Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Discipulado | 29/01/2019 às 13:17:38


Discipulado: Reflexões a partir do evangelho de Mateus


“A tradução clássica 'ide' fortalece a ideia do envio missionário. Sair para fazer missão. Transmite uma ideia de ruptura, de mudança de local”

O tema discipulado faz parte da história da reflexão cristã. É um tema recorrente, por isso, revisitá-lo constantemente é um desafio e uma tarefa importantíssima. Neste artigo propomos estudá-lo a partir de um caminho pouco explorado: o de ter como base da reflexão o evangelho de Mateus. Assim, fugimos do discurso mais comum de que o melhor escrito do Novo Testamento para discutir discipulado é o Evangelho de Marcos. 

Essa opção nasce da percepção de que no evangelho de Mateus o discipulado está intimamente ligado à ação missionária. Temos nesse escrito uma base para refletir sobre o desafio pautado para os/as cristãos/ãs e, hoje, de modo especial, para o/a metodista, para o próximo período eclesiástico. Assim, nossa tarefa será a de ler o evangelho de Mateus tendo como fio condutor o tema do discipulado ligado ao desafio missionário.

1. Começando pelo fim – o mandato missionário
O capítulo 28 do evangelho de Mateus é conhecido como “A grande comissão”, e, no entendimento de pesquisadores/as, esse comissionamento encontrado no texto é ordenança para que os/as cristãos/ãs saiam em missão. Isso está baseado em uma tradução do v. 19 que ficou consagrada em português: “ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações…”. A partir dessa tradução, esse final do evangelho passou a ser conhecido como o “imperativo missionário” ou, como alguns/as preferem chamar: “o grande ide”. Uma questão importante é que no texto grego, língua em que foi escrito o Novo Testamento, não é o verbo “ir” que aparece no imperativo, e sim outro verbo, o verbo matheteuo, que é traduzido por “fazer discípulos”. Como se trata de um único verbo, uma tentativa de tradução literal dele seria “discipular”. Aqui está nossa chave de leitura: a grande conclusão do evangelho de Mateus apresenta o imperativo do discipulado. Discipular é a grande comissão do evangelho!

Para definir nossa abordagem devemos nos lembrar de que o evangelho está organizado a partir de cinco sermões/discursos de Jesus, encontrados nos capítulos 5-7; 10; 13; 18; 24-25. Partimos do princípio de que esses capítulos se relacionam em forma concêntrica. Assim, os capítulos 5-7 devem ser lidos juntamente com os capítulos 24-25; o capítulo 10 deve ser lido em conjunto com o 18; e, finalmente, o capítulo 13 é central nessa estrutura – as parábolas do Reino. Poderíamos exemplificar isso com a seguinte estrutura: Sermão do Monte 5-7; Instruções sobre a Missão 10; As Parábolas do Reino 13; Instruções sobre a Comunidade (Igreja) 18; e o Sermão Escatológico 24-25. 

Neste artigo, vamos enfocar somente uma parte dessa estrutura: os capítulos 10 e 18 para, posteriormente, voltar ao capítulo 28. Isso não significa que os demais capítulos não possam ser lidos na chave do discipulado. Podem e possuem muito conteúdo. Deixaremos a abordagem dos demais capítulos para um desafio futuro.

“Essa opção nasce da percepção de que no evangelho de Mateus o discipulado está intimamente ligado à ação missionária. Temos nesse escrito uma base para refletir sobre o desafio pautado para os/as cristãos/ãs e, hoje, de modo especial, para o/a metodistaˮ

2. Missão e perdão – desafios para os/as discípulos/as
Como afirmamos, na estrutura do evangelho de Mateus, os capítulos 10 e 18 devem ser lidos em conjunto. No capítulo 10 encontramos como tema o envio missionário dos/as discípulos/as. A missão é parte fundamental da vida e da ação deles/as. No início do capítulo encontramos o relato apresentando Jesus chamando seus/as discípulos/as. Em uma narrativa ágil, quase instantânea, Ele lhes confere autoridade para enfrentar espíritos imundos e curar doenças, e alguns versículos depois os/as envia em missão. As instruções para a prática missionária ocupam todo o capítulo. Ponto central a destacar nessas instruções é que na tarefa deles/as de anunciar que o Reino dos céus está próximo (10.7), os/as discípulos/as deverão sinalizar essa proximidade levando a cura, a ressurreição e a paz para as casas (10.8,13). No compromisso missionário a palavra Igreja não aparece, o que aparece é a restauração da vida e da paz de pessoas e suas casas. A palavra Igreja acontecerá naturalmente a partir do capítulo 18.

