Publicado por Sara de Paula em Notícias | 05/02/2018 às 14:22:36


Herança Wesleyana no combate à febre amarela


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A Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia descartado a possibilidade de o Brasil estar na área de risco das doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti desde 1958, tema que já foi matéria de capa no Expositor Cristão de março de 2016. Mas as doenças transmitidas pelo mosquito voltam a alertar a população brasileira. O mosquito continuou sua reprodução na Venezuela, no sul dos Estados Unidos, Suriname e Guianas, além de toda a extensão que engloba Cuba e Caribe. Até o fechamento desta edição, já foram registradas 36 mortes por febre amarela somente no estado de São Paulo desde 2017. Outros 81 casos da doença foram confirmados no estado. 

Claudimar Oliveira, de Juiz de Fora/MG, acredita que a Igreja precisa fazer a diferença neste momento que o país está atravessando. “Uma Igreja não pode nem deve se fechar em si mesma, mas precisa usar o espaço físico para levar conhecimento às pessoas sobre a febre amarela e os meios de prevenção”, disse Claudimar.

Outra pessoa que também acredita nas ações da Igreja para a prevenção e combate da febre amarela é o ex-presidente da Confederação Metodista de Juvenis, Gustavo Leme de Souza. “A febre amarela é uma questão de saúde pública, portanto acredito que as igrejas devem se envolver no combate à epidemia, por conta do presente risco à saúde e pela participação da igreja em ações que beneficiam a sociedade e seus indivíduos”, declarou Gustavo. 

Já segundo o Pastor José Tarcísio Ribeiro, de Vila Velha/ES, uma ação comunitária passa pelos cuidados da criação de Deus. “Acredito que a Igreja deve se envolver voluntariamente e também em comunidade. Afinal, a mordomia da criação passa por todos/as que são zelosos/as e também por aqueles/as que exercem as boas obras. Portanto, seguindo as orientações bíblicas (Gn 2.15), devemos cuidar do planeta e de seus habitantes integralmente”, alertou o pastor.

O mosquito

O Aedes aegypti, que pode transmitir dengue, zica, chikungunya e também a febre amarela está presente em 3,6 mil municípios brasileiros. A informação é do Centro de Informação em Saúde para Viajante (Cives) da UFRJ. No Brasil, não ocorre transmissão da febre amarela em cidades desde 1942, mas a possibilidade da transmissão em áreas urbanas existe desde a reintrodução do Aedes aegypti no país. 

A infecção é transmitida por mosquitos do gênero Haemagogus (principalmente), e o ciclo do vírus é mantido através da infecção de macacos e da transmissão transovariana no próprio mosquito. O vírus da febre amarela circula em todos os municípios das regiões Norte e Centro-Oeste (incluindo o Distrito Federal). Também circula em numerosos municípios das regiões Nordeste (no Maranhão, em todos), Sudeste e Sul. O estado de São Paulo já foi considerado pela OMS como área de risco, portanto a população segue indo aos postos de saúde com filas intermináveis atrás de uma dose da vacina. Em parte dos municípios dos estados da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, embora não esteja ocorrendo circulação viral, existem condições que podem permitir a eventual transmissão da febre amarela.

A OMS informa, em sua página oficial, que o vírus é contraído e, após o período de incubação de 3 a 6 dias, a infecção pode ocorrer em uma ou duas fases. “A primeira, aguda, geralmente causa febre, mialgias com dores nas costas intensas, dores de cabeça, calafrios, perda de apetite e náuseas ou vômitos. Depois, a maioria dos/as pacientes melhora e os sintomas desaparecem em 3 ou 4 dias. No entanto, 15% dos/as pacientes entram 24 horas após a remissão inicial em uma segunda fase, mais tóxica. A febre alta retorna e diferentes sistemas orgânicos são afetados”. Metade dos/as pacientes que entram na fase tóxica morre dentro de 10 a 14 dias e o restante se recupera sem grandes lesões orgânicas.

Não há tratamento curativo para a febre amarela. A vacinação é a medida preventiva mais importante contra a doença. A vacina é segura, acessível, muito eficaz, e uma dose única é suficiente para conferir imunidade e proteção para a vida, sem a necessidade de uma dose de reforço, com exceção dos estados onde a dose será fracionada – o que vale para os próximos oito anos após a vacina.

“Angola e Brasil são exemplos para a Organização Mundial de Saúde de que o risco da febre amarela mudou e existe hoje uma maior ameaça de surtos”. O alerta é de Laurence Cibrelus, do Controle de Doenças Epidêmicas da OMS, responsável por implementar uma estratégia ambiciosa de acabar com a epidemia de febre amarela no mundo até 2026. “Esses casos são sinais de que o risco nesses países mudou e a população não está suficientemente protegida.”

“Em 2016, tivemos um surto urbano em Angola, que se espalhou para a República Democrática do Congo e, com casos exportados para a China. Existiu um grande risco de epidemias urbanas, a partir da exportação de casos. Isso nos ajudou a entender que havia um aumento do risco de surto e transmissão internacional”, finalizou Laurence.

