Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Capa | 27/02/2019 às 13:28:48


Tragédia da Vale: metodistas continuam em missão


No fechamento desta edição já se contabilizavam 177 pessoas mortas e 133 desaparecidos/as na tragédia da Vale, em Brumadinho/MG, que ocorreu no final de janeiro, sendo 103 funcionários/as terceirizados/as e moradores/as das comunidades atingidas e 30 funcionários/as da Vale. O que foi notícia no Brasil e no exterior mais uma vez mobilizou a família metodista, que esteve no local onde aconteceu o rompimento da barragem de rejeitos na Mina Córrego do Feijão. Muitos corpos ficaram soterrados na lama e não foram encontrados. 

De Belo Horizonte/MG, uma equipe de pastores e pastoras, psicanalistas e psicólogos/as, liderada pelo Pastor José Pontes Sobrinho da Igreja Metodista (IM) Central em BH, passou um dia em Brumadinho para oferecer ajuda e solidariedade às famílias que perderam seus entes queridos/as, além de levantar as prioridades e formas de atuação diante da catástrofe da Vale que afetou vidas, famílias e a cidade.
“O que vimos foi uma população assustada e descrente com o estado, com a Vale e o município. A fé deste povo sofrido está em Deus e a confiança está na igreja cristã. Durante nossa visita, estivemos em uma das áreas atingidas pela barragem. Foi muito triste ver um helicóptero levantando voo com dois corpos para o IML. Eram corpos de um pai e um filho, ambos proprietários da pousada Nova Estância, soterrada em Brumadinho. A esposa havia sido sepultada um dia antes”, disse o Pastor Pontes em relatório enviado para a área nacional da Igreja Metodista.

Pontes relatou também que visitou um dos pastores do local, coletando informações úteis para agir na cidade. “Fomos conhecer a Igreja Batista Nacional Ebenézer com boa estrutura para servir de apoio a ações na cidade”. O relatório SOS Brumadinho está disponível no site do Expositor Cristão.

O Pastor Ronilson Lopes, um dos integrantes da equipe que esteve em Brumadinho pela IM Central de BH, passou 13 dias na cidade levando solidariedade às famílias. “A cidade está destruída emocionalmente. Visitamos a primeira família, que abriu o coração para Jesus. Eles estavam em casa e disseram que de repente ouviram um barulho imenso da lama. O filho viu a lama se aproximando e gritou para os pais, e saíram todos correndo. Segundo o relato do sr. João Pedro (dono da casa), ele teve as pernas travadas quando a lama lambeu a casa dele. As galinhas morreram; o cachorro quebrou uma perna, e uma Ong chamada Bicho do Mato o levou para o Hospital Veterinário”, disse o Pastor Ronilson.

Uma equipe da Igreja Metodista de Macaé/RJ também esteve em Brumadinho, segundo o pastor. “Eles/as trabalharam lá por quatro dias. O Conselho de Pastores de Minas Gerais montou uma casa. A equipe de Macaé pagou o primeiro aluguel, a Igreja Central de BH, o segundo e o terceiro aluguel, para que as pessoas pudessem ter um local para dormir”.

Quem teve um trabalho incansável também foi a corporação do Corpo de Bombeiros. “Eles/as estavam muito fragilizados/as. Levamos água aos locais onde eles/as estavam trabalhando, oramos com eles/as, partimos laranjas e colocamos na boca deles, porque as mãos estavam completamente sujas. Logo em seguida, eles/as voltavam para o trabalho de buscas de sobreviventes. Foi tudo muito difícil de se viver, mas a Igreja estava presente”, finalizou o Pastor Ronilson Lopes.

A metodista Juliana da Silveira (Derretine), bisneta do Rev. Guaracy Silveira, herdou o legado do bisavô e esteve na missão em Brumadinho/MG. Juliana conta que saiu debaixo da bênção do Bispo José Carlos Peres. “O Bispo José Carlos Peres e a Catedral Metodista de São Paulo me abençoaram dando as passagens e bíblias para distribuir. Visitamos algumas famílias que tiveram perdas e outras que são sobreviventes da tragédia da Vale”, disse.

Juliana é missionária da Ong Jovens com uma Missão – a Jocum. Segundo ela, foi Deus quem a levou para fazer esse trabalho missionário. “Havia muitos/as voluntários/as e não tinha como eu ir, mas Deus providenciou tudo. Tenho alguns/as amigos/as em Belo Horizonte e no meio do caminho Deus foi acrescentando outras pessoas interessadas nessa missão. Encontrei outra metodista de São Paulo que estava em Belo Horizonte visitando os avós. Nós duas nos unimos e fomos para Brumadinho. Fizemos amizades com os/as líderes da comunidade e oferecemos nossos serviços para organizar todas as doações”, destacou Juliana.

A outra metodista a que ela se refere é Thaís Albuquerque. “Foi uma experiência em que Deus criou muita compaixão em meu coração. Tinha muita gente e uma certa desorganização. Dobramos roupas, distribuímos cestas básicas, ouvimos histórias das pessoas que precisavam apenas falar. Cadastramos famílias e houve momentos em que precisamos parar o cadastro e abraçar essas pessoas”, relatou.
Umas das experiências marcantes na vida de Thaís foi ao visitar as casas. “Um dia fomos a uma casa de luto e no outro fomos à casa de um sobrevivente. Vi a ação de Deus em dois momentos. As pessoas diziam que foi Deus que nos enviou porque eles/as precisavam de forças para continuar”, finalizou Thaís.

