Publicado em Notícias, Política | 09/02/2018 às 09:28:02


Lideranças metodistas participam de conversa entre igrejas sobre temas discutidos na Câmara e no Senado

A Bispa Hideide Brito Torres, presidente da 8ª Região Eclesiástica da Igreja Metodista e o Pastor Welinton Pereira, pessoa de referência da pastoral de Direitos Humanos, participaram nessa quinta-feira, 8, de uma roda de conversa entre igrejas sobre temas que estão em votação na Câmara e no Senado, como a previdência social, a violência e a água. Confira abaixo o relato da Bispa Hideide sobre o encontro.


Hoje pela manhã participei, como convidada, de uma roda de conversa entre igrejas, promovida pelo Conic, acerca de temas que estão em votação no plenário da Câmara e do Senado Federais. Entre eles, três mais prementes: a previdência social, a violência e a água. Estavam presentes representantes do Conic, da CNBB, senadores e senadoras de oposição, além de bispos, presidentes e representantes das igrejas: Presbiteriana Unida, Síria Ortodoxa, Confissão Luterana, Presbiteriana Independente, Batista e Católica, bem como da ONG Visão Mundial.

Desde que assumi o episcopado em Brasília, tem sido um novo desafio e vocação representar a Igreja em discussões de cunho político e social nos diversos âmbitos. Já participei de diversos eventos nos quais a presença da Igreja vem sendo requerida neste sentido e tem sido um bom aprendizado, além de uma oportunidade para dialogar, aprimorar conhecimentos e posturas e auxiliar nas discussões internas de nossa realidade, quando requerida.

Nesses dias, todos os segmentos sociais estão preocupados com os rumos da Reforma da Previdência. Por exemplo: em que pese que nos últimos dias se retirou da proposta os trabalhadores rurais, afirmando que estes não sofrerão mudanças com a reforma, há outras votações de leis hoje em andamento que precisam ser observadas, como aquela que permitiria ao empregador rural pagar o funcionário com comida e moradia, o que caracteriza, de outras formas, o trabalho escravo e dificulta essas prerrogativas futuras. Há ainda um contingente de brasileiros no campo cuja estimativa de vida não ultrapassa muito os 60 anos e que, sendo obrigatório o tempo de 65 para se aposentar, poderão nunca ter acesso ao descanso, muito embora trabalhem desde muito cedo. São perguntas que o texto atual ainda não responde.

Outro debate surgido dos diálogos entre a liderança religiosa e política presente tocou quanto à questão da água. Argumentou-se que a privatização da Eletrobrás, por exemplo, não atinge somente a energia elétrica, mas a privatização da água. Com as falas em torno da privatização do Aquífero Guarani, teme-se que o acesso a água como bem essencial à vida deixe ainda mais de ser garantido, pois muitos brasileiros hoje estão em condições precárias de acesso. Às vezes não há rios, mas há poços. Mas nos poços falta equipamento e não podem obter a água necessária. Ademais, o acesso de muita gente voltou a ser com caminhões pipas, cuja qualidade de transporte da água expõe a doenças e outras desordens sociais. O Fórum Mundial da Água, que deve acontecer este ano, deverá ser entendido como uma oportunidade para que as igrejas manifestem sua preocupação com este tema no âmbito da mordomia cristã e do cuidado do meio-ambiente, temática que será prioridade da Igreja Metodista em 2019.

O último tópico debatido foi a violência, com a precarização do repasse de recursos pela PEC do teto dos gastos públicos, cuja prática já vem se mostrando preocupante. Integrantes das igrejas ligados à área de educação se queixaram da falta de recursos e da finalização de projetos importantes para dar acesso a estudantes de baixa renda ao estudo superior. Mas também alertaram que o ensino fundamental e médio, sem os devidos investimentos, é o maior agregador nesse ambiente de precarização do ensino no Brasil. Ele precisa se tornar prioritário pois somente assim o ensino superior poderá trazer pleno desenvolvimento ao jovem. Conectado a isso, a violência urbana, que vitima mais de 60 mil pessoas por ano no Brasil, segundo o Instituto Igarapé. Crianças, adolescentes e particularmente os jovens estão na liderança desse ranking perverso. Cresce também a violência contra as mulheres. Os participantes da reunião reafirmaram que a saída para a violência não passa pelo mero armamento das polícias ou aumento de celas de prisões, mas também pelo preparo adequado dos policiais, pela justa remuneração e condições de trabalho, bem como por políticas públicas que preservem as crianças e adolescentes. Há que se combater as circunstâncias que hoje geram o desemprego, o aumento da população de rua, a dependência de drogas, entre outras.

Na ocasião, tive uma breve palavra de cinco a sete minutos. Agradeci a oportunidade para o encontro, ressaltei o compromisso histórico da Igreja Metodista pelos direitos das pessoas menos favorecidas e rapidamente recordei o episódio em que Ezequias recebeu os embaixadores da Babilônia no seu palácio. Animado, ele abriu todos os tesouros e mostrou todos os recursos de seu país ao interesse estrangeiro. Questionado pelo profeta de que no futuro tudo isso poderia ser roubado no futuro pelos babilônios, ele pensou: “Ainda bem, haverá paz e segurança nos meus dias”. Mas para nós, cristãos e cristãs, não basta assegurar os direitos, os valores ou os interesses apenas de nossa geração ou de nosso tempo atual. Temos uma obrigação com as gerações vindouras. É parte de nosso cuidado garantir que estamos deixando um mundo melhor. Porque o reino de Deus não é apenas no céu, mas na terra como no céu. No que pudermos, precisamos contribuir efetivamente.

A reunião terminou com o compromisso do acompanhamento de perto aos desdobramentos das votações e presença das igrejas e lideranças nos espaços de discussão. Também ficou firmada a possibilidade do convite às igrejas para participação no Fórum Mundial da Água, além de outros encontros para ajudar o Legislativo a pensar propostas que possam gerar impacto na redução da violência urbana.
 

Bispa Hideide Brito Torres
Presidente da 8ª Região Eclesiástica

Fotos: Alessandro Dantas


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