Publicado por Isabelle de Freitas em Direitos Humanos, Igreja e Sociedade | 29/10/2018 às 15:55:01


Dia da Consciência Negra


No dia 20 de novembro comemoramos em todo o território brasileiro o Dia Nacional da Consciência Negra, data reivindicada pelo movimento social de maioria negra para tornar-se símbolo da resistência e luta das populações africanas que, por meio da escravização, chegaram a terras brasileiras, e na condição de escravizados permaneceram por 350 anos.

O Brasil foi o último país do continente americano a abolir a escravização e um dos poucos a não incluir em seu plano de independência a liberdade dos africanos e africanas e seus/as descendentes. Muitas revoltas e inconfidências perpassaram os regimes monárquico, imperial e republicano, todas silenciadas e desarticuladas pelo Estado.

A população negra, composta por pretos/as e pardos/as, no pós-abolição foi inserida de maneira desigual no processo de cidadania e acesso ao que denominamos políticas de direto social (saúde, educação, cultura e lazer) – as primeiras políticas educacionais eram enfáticas na proibição de acesso dos pretos/ as e pardos/as à escola. No livro “Negro não entra na Igreja, espia pela banda de fora”, o autor José Carlos Barbosa, através de pesquisa histórica, nos mostra que a Igreja também impediu o acesso da população de africanos/as e seus/as descendentes nos templos e, por muito tempo, coadunou com os princípios do regime escravista.

Vivemos em uma sociedade em que a diferença ratifica as desigualdades, por isso, precisamos falar desse assunto, e para pensarmos os avanços do tempo presente, não podemos perder de vista a linha histórica, que nos ajuda a compreender o que é ser afrodescendente no Brasil.

Foram 350 anos de escravização e 130 anos de uma abolição inacabada. Vivemos em um tempo histórico em que ainda as relações sociais se revestem dos resquícios da escravização, isso porque o pecado do racismo estrutural naturalizou as desigualdades. As desigualdades estruturais fazem com que, a depender da descendência, acessemos com desigualdade o mundo do trabalho, o direito à educação formal nos diferentes níveis, o direito à saúde.

Os movimentos sociais foram essenciais para as alterações de leis, proposições de alternativas e de políticas de ação afirmativa, que trouxeram à tona a discussão das desigualdades que historicamente moldaram a sociedade brasileira. Em movimento pela vida, a Igreja Metodista integra importantes grupos desde a década de 1980, que atuam na denúncia do pecado do racismo e anúncio de vida plena para a população negra brasileira. Falar sobre o racismo dentro das igrejas é um tanto indigesto, assim como o é em qualquer outro lugar da sociedade, pois solidificamos nossas relações sobre a falácia da democracia racial e sobre o racismo estrutural.

“A Igreja Metodista reconhece que é sua tarefa docente capacitar os membros de suas congregações para o exercício de uma cidadania plena”. A Igreja Metodista, em sua história recente, vem pautando a temática étnico-racial a partir da Pastoral de Combate ao Racismo, que há 40 anos em diálogo com a sociedade vem produzindo conhecimento, mas também a provocação de como nós, cristãos e cristãs, podemos nos posicionar dentro e fora das Igrejas em relação ao pecado do racismo estrutural.

Nos últimos 40 anos, tivemos avanços significativos da população negra em relação a alguns aspectos, como: acesso, permanência e sucesso na trajetória escolar tanto na educação básica quanto na superior; acesso ao mundo do trabalho, reconfigurando os lugares socialmente estabelecidos para a população negra; avanços significativos na política pública na área da saúde e assistências.

O 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, simboliza e homenageia a resistência de Zumbi dos Palmares e de tantos/as outros/as afrodescendentes que lutaram no passado e ainda lutam no tempo presente por uma sociedade menos desigual.

Nosso convite é para a reflexão, o que cada um/a de nós, metodistas, temos a ver com o dia 20 de novembro de cada ano?

A resposta não deve ser única, no entanto, podemos iniciar uma reflexão a partir de nossos documentos oficiais, que nos convidam a dialogar coletivamente sobre o impacto do pecado do racismo na vida de negros/as, brancos/as e da nossa vida comunitária. Documentos que foram produzidos ao longo de 40 anos de existência – ou resistência – da Pastoral de Combate ao Racismo. São textos que nos orientam, nos elucidam, nos pastoreiam e nos conduzem à luz da palavra do Senhor a sermos discípulos e discípulas em todo o tempo.

 

Juliana Yade | Pessoa de Referência da Pastoral de Enfrentamento ao Combate ao Racismo
Publicado originalmente na edição de novembro de 2018 do Jornal Expositor Cristão impresso.


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