O sobrevivente que Thaís mencionou foi o adolescente Ronã, que estava tomando banho em um córrego próximo e subiu em um coqueiro para não ser atingido pela lama. Ele ficou no meio do mato até ser encontrado. 

Bombeiros
No total, 117 bombeiros se empenharam nas buscas na lama, sendo 97 de Minas Gerais e 20 de outros estados. Daniel William Simião Bridi faz parte da Corporação do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. Ele também é membro da Igreja Metodista Izabela Hendrix, em Belo Horizonte, e estava de férias no exterior quando a barragem se rompeu. “Eu estava de férias em Santiago, no Chile, com minha família e só passava na minha cabeça que eu tinha que voltar para dar minha colaboração. Minhas férias foram interrompidas, mas sinto que estava cumprindo minha missão”, disse Daniel ao Expositor Cristão.

Diante de tamanha tragédia, Daniel relata o impacto e como lida com a situação psicologicamente. “Pela televisão temos uma dimensão, mas quando estamos lá, é outra realidade. Ver de perto a tragédia, ter contato com o resgate de corpos é impactante, mas faz parte do trabalho do Corpo de Bombeiros. O momento mais difícil é quando encontramos um corpo ou um fragmento do corpo e pensamos na história daquela pessoa, da família que ficou. Isso me impactou bastante, mas minha vida é correr risco e ultrapassar barreiras para tentar salvar o máximo de pessoas que eu conseguir, independentemente da operação”, disse.

Diante de tantos traumas psicológicos e emocionais, Daniel, que vai se formar como Cadete do Corpo de Bombeiros no final do ano, disse que o bombeiro não pode ser aquele que se emociona junto com as outras pessoas. “Estamos ali para ajudar, não podemos deixar que a emoção sobressaia. O Corpo de Bombeiros nos dá um excelente apoio psicológico para que possamos enfrentar essas situações e não sermos traumatizados/as com perdas de vidas. Estamos ali para ajudar as pessoas e a sociedade”, enfatizou Daniel.

Participar dessa missão como cristão/ã, segundo Daniel, é algo como o ministério pastoral. “No ministério pastoral, o/a líder ajuda as pessoas no aspecto emocional e espiritual. Como cristão, me sinto totalmente completo com esse serviço e tenho certeza de que essa é a missão que Deus me deu aqui na terra”, finalizou Daniel, destacando o trabalho dos/as voluntários/as como essencial. 

Impactos ambientais
Segundo a Vale, a barragem Mina Córrego do Feijão apresentava um volume de 11,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos. A mineradora afirma ainda que a lama que foi liberada não é tóxica. No entanto, mesmo não sendo considerada tóxica, ela pode desencadear uma série de problemas ambientais, tais como a destruição da fauna e flora da região. É importante salientar que a região abrigava uma grande área remanescente da Mata Atlântica, um bioma com grande biodiversidade. Houve, portanto, uma enorme perda. De acordo com o Instituto Estadual de Florestas (IEF), a área da vegetação impactada representa 147,38 hectares.

O rio Paraopeba também foi atingido pelos rejeitos da mineração. O rio é um dos afluentes do rio São Francisco. A grande quantidade de lama torna a água imprópria para consumo, além de reduzir a quantidade de oxigênio disponível, o que desencadeia grande mortandade de animais e plantas aquáticas. Em relação ao rio São Francisco, a expectativa é de que a lama seja diluída antes de atingi-lo. 
O solo terá sua composição alterada, o que pode prejudicar o desenvolvimento de algumas espécies vegetais, tornando-se infrutífero para os/as agricultores/as da região. Além dessa alteração, quando a lama seca, forma uma camada dura e compacta, que também afeta a fertilidade da terra no local.

Cabe salientar ainda que se espera que os impactos ambientais sejam inferiores aos observados em Mariana, em 2015 (ver edição de dezembro). Entretanto, ainda não é possível mensurar todos os danos causados.

Vale
A Justiça de Minas bloqueou R$ 5 bilhões da mineradora Vale um dia após o rompimento da barragem da empresa, conforme informou o Ministério Público Estadual. De acordo com a Vale, tais bloqueios não eram necessários, uma vez que ela não se eximiria de suas obrigações de atendimento emergencial da população e reparações devidas. 

O diretor jurídico da Vale, Alexandre D'Ambrosio, esclarece detalhes sobre o Termo de Acordo Preliminar (TAP), firmado no dia 20 de fevereiro, que permitirá antecipar os pagamentos de indenizações emergenciais aos/às atingidos/as pelo rompimento da Barragem I, da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho/MG. “O objetivo deste acordo é tentar atenuar o sofrimento das pessoas, cobrindo a cidade de Brumadinho e as populações ribeirinhas até o município de Pompéu, na represa de Reitor Baixo”, afirma o executivo da Vale. 

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) aprovou, no dia 22 de fevereiro, o projeto de lei que determina medidas mais rígidas para a mineração do estado. A votação teve 65 votos favoráveis e nenhum contrário ao PL 3.676/16. Segundo a ALMG, a redação final do projeto foi aprovada minutos depois. Alguns pontos substitutivos foram: Proibição da instalação de barragens de rejeitos a montante; Proibição da concessão de licenças para instalação, ampliação ou alteamento de barragens que tenham comunidades nas zonas de autossalvamento; Estabelecimento de prazo de 90 dias para empresas apresentarem cronograma de planejamento da substituição de tecnologia em barragens a montante, o que deverá ser feito em até três anos. 

Pr. José Geraldo Magalhães

Fonte: Jornal Expositor Cristão - edição de março/2019

 


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