Publicado em Notícias | 05/03/2018 às 15:01:54


Igrejas do Nordeste no combate à violência urbana

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Pastor Ivan Martins, de camisa branca, em uma das reuniões com a Diaconia. | Arquivo pessoal

Recentemente fomos surpreendidos/as com a divulgação da violência no país pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, por meio do Atlas da Violência 2017, referente ao ano de 2015 no Brasil. Os números são chocantes. O número de homicídios no Brasil, naquele ano, segundo a pesquisa, ficou estável na mesma ordem de grandeza dos dois anos anteriores. Segundo o Ministério da Saúde, neste ano, houve pouco mais de 59 mil mortes. “Trata-se de um número exorbitante, que faz com que em apenas três semanas o total de assassinatos no país supere a quantidade de pessoas que foram mortas em todos os ataques terroristas no mundo, nos cinco primeiros meses de 2017, e que envolveram 498 casos, resultando em 3,3 mil indivíduos mortos” (Atlas da Violência 2017, p. 57).

Vivemos nosso próprio terrorismo. São mais de 161 homicídios por dia. Aumentou ainda a violência contra mulheres e homossexuais. Alguns estados são representativos dessa triste realidade – Sergipe, Alagoas e Ceará. O Ceará tomou os noticiários com a chacina de Cajazeiras; em 27 de janeiro foram vitimadas oito mulheres, seis homens, além de nove pessoas feridas. Dois dias depois, mais uma chacina, dessa vez na Cadeia Pública em Itapagé, vitimando dez pessoas. Em cinco anos, o mês de janeiro de 2018 foi o mais violento nas terras de Iracema: 469 homicídios registrados. Assusta porque, pela ONU, o limite é de dez homicídios para cada 100 mil habitantes; no Ceará temos 66 homicídios para cada 100 mil habitantes.

A violência urbana gera dinheiro, audiência e votos. Ainda que as questões centrais em nosso país sejam a economia e a soberania nacional, certamente o tema da violência estará em evidência nas próximas eleições. Para a mídia, serve de cortina de fumaça para os interesses do grande capital. Ao mesmo tempo em que é uma realidade comum à maioria de nós, as propostas de superação são divergentes. Curiosamente, Direita e Esquerda apresentam propostas parecidas e, como temos percebido, ineficientes. Os estudos demonstram que o Estado precisa utilizar maior inteligência e possibilitar acesso à educação  de qualidade. 

Ações das igrejas 

Por mais que as igrejas queiram se isolar, se omitir, elas estão inseridas no mesmo contexto social. Seus membros, sobretudo da periferia, convivem com a violência. A superação da violência deve estar na pauta das igrejas ainda por sua confissão de fé – bem-aventurados/as aqueles/as que constroem a paz. Urge, portanto, maior envolvimento. Cremos que o Evangelho transforma. Se ele tem alcançado indivíduos (Censo 2010), as mudanças sociais são mínimas.

As igrejas devem ainda ocupar os espaços públicos, fundamentando seu discurso e prática à luz do Evangelho de Jesus de Nazaré e apropriando-se dos referenciais teóricos adequados ao tema da violência. Infelizmente, observamos que em muitos casos as igrejas apenas reproduzem um discurso superficial e oportunista para lidar com a complexidade que é a violência urbana. Tomemos, como exemplo, o argumento de revogar a Lei do Desarmamento: “É preciso armar o cidadão”. As pesquisas dizem exatamente o contrário. “Como era de se esperar, a arma de fogo continuou como personagem central na história da violência letal. Em 2015, mais de 42 mil pessoas foram mortas por essas armas, o que correspondeu a 71,9% do total de homicídios no país […] Conforme indicam as pesquisas científicas, a difusão das armas de fogo é um elemento crucial que faz aumentar os homicídios” (Atlas da Violência 2017, p. 58).

As armas matam e é preciso tirá-las de circulação. A articulação em redes para denunciar e exigir políticas públicas é um imperativo para ser socialmente relevante. A Igreja Metodista tem promovido encontros e palestras sobre violência. Porém, sozinhos/as não damos conta! Diaconia e Visão Mundial têm promovido em Fortaleza/CE encontros de sensibilização com líderes evangélicos e igrejas locais. Além disso, algumas lideranças cristãs têm participado do Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará. No entanto, a participação e a articulação são pequenas. Nem por isso temos perdido a esperança. 
 

Pastor Ivan Carlos Costa Martins | Remne
Publicado originalmente no Jornal EC de março de 2018. Acesse aqui.

73% das crianças e adolescentes mortos em Fortaleza estavam fora da sala de aula  https://www.opovo.com.br/jornal/reportagem/2018/01/vulnerabilidade-73-das-criancas-e-adolescentes-mortos-em-fortaleza-e.html. Acesso em 14 de fevereiro de 2018.


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