A grande ênfase desse capítulo dá-se, portanto, no envio para a missão e nas instruções para essa tarefa. O desenrolar e o sucesso da ação missionária dos/as discípulos/as ficam para outra unidade do evangelho e, embora eles não sejam parte da instrução contida neste sermão/discurso, fazem a ligação com o capítulo 18. A prática missionária traz novas pessoas para a comunidade, pessoas com diferenças, problemas e falhas. Isso gera conflito. Desse modo, a comunidade deverá estabelecer um princípio da convivência baseado no perdão. Por isso, o texto-chave do capítulo 18 é a discussão sobre como proceder com o/a irmão/ã que comete pecado (18.15-20). 

O capítulo 18 inicia apontando que a lógica do Reino dos céus é diferente da realidade que marca a comunidade: a criança, desprezada pela cultura da época, é a maior para o Reino (18.1-5), por isso, fazer os/as pequenos/as tropeçarem é algo desprezível (18.6-9). Também, a lógica do Reino é diferente na perspectiva da parábola da ovelha perdida, a qual reforça o discurso do início do capítulo, em que a vida do pequeno animal perdido é mais importante que todo o rebanho. Nesse ponto, a narrativa apresenta as instruções acerca do perdão, que se seguirão até o fim do capítulo. Essa instrução sobre como lidar com o/a irmão/ã que peca ocupa lugar central no capítulo e é o que abordaremos a seguir.

Nessa instrução central (18.15-21) o tema é a preservação da vida e da dignidade do/a irmão/ã que peca. Vale destacar que a expressão “pecar contra ti” é um acréscimo posterior; no texto mais antigo, a frase era apenas “se teu irmão pecar”. O/a discípulo/a que tiver conhecimento de um/a irmão/ã que pecou é orientado a procurá-lo/a em segredo. O objetivo desse procedimento é o de resgatar o/a irmão/ã (18.15). Se ele/a não ouvir, deve-se procurá­-lo/a acompanhado de dois/duas ou três testemunhadores/as, ou seja, pessoas que tenham a habilidade na proclamação da palavra. Essa abordagem é diferente da interpretação usual na qual se entende que é necessário levar testemunhas, para confirmarem que houve uma tentativa de exortar o/a pecador/a, ou seja, um procedimento jurídico de garantia daquele/a que irá exortar. O texto propõe o convite a irmãos/ãs para que ajudem em um testemunho coletivo a resgatar o/a irmão/ã do erro (18.16). Se essa tentativa fracassar, busca-se o testemunho da Igreja (18.17a). Se ainda assim ele/a não ouvir a Igreja, deverá ser tratado/a como gentio/a ou publicano/a (18.17b). Aqui há um grave problema de interpretação. Usualmente entende-se essa orientação como uma ordem para que o/a irmão/ã em erro seja excluído/a da comunidade. É importante destacar que o evangelho de Mateus, ao apresentar a lista dos/as discípulos/as, faz questão de enfatizar: Mateus, o publicano (cf. 10.3). Ou seja, no evangelho de Mateus os/as publicanos/as e os/as gentios/as são objetos da missão, são chamados/as para a conversão e para o discipulado. Com isso, esta última orientação deve ser entendida não como exclusão, mas como uma oportunidade: ter esse/a irmão/ã como alguém a ser evangelizado/a. Daí a orientação que segue: “tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus”. Isso não é direito, é responsabilidade. Se o/a irmão/ã em pecado permanecer no seio da comunidade haverá a esperança de arrependimento e mudança, por meio da proclamação da palavra e pelo convívio com os/as demais. Mas, se ele/a for excluído/a, não haverá possibilidade de a Palavra produzir nenhum fruto de arrependimento. 

Ao lermos esses capítulos do evangelho de Mateus na perspectiva do discipulado, percebemos que uma marca da vida dos/as discípulos/as é o compromisso com a missão destacada no capítulo 10 e o compromisso com a construção de uma comunidade perdoadora e restauradora de vidas, apresentada no capítulo 18. Os/as discípulos/as, no seguimento à vida e ao ensino de Jesus, são comprometidos/as com a missão e com a restauração constante da vida daqueles e daquelas que caminham com a comunidade. 

