu Deus, como bem relata o texto de Deuteronômio 6.5-6.

A integridade não se encurta a certo aspecto da conduta do ser humano, ou até mesmo como uma devoção religiosa. Ela engloba toda a maneira de ser na vida das pessoas. Por vezes escutamos: “Como ‘fulano’ é uma pessoa íntegra!”. Davi “andou” na sua integridade. O verbo “andar” denota o modo como a pessoa “anda na vida” ou seu “estilo de vida”. E, para fazer isso, é preciso apegar-se fielmente a Deus e aos seus princípios, mesmo em circunstâncias desfavoráveis, como no caso de Sir Thomas More, que não vendeu a integridade por preço algum.

Quando suportamos as dificuldades e provações e nos mantemos firmes nas verdades bíblicas, apesar de adversidades e tentações do mundo ímpio, nossa integridade se torna mais forte, fica evidente. Nós “alegramos o coração de Deus”, porque assim Ele pode “responder àquele que nos escarnece” (Provérbios 27.11). Com boa razão, então, podemos ter a mesma determinação de Jó: “Até eu expirar não removerei de mim a minha integridade!” (Jó 27.5). O Salmo 26 mostra o que nos ajudará a andar em integridade.

Andar com integridade à luz da Bíblia

Davi andou na verdade de Deus. “A tua benevolência está diante dos meus olhos”, prosseguiu Davi, “e tenho andado na tua verdade” (Salmo 26.3). Davi conhecia muito bem os atos de benignidade de Deus e meditava neles com apreço. Esse é um ponto importante. Por várias vezes Davi cantava “Bendize ao Senhor, ó minha alma”, e completava “e não te esqueças de todos os seus atos”.

E para recordar um desses atos, o Salmo 103.2,6-10 nos ajuda: “O Senhor faz justiça e juízo a todos os oprimidos. Fez conhecidos os seus caminhos a Moisés, e os seus feitos aos filhos de Israel. Misericordioso e piedoso é o Senhor; longânimo e grande em benignidade. Não reprovará perpetuamente, nem para sempre reterá a sua ira. Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades”.

Talvez Davi tivesse em mente os maus-tratos que os/as israelitas sofreram às mãos dos/as egípcios/as nos dias de Moisés. Nesse caso, refletir sobre como Deus tornou conhecidos a Moisés os seus caminhos, pelo modo como libertou seu povo, com certeza tocou o coração de Davi e reforçou sua determinação de andar na verdade de Deus.

Outro exemplo de integridade aconteceu com José, que fugiu das investidas imorais da esposa de Potifar (Gênesis 39.7-12). E se formos tentados/as por oportunidades de alcançar riqueza, poder, fama no mundo secular, temos o exemplo de Moisés, que recusou as vantagens oferecidas no Egito (Hebreus 11.24-26). Ter em mente a perseverança de Jó sem dúvida nos ajudará a reforçar nossa determinação de continuar leais ao Senhor, mesmo diante das adversidades, doenças, desempregos e outras situações que tentam tirar nossos olhos do caminho da integridade.

Não vale a pena vender nossa integridade. Se formos vítimas de perseguição, é bom recordar o exemplo dos três jovens que não se curvaram diante da estátua de Nabucodonosor e foram lançados na cova dos leões (Daniel 6.16-22). Ainda no Salmo 26, Davi concluiu suas expressões a Deus dizendo: “Quanto a mim, andarei na minha integridade. Oh! Redime-me e mostra-me favor. Meu próprio pé certamente ficará posto em lugar plano; bendirei ao Senhor no meio das multidões congregadas” (Salmo 26.11-12). A firme decisão de Davi de ser uma pessoa íntegra, reta diante de Deus e dos homens está atrelada com seu apelo por redenção. 

Não vale a pena vender nossa integridade, como disse Sir Richard Rich: “Todo homem tem seu preço! (…) Em dinheiro também. (…) Ou em prazeres. Títulos, mulheres, posses, sempre existe algo”. A integridade à luz do evangelho é inegociável! Apesar de nossa condição pecaminosa, Deus sempre nos ajudará a reerguer se estivermos decididos/as a andar no caminho da integridade. 

Pr. José Geraldo Magalhães
Publicado originalmente no Jornal Expositor Cristão de janeiro/2018. Acesse aqui.


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