Publicado por Sara de Paula em Notícias | 03/05/2018 às 14:43:12


Desigualdade e o espaço de mulheres negras na sociedade


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O Expositor Cristão conversou com a pessoa de referência da Pastoral de Combate ao Racismo, Juliana Yade, sobre desigualdade, o espaço de mulheres negras na sociedade, acesso às universidades e sobre o dia da Discriminação Racial celebrado em 21 de março. 

Em sua opinião, o que mudou em relação às desigualdades de gênero em nosso país?
Não existem mudanças significativas. Essas desigualdades se estruturam na sociedade brasileira a partir do processo de escravização de pessoas vindas do continente africano e perpassam pelo mundo do trabalho, das aprendizagens e por todas as relações de nosso país. Quando as pesquisas mostram que há desigualdade e ela é demarcada pela perspectiva de gênero e raça, conseguimos perceber que as mulheres negras estão alguns passos atrás em relação à população não negra.

Como as igrejas e empresas da sociedade de um modo geral podem colaborar com os desafios para que a mulher negra possa conquistar o seu espaço?
São dois pontos. Na igreja é urgente o reconhecimento dessa mulher. Ela pode contribuir para além da limpeza, ocupando lugares de liderança. Essa demarcação a partir da escravização também marcou muito o lugar social de representação da mulher negra. Assim como possibilitando que a mulher vivencie a sua fé dentro da igreja como lugar dela, sem trava, sem medo, capaz de exercer o potencial de liderança no ambiente da igreja. Nós sabemos que há marcações muito fortes dentro da comunidade de fé. No mercado de trabalho as ações afirmativas são muito importantes. Hoje já temos um quadro diferenciado de homens, mulheres e jovens negros/as nas universidades. Nas empresas é fundamental também que haja ações capazes de alcançar esse capital humano que é negro para trabalhar nas diversas empresas e ocupações.

Existem muitos desafios para serem superados?
Sim. Há desafios que precisam ser superados pelo entendimento da trajetória e história da população negra, possibilitando-lhe ser o que quiser a partir da concretização do aprendizado. 

O acesso das mulheres negras por cotas nas universidades é um ponto a ser considerado?
Acredito que seja um pontapé inicial. Claro que não podemos parar por aí. É um reconhecimento da história dessa população. Entendo que é necessário medidas reparatórias a essa estrutura que negligenciou a educação e formação de uma parcela significativa da população.

Em sua perspectiva, por que há tantas desigualdades?
Entra a questão de gênero em que homens e mulheres foram considerados por muito tempo diferentes. Toda a capacidade de criticidade, intelectualidade só foi reconhecida nas mulheres há pouco tempo. Uma coisa de que gosto muito em nossa igreja é que há o reconhecimento do ministério feminino. O fato de termos pastoras e bispas ocupando vários lugares é um avanço. Somos espelho para a sociedade que trata tão desigualmente essa categoria de gênero. 

O dia contra a discriminação racial foi em 21 de março. Qual sua perspectiva sobre a data?
Essa data foi criada a partir de um massacre de estudantes na África do Sul. Participei de um seminário que discutia um pouco sobre democracia, arte e cultura, e houve algumas ilustrações de museus na América Latina que diziam “Nunca Mais”. Essa é uma data que precisamos olhar e afirmar “Nunca mais queremos que jovens sejam massacrados/as”, no entanto, é uma realidade. Temos pesquisas de genocídios da mulher negra, juventude negra e da população negra em nosso país. Tivemos recentemente o caso da Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro. Não somente a Marielle, mas outras pessoas que passaram pela morte na mesma semana. É um processo muito tenso e delicado. Estamos vivenciando um tempo de complexidade muito grande. As mortes mostram que as mulheres que alcançam posição de ter voz na sociedade são vistas como ameaças que não podem permanecer vivas. É um abalo grande para a sociedade brasileira. Precisamos nos colocar em oração por essas famílias. E cada ser humano que morre vai nos desumanizando um pouco. 

Pr. José Geraldo Magalhães
Publicado originalmente no Jornal Expositor Cristão de maio de 2018


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