Publicado por Sara de Paula em Notícias, Capa | 04/06/2018 às 10:38:40


Meio Ambiente e a responsabilidade da Igreja Metodista


2018-06-meioambiente-683-800x568.jpg

No dia 5 de junho celebra-se o Dia Mundial do Meio Ambiente.

O ano era 2011, quando o 19º Concílio Geral estabeleceu que a Igreja Metodista, em função de seu chamado divino, deveria dar mais atenção aos cuidados da criação de Deus. Estabeleceu-se a partir daquele ano as seis ênfases missionárias, entre elas, a quinta, que diz respeito a implementar ações que envolvam a Igreja no cuidado e preservação do meio ambiente. 

“Trata-se de denunciar os pecados cometidos contra o meio ambiente e de defender a natureza como parte da criação de Deus. Deve-se, portanto, como Igreja, apoiar e promover ações no sentido da valorização da biodiversidade e da implementação do desenvolvimento sustentável em nosso país”, diz o texto do Plano Nacional Missionário (PNM) nos anos seguintes.

Essa temática do meio ambiente já foi tratada nas páginas do Expositor Cristão em anos anteriores, mas, tendo em vista que cuidar do meio ambiente tornou-se um assunto cada vez mais frequente em escolas, fóruns e na Igreja, infelizmente tem acontecido poucas ações isoladas dentro das igrejas de um modo geral.

O texto no PNM está claro ao tratar dos objetivos da ênfase missionária que aborda especificamente esse assunto. O documento destaca o apoio às organizações que estejam voltadas a programas de sustentabilidade, além de desafiar homens e mulheres a exercerem o papel de mordomo da criação à luz do evangelho. Também enfatiza que os documentos da Igreja possam abordar a temática na perspectiva de que o projeto de Deus não é individualista, mas coletivo, envolvendo toda a criação. Por fim, conscientiza cada metodista a ter compromisso com o meio ambiente e alerta o povo metodista sobre a importância da preservação da natureza.

Mesmo com todas essas diretrizes apontadas no documento, pouco tem sido feito para esse cuidado com a natureza. O Pastor Georg Emmerich destaca que alguns projetos podem contribuir e gerar recursos para a própria Igreja.

“Pode-se criar uma coleta seletiva destinando todos os resíduos para uma reciclagem e, além disso, podem gerar recursos para beneficiar algum projeto social da própria igreja”, disse Emmerich.

Na 4ª Região Eclesiástica, o Bispo Roberto Alves de Souza destacou as ações de conscientização. “Nós temos trabalhado a conscientização da preservação do meio ambiente através da educação cristã com a importância e responsabilidade da mordomia cristã na Escola Dominical”, disse o Bispo. 

O descarte responsável também tem sido uma ênfase na 4ª Região. “No milagre da multiplicação dos cinco pães e dois peixinhos (João 6), nós aprendemos com Jesus Cristo a descartar de maneira responsável as sobras; também em nossas diversas igrejas locais estamos educando o nosso povo a fazer o descarte responsável de materiais descartáveis e outros; a exercer uma mordomia cristã responsável”, finalizou o Bispo Roberto.

Na Igreja Metodista em Goiâ­nia Leste, em Goiás, o Pastor Sérgio de Oliveira Campos é um dos defensores de que a Igreja deve cuidar do meio ambiente. “Por cinco anos eu ensinei a Igreja a fazer a reciclagem e aplicar esse conhecimento, em primeiro lugar, na consciência das crianças para ajudar no aspecto formativo. Tivemos há dois anos um trabalho na nossa Igreja, em que eu coletei lixo e levei esse material para a Igreja e ensinei as crianças a separarem as qualidades de papéis brancos, coloridos, garrafas pet e sacos plásticos. Falamos da importância do impacto ambiental na natureza, por exemplo, poupar a queda de uma árvore e caça predatória”, disse o Pastor Sérgio que também é biólogo.

