Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Episcopal | 27/02/2019 às 11:43:41


Palavra Episcopal: O reino de Deus em uma sociedade conflituosa


“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14.27)

Bispo José Carlos Peres Presidente da 3ª Região EclesiásticaConflitos que levam um povo à guerra existem desde a criação do mundo. Utilizando a Bíblia como referencial, logo em Gênesis, temos dois episódios conflituosos (3.1-4.1-11), onde constam a história da queda do ser humano e a de Caim matando seu irmão. Em todo o processo de conquista da Terra prometida, percebe-se que a guerra e os conflitos estão presentes (Josué 1-24).

Nos dias atuais, não nos faltam notícias de conflitos e de guerras. A natureza humana está corrompida e necessita ser restaurada (Gênesis 6.12; Salmos 106.38,39), cabendo à Igreja, como agência do Reino de Deus na Terra, promover meios para que a paz e a justiça se estabeleçam (Mateus 5.6,9). Os conflitos acontecem em todos os continentes, entre povos e entre facções religiosas, tendo como elemento motivador o interesse econômico e, no Oriente Médio, o ódio ancestral e milenar. É em meio aos conflitos que a Igreja deve desempenhar papel importante na promoção da paz e da justiça.
O conflito nasce quando há choques de interesses, quando as partes envolvidas desejam o mesmo objeto. É ampla a possibilidade de existir conflitos: entre países, na família e até mesmo em âmbito pessoal quando o indivíduo tem que tomar decisões que só dizem respeito a si mesmo.

Exemplo de Jesus
Como cristãos e cristãs, necessitamos verificar os meios que Jesus utilizou para mediar conflitos. No tempo de sua vida terrena, os/as judeus/ias viviam em profunda crise, uma leitura atenta dos Evangelhos mostrará quão conflituosa era a sociedade naquele período.

Os/as romanos/as, que dominavam o território da nação israelita, matavam aqueles e aquelas que poderiam pôr a soberania do estado romano em xeque. Herodes manda decapitar João Batista, pois ele arrastava multidões para ouvi-lo e isso era perigoso para os imperadores de Roma. Em Mateus 14.1-12 há um relato sobre a causa de sua morte, mas necessitamos ter um olhar que vá além do que se encontra nesse relato.

Como Jesus agiu ao saber da morte de João Batista? Ele se retira para a Galileia e para lugares menos perigosos, pois tinha uma tarefa a cumprir, evitou o confronto com o poderio romano até que sua hora fosse chegada. Ele sabia que sua pregação traria consequências que o levariam à morte. Digamos que foi uma estratégia pastoral.
Entretanto, a missão da qual ele era incumbido, para cumprir o propósito do Pai, o levaria de volta para Jerusalém, que até hoje é palco de conflitos religiosos e tem conduzido os povos às armas para ocupação da terra e do controle religioso. Jerusalém é local sagrado para o judaísmo, islamismo e cristianismo. Então há de se esperar que a qualquer momento surja um confronto por causa do choque de interesses.

A história bíblica, que sustenta a nossa fé, relata que ele ressuscitou, subiu aos céus e nos deixou o Espírito Santo, para guiar os nossos passos na promoção da justiça e da paz. Ele sabia que também enfrentaríamos conflitos perigosos. 

Agindo ao modo de Jesus
Acredito que a Igreja deve agir com sabedoria e prudência diante de algumas situações, não se expondo de modo infantil e inútil para promover a paz e a justiça. Deve também ter a coragem do veio profético, morrer se necessário for quando os interesses do Reino de Deus estiverem sendo vituperados. A Igreja deve sofrer os danos de uma guerra, e não a promover, como na época das cruzadas. Jesus em Jerusalém sofreu de forma cruel, mas jamais agiu com violência e desamor com aqueles/as que o espancaram e o crucificaram. Para eles/as foi dito: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lucas 23.34).

A Igreja que se conduz sob a direção de Jesus tem postura, diante dos conflitos, do mesmo modo que ele tinha, com prudência e amor, mas também com a firmeza profética de quem sabe que está realizando a vontade do Pai.

Não podemos admitir como cristãos e cristãs que se faça guerra em nome de Deus! Jesus foi enviado para nos ensinar o caminho da paz, justiça e amor. Nesses fundamentos é que foi construída a fé cristã. A Igreja deve se manter nesses fundamentos para ser cristã. O Evangelho de Mateus, no capítulo 5, relata as bem-aventuranças, e nos versos 9 e 10, diz que são bem-aventurados quem promove a paz e a justiça. 
Quando a proposta de reconciliação não é aceita pelas partes envolvidas, o conflito pode levar à guerra. A Igreja deve continuar a clamar pela paz e pela justiça, agindo com voz profética diante das autoridades públicas que podem pôr fim ao conflito.

A maioria das guerras é alimentada pelo interesse econômico. Há empresas fabricantes de armas que vivem em função das guerras e somam dividendos enormes. Uma riqueza conquistada com a morte de milhares de pessoas é uma riqueza maldita! Vidas preciosas são perdidas quando o interesse está em acumular fortunas. Quem vive da guerra se utiliza dos meios políticos, culturais e religiosos para justificar a produção e venda de armamentos.

Oro para que a Igreja Metodista, e qualquer outra que se conduza pela fé cristã, não se renda nem se iluda pelo discurso de quem se utiliza da desgraça para produzir fortunas. A Igreja é promotora da vida e luta contra as forças que produzem a morte. Continuem firmados/as na esperança com força e fé. 

fonte: Jornal Expositor Cristão - edição de março/2019

 


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