3. O grande final: o discipulado na vida da comunidade
Após o final do ministério de Jesus e de suas instruções apresentadas nos cinco grandes sermões/discursos – dos quais abordamos os capítulos 10 e 18 –, Jesus se reúne uma vez mais com todos/as os/as discípulos/as, tanto com os/as que estavam firmes como com os/as que duvidavam (28.17). Nem nesse momento final há exclusão. Para estes/as são dirigidas as últimas palavras: o envio para fazerem discípulos/as. 

Como afirmamos no início deste texto, o único verbo no imperativo é o que traduzimos por “fazei discípulos”, ou “discipulai!”. Esse imperativo deve acontecer nas três dimensões definidas pelos demais verbos dessa ordenança: indo, batizando, ensinando.

Indo: embora já estejamos profundamente acostumados/as com a tradução “ide”, essa outra forma de traduzir coloca outros desafios. A tradução do particípio grego como imperativo tem gerado muito debate entre os/as estudiosos/as da língua grega. Porém, mais que um debate de tradução, o que temos é um debate conceitual. A tradução clássica “ide” fortalece a ideia do envio missionário. Sair para fazer missão. Transmite uma ideia de ruptura, de mudança de local. A tradução “indo”, seguindo a forma habitual de traduzir o particípio grego, que é a mais conhecida e adotada pelas Bíblias na língua portuguesa para os outros dois verbos (batizando e ensinando), muda o conceito. A ideia não é de ruptura, mas de ênfase na vivência cotidiana da ordenança. Por onde quer que esteja, deve-se discipular. A ordenança do fazer discípulos/as se inscreve no cotidiano da vida. Onde quer que esteja, aí é lugar do discipulado.

Batizando: nesse ponto temos a dimensão de constituição da comunidade a partir do sacramento do batismo como sinal de ingresso na comunidade. O/a discípulo/a cria comunidade, faz parte de comunidade, discipula para alcançar novos/as participantes da comunidade. Não podemos pensar em comunidade apenas como unidade político-administrativa. O capítulo 18 apresenta as características dessa comunidade: perdoadora e restauradora de vidas.

Ensinando: por fim, o ensino. Ensino que desafia a guardar tudo o que foi ordenado. Por isso, o evangelho está organizado em cinco grandes unidades de ensino. É fundamental para o/a discípulo/a vivenciar o compromisso de vida apresentado por Jesus. Nas unidades de ensino trabalhadas neste texto, o compromisso é o da missão – levando paz – e o do perdão – restaurando vidas. Ensina-se a viver de acordo com os ensinamentos e vida de Cristo.

Uma vida nos caminhos da missão – um olhar de conjunto
Percebemos no evangelho de Mateus alguns desafios para a vivência do discipulado hoje. Em primeiro lugar, ser discípulo/a é estar profundamente comprometido/a com a missão. Levar a paz para as casas que recebem o anúncio é tarefa fundamental de todo discípulo e de toda discípula. 

Em segundo lugar, ser discípulo/a é estar profundamente comprometido/a com o outro, no anúncio, no cuidado e na restauração das vidas, evitando as situações de orgulho e escândalo e sendo um instrumento para que aconteça o perdão de Deus na vida, em especial, daquele/a que está em falta e, se necessário, percorrer o longo caminho do estabelecimento do perdão.

Finalmente, percebemos que esses compromissos do/a discípulo/a acontecem no cotidiano da vida, na vivência comunitária e na observância prática dos ensinos de Jesus. Embora os momentos de instruções de Jesus aconteçam em vários locais e em várias circunstâncias, o desafio para a comunidade é que o/a discípulo/a não seja conhecido/a apenas nos momentos do aprendizado. A vivência do discipulado e a resposta à ordenança de Jesus não têm dia nem hora marcada para acontecer. Indo, discipulai! 

///Prof. Dr. Paulo Roberto Garcia
Pastor na 3ª Região Eclesiástica
Reitor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista.

Texto publicado originalmente em Mosaico – Apoio Pastoral

Publicado na edição de fevereiro de 2019 do Jornal Expositor Cristão impresso.


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