Para o Pastor Sérgio, a Igreja Metodista tem um papel formador de opinião, principalmente nas crianças. “Como pastor, temos que ser padrão de algumas coisas, por exemplo, eu não permito que a igreja misture papéis e plásticos com comida. Tínhamos um projeto local de reciclagem. Vendíamos o material reciclável para aplicar em projetos sociais. Às vezes eu vendia quase um caminhão de plástico por uns 400 reais. Não é o valor do dinheiro em si, mas o impacto do meio ambiente não tem preço. Precisamos vivenciar na prática com a igreja sem abusar dos copos descartáveis entre tantas outras ações que podemos fazer”, disse. 

A Igreja está localizada no bairro Jardim Novo Mundo, que, segundo o Pastor Sérgio, está em primeiro lugar no ranking de assassinato. “Eu preciso de alternativa, preciso agir na vida das crianças antes delas se tornarem criminosas”, disse. A ideia é retomar o projeto de reciclagem em breve, já que a Igreja em Goiânia Leste está em período de obras. “Quero voltar a mexer na reciclagem de papel. A igreja precisa ser um grande padrão ecológico. A questão ambiental em nosso tempo sofre alterações climáticas causadas pelo impacto gerado pelo lixo. Cada pessoa produz 200 gramas de fezes e 1,5 litro de urina por dia. Isso em uma cidade grande é um esgoto a céu aberto se não tiver uma rede de esgoto adequada. A Igreja pode ser uma voz profética nesse cenário”, finalizou.
 
Estatística

Em 2010 a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) trouxe a expectativa de que a gestão pública brasileira, de forma geral, iria se redimir dos constantes equívocos ao longo de décadas. Na realidade, já em 2018, nota-se que uma cultura de inoperância permanece e fragiliza a concretização dessas mudanças em boa parte do país. São cerca de 3 mil lixões ou aterros sanitários controlados que estão espalhados pelo país afora em mais de 3,3 mil municípios. Ao todo eles recebem mais de 30 milhões de toneladas de resíduos urbanos anualmente (41,6%). Os números são da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe) e fazem parte do documento Panorama de Resíduos Sólidos 2016. Os gases tóxicos, chorume e trabalhadores em condições insalubres compõem este cenário obsoleto ainda em vigor.

O maior número de lixões se encontra respectivamente nas regiões Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Já os aterros controlados estão principalmente no Sudeste, no Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Norte, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), no Diagnóstico de Manejo de Resíduos Sólidos – 2015, divulgado pelo Ministério das Cidades. O prazo oficial para encerramento dos lixões era 2014 e foi postergado, no Congresso, pelo Senado, para acontecer de forma escalonada até 2021 e encontra-se em tramitação na Câmara. Esse é o cenário atualmente.

Na revista Eco, a jornalista Sucena Shkrada faz o seguinte disgnóstico: “Ao consultar especificamente os registros no SNIS, o levantamento expõe que existem 98,6% de cobertura de coleta domiciliar urbana e isso representa 2,6 milhões de habitantes, principalmente do Nordeste, Sudeste e Norte, sem atendimento, além de 15 milhões na área rural. A estimativa de destinação a lixões e aterros controlados difere da projeção feita pela Abrelpe (metodologias de amostragem diferentes). Neste caso, o percentual exposto pelo SNIS é de 33,2% contra 41,6% (Panorama Abrelpe)”, destacou Sucena. Independentemente dessa realidade, o fato é que há um grande problema de alta complexidade que precisa ser resolvido com certa urgência e não pode ser escondido “embaixo do tapete”. O relatório do Governo Federal sobre os resíduos sólidos urbanos apurou informações de 3.520 dos 5.570 municípios, que correspondem a 82,8% da população urbana (143 milhões de pessoas).

