Publicado por José Geraldo Magalhães Jr. em Artigo, Metodismo, Opinião, Notícias | 10/12/2019 às 13:03:33

Bíblia: sua origem, formação e revelação para a vida

Quando falamos de Bíblia e começamos a pensar em sua importância e significado para a humanidade, aguça-nos a curiosidade sobre os mistérios que envolvem sua sobrevivência e longevidade, persistindo em se manter como palavra viva de Deus. Seus escritos resistiram a décadas de extraordinária fermentação espiritual e grande agitação política, marcadas por guerras, desastres naturais e mudanças culturais grandiosas. Essa coletânea de escritos antigos, composta por leis, profecias, poesias, filosofia e história, atravessou séculos, deixando evidente as marcas de uma relação fascinante e complexa entre Deus e sua criação.

Na linguagem de seus escritores, a Bíblia é Palavra de Deus, é pão, é mel, é fogo, é martelo, é viva e eficaz, mais cortante do que espada de dois gumes. Esta “Palavra do Senhor” é perfeita e existe eternamente, é divinamente inspirada. Deus nos falou, Deus se revelou nas páginas deste livro chamado Bíblia. A saga histórica contida na Bíblia mostrando a ação criadora de Deus, o encontro de Abraão com Deus, a jornada do povo até a terra prometida, a libertação dos/as filhos/as de Israel por intermédio de Moisés, a orientação constante dos profetas e o sacrifício doador de Cristo são as marcas de uma brilhante revelação divina.

Suas palavras carregadas de poesia nos ensinam que é possível conhecer Deus observando a natureza, mas só chegamos a conhecer Deus de forma plena, quando descobrimos em suas páginas o amor e a misericórdia de Deus, reveladas em Jesus. A morte de Jesus, sua ressurreição e aparições aos/às discípulos/as, sua volta ao céu com a promessa de retornar para finalmente reinar eternamente com seu povo completam esta revelação progressiva de Deus, que temos em Sua palavra.

A Bíblia é livro para ser lido, decorado em partes, meditado, observado, obedecido e vivido. Nela estão expressas não só as leis de Deus mas uma manifestação de vida nova, com qualidade e dimensões totalmente diferentes para aqueles e aquelas que encontram em suas páginas o Salvador e a atuação de seu divino Espírito.
A beleza e a grandeza dessa fascinante biblioteca se completam quando percebemos que a Bíblia não está sujeita à dominação de um grupo, nem se permite ser apossada como patrimônio de uma confissão religiosa. A Bíblia é para todos/as, é um presente de Deus para a humanidade e, por isso, qualquer pessoa que a ler com o coração aberto à orientação do Espírito Santo poderá compreender perfeitamente sua mensagem. 

A formação canônica da Bíblia
O historiador Flávio Josefo, que viveu no I século da era Cristã, ao tentar explicar aos seus leitores gregos quais eram os livros normativos para os judeus, ou seja, os livros considerados como regra de fé para a comunidade judaica de sua época, chamou-os de ta biblia, que quer dizer: os livros. Esse substantivo plural, que deu nome ao cânon do I século, era assim chamado por sua capacidade de reunir uma coletânea de escritos sagrados de grande importância para o povo. 

“A Bíblia é livro para ser lido, decorado em partes, meditado, observado, obedecido e vivido. Nela estão expressas não só as leis de Deus mas uma manifestação de vida nova, com qualidade e dimensões totalmente diferentes para aqueles e aquelas que encontram em suas páginas o Salvador e a atuação de seu divino Espírito”

O vocábulo cânon vem do grego kanôn que se traduz por cana, vara. Assume em sentido figurado o caráter de algo que é reto, regra, norma. O cânon bíblico torna-se então um meio de manter e de transmitir a identidade religiosa, étnica e cultural de um grupo. A Bíblia ganhou ao longo dos séculos a singularidade de se tornar um livro sagrado. Ela é por si só uma biblioteca de livros agregados, que foram intencionalmente reunidos e apresentados a uma determinada comunidade, na intenção se servir como uma coleção normativa.

Os últimos séculos que antecedem à era cristã foram tempos de muitas transformações no mundo bíblico. O crescimento da cultura helênica e as influências da língua grega na cultura forçaram a tradução do texto hebraico para o grego pelo judaísmo alexandrino do século III a.C. Muitas literaturas começam a surgir nesse tempo, provocando a reação dos judaístas, que tentavam manter sua identidade.

Os sábios judeus, que lutavam por manter sua tradição e sua língua vivas, determinaram o fechamento de um cânon hebraico, proibindo alterações que influenciavam os conflitos de identidade cultural do judaísmo antigo. A circulação de literatura religiosa que não seguia os modelos do judaísmo antigo foi rejeitada, para que se harmonizasse o povo em torno de uma mesma fé e um mesmo Deus.

No entanto, a Septuaginta ficou famosa pela história e mistério que envolvem sua tradução. Havia uma mística de que setenta sábios judeus traduziram para o grego todo o texto hebraico em setenta dias, proporcionando um caráter ainda mais sagrado para esse texto. Conhecida como a tradução dos setenta, a Septuaginta torna-se a referência para os/as primeiros/as cristãos/ãs, permitindo que alguns livros a mais fizessem parte da composição canônica.

Esses livros suplementares são designados comumente como “deuterocanônicos”, ou seja, segundo cânon. Embora não sejam reconhecidos pela tradição cristã protestante como livros divinamente inspirados, possuem grande valor histórico para se compreender o contexto de formação dos escritos bíblicos da era cristã.

A Bíblia Hebraica, que os/as cristãos/ãs a partir do II século chamavam de Antigo Testamento, ganha, portanto, a particularidade de ser reconhecida agora por duas tradições diferentes: a tradição judaica, com o texto escrito na língua hebraica, e a tradição helênica, com a tradução do texto hebraico para a língua grega. A formação do Novo Testamento acontece à medida que o cristianismo começa a ser difundido no mundo antigo, refletindo a teologia cristã, a partir de uma coletânea de trabalhos que se inspiraram na Bíblia Hebraica e principalmente na Septuaginta.

Diante disso, o fator de maior importância para nós, hoje, sobre a formação canônica da Bíblia é que a partir desse conflito se fortalece ainda mais a identidade de um livro que foi capaz de atravessar séculos de história, repleta de tensões e adversidades. A Bíblia continua se mostrando, ainda hoje, como uma primordial fonte de vida e regra de fé. 

Bíblia: revelação para a vida
A Bíblia fala de um Deus que se revela. Tal revelação pode acontecer por meio de eventos da natureza, pela manifestação de anjos, através de animais e pessoas. De formas variadas, Deus se torna revelacional, e sua maior fonte para os tempos de hoje está no conhecimento e estudo da Bíblia como fundamento básico para a revelação de Deus.

Quando pensamos no estudo da Bíblia, precisamos ressaltar alguns fundamentos básicos e necessários para a compreensão do texto sagrado: O primeiro fundamento é que a Bíblia não precisa de pesquisa para a sua compreensão. Ela é, antes de qualquer coisa, um texto de fé e aberto a toda a humanidade, como um patrimônio de essência imaterial. Seu principal valor está na possibilidade de que qualquer pessoa tem o direito e privilégio de acessá-la, desenvolvendo sentido para a vida. O segundo fundamento é que o texto bíblico está sempre além de seu sentido histórico. Ele é a