Herança Wesleyana

O Reverendo John Wesley, fundador da Igreja Metodista no século 18, até hoje é conhecido por seu cuidado com as pessoas, além de seu legado wesleyano que herdamos como metodistas. Dentre as obras que escreveu, segundo Joe Iovino, que trabalha na comunicação da Igreja Metodista Unida, Wesley tinha um manual de saúde em sua cabeceira. “Primitive Physick era o livro best-seller de Wesley durante sua vida. Incluía remédios caseiros para doenças como asma, calvície (cebolas e mel), dores de ouvido, picadas de insetos, cálculos renais, vertigem e muito mais. Juntamente com esses tratamentos, ele oferece dicas sobre como manter o bem-estar através do exercício, uma dieta saudável e sono adequado, aliás as mesmas coisas que os/as especialistas nos recomendam hoje”, disse Joe.

Cuidar do corpo era uma parte importante do ministério de John Wesley. Sob a sua liderança, os/as pregadores/as metodistas e as casas de reuniões eram conhecidos/as como dispensadores de remédios para doenças, especialmente para aqueles/as que não podiam se dar ao luxo de consultar um médico.

Joe destaca ainda que Wesley entendeu que a saúde física e espiri­tual estavam conectadas. “Em uma carta datada de 26 de outubro de 1778, ele oferece o seguinte conselho para seu amigo Alexander Knox: ‘Alex, será uma dupla bênção se você se entregar ao Grande Médico, para que ele possa curar alma e corpo juntos. E, sem dúvida, esse é o desejo dele’, finalizou Joe Iovino.
Um exemplo de que essa herança de cuidar da saúde se mantém entre os/as metodistas é o caso do missionário metodista Hugh Clarence Tucker, que introduziu ao médico dr. Oswaldo Cruz a pesquisa que faria diferença na sociedade para combater a febre amarela, tendo um papel fundamental no processo de erradicação da doença, mas as medidas preventivas de controle após a erradicação do Aedes aegypti não foram suficientes; com isso, permitiu sua reintrodução no país no final da década de 1960. 

O Pastor Odilon Chaves lembra que outro metodista contribuiu no combate a febre amarela. "O metodista Walter Reed foi quem descobriu a origem da febre amarela. Foi em cima desse fato que Hugh C. Tucker influenciou Oswaldo Cruz. Em sua homenagem há o Hospital Geral Walter Reed nos EUA e foi feito o filme Yellow Jack", disse o pastor Odilon ao se referir aos fatos históricos publicado no livro, O Notável Povo do Coração Aquecido, da Angular Editora. Hoje, o mosquito é encontrado em todo o território nacional.

Segundo o historiador João Wesley Dornellas (in memorian), foi graças ao pioneiro Hugh C. Tucker, fundador do Instituto Central do Povo, no Rio de Janeiro, e outras instituições que muitas conquistas sociais foram alcançadas. 

“Ele introduziu o primeiro playground do Brasil, o primeiro centro destinado aos deficientes auditivos, o primeiro Posto de Saúde, fundou a Union Church, ajudou a fundar o Hospital dos Estrangeiros, a Associação Cristã de Moços e o Instituto Brasil Estados Unidos. Mais importante ainda foi sua contribuição nas campanhas de erradicação da febre amarela, dirigidas por Oswaldo Cruz no governo do prefeito Pereira Passos”, escreveu Dornellas em artigo publicado no site da Igreja Metodista em Vila Isabel. 

Metodistas de Angola aderem à campanha 

A Igreja Metodista Unida Central de Luanda encorajou os membros a aderirem às campanhas de vacinação contra a febre amarela e outras doenças. O apelo foi feito durante a continuação da campanha de vacinação contra a doença, iniciada no sábado, dia 13 de janeiro, em uma ação que está sendo realizada antes e depois dos cultos. A campanha se estende aos/às fiéis e moradores/as de Luanda. 

Os membros da Igreja foram orientados sobre as melhores formas de combater as doenças transmitidas pelo mosquito: a vacinação, a proteção contra a picada do mosquito e a eliminação dos locais onde se procriam as larvas.

Cuidados

A Agência Europeia de Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) emitiu no dia 18 de janeiro um comunicado recomendando que turistas que visitarão o Brasil no período do Carnaval ou nos próximos dias se vacinem contra a febre amarela. O órgão teme que o forte fluxo de turistas da Europa ao país nesse período acabe gerando uma importação de casos da doença.
No comunicado, a agência lembra que o surto no Brasil havia sido declarado como encerrado em setembro de 2017, mas os números em alta dos últimos meses apontariam para a volta da circulação do vírus, em especial em São Paulo. 
 

Pr. José Geraldo Magalhães
Publicado originalmente no Jornal EC de fevereiro de 2018. Acesse aqui. 


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