História

Metodismo, Meio Ambiente e a Questão da Ecologia já foi tema de amostra acadêmica na Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), em 2011. O pesquisador Ismael Forte Valentim trouxe a contribuição para a academia para relembrar que a preocupação com o meio ambiente acompanha a história da Igreja Metodista. “João Wesley, fundador do movimento na Inglaterra no século 18, tinha grande interesse e fascínio pelas ciências e pelo mundo natural”, disse Valentim.

Wesley abordou sobre o assunto ao escrever a obra Investigação sobre a Sabedoria de Deus na Criação. Essa preocupação tem acompanhado a Igreja Metodista ao longo dos anos. Mais recentemente, em 1982, a Igreja Metodista aprovou, no Concílio Geral, o Plano para a Vida e Missão – um documento que estabelece a identidade, princípios históricos, doutrinários e missionários. O texto afirma que faz parte da missão dos/as metodistas a necessidade de “apoiar, incentivar e participar das iniciativas em defesa da preservação do meio ambiente” (Cânones 2012-2016, p. 102).

Numa época em que a questão ambiental não constava nas pautas e agendas dos órgãos governamentais e na sociedade civil com a mesma ênfase dos dias de hoje, a Igreja Metodista já demonstrava preocupação com o tema.

No mesmo conclave, a denominação aprovou o documento Diretrizes para Educação na Igreja Metodista. No item Diretrizes Gerais, encontramos a afirmação: “toda a ação educativa da Igreja deverá proporcionar aos participantes condições para que se libertem das injustiças e males sociais que se manifestam na organização da sociedade, tais como: (…) o êxodo rural resultante do mau uso da terra e da exploração dos trabalhadores do campo, a usurpação dos direitos do índio, o problema da ocupação desumanizante do solo urbano e rural…” (p. 41).

Na prática, a materialização dessa diretriz pode ser observada no Projeto Pedagógico Institucional do Centro Universitário Izabela Hendrix, em Belo Horizonte/MG, nos anos seguintes, no item Ambiente Urbano e Sustentabilidade, a respeito do desenvolvimento sustentável.

Alerta

Especialistas ouvidos/as no dia 14 de maio em audiência pública na Comissão Senado do Futuro (CSF) alertaram que o modelo econômico brasileiro corre um sério risco, levando em conta as mudanças climáticas e a relação das políticas ambientais com a agricultura ao longo dos próximos anos. A eventual privatização de serviços de abastecimento de água e de saneamento, cortes seguidos de recursos para órgãos de proteção do meio ambiente e avanço do agronegócio sobre áreas de floresta foram alguns dos problemas apontados no encontro. A audiência fez parte do ciclo de debates “2022, o Brasil que queremos”, que discute como estará o país quando completar 200 anos de Independência. 

Dia Mundial 

Foi em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, que a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Dia Mundial do Meio Ambiente, que passou a ser comemorado todo dia 5 de junho. Essa data foi escolhida para coincidir com a data de realização dessa conferência e tem como objetivo principal chamar a atenção de todas as esferas da população para os problemas ambientais e para a importância da preservação dos recursos naturais, que até então eram considerados, por muitos/as, inesgotáveis.

Apesar de muitas pessoas acreditarem que a mudança deve acontecer em escala mundial e que apenas uma pessoa não consegue mudar o mundo, é fundamental que cada um/a faça a sua parte e que toda a sociedade reivindique o cumprimento das leis ambientais. Todos/as devemos assumir uma postura de responsabilidade ambiental, pois só assim conseguiremos mudar o quadro atual.

“A proteção e o melhoramento do meio ambiente humano é uma questão fundamental que afeta o bem-estar dos povos e o desenvolvimento econômico do mundo inteiro, um desejo urgente dos povos de todo o mundo e um dever de todos os governos” (Declaração de Estocolmo sobre o ambiente humano - 1972).

Leia a declaração completa aqui.
 

Pr. José Geraldo Magalhães
Publicado originalmente no Jornal EC de junho


Tags: sem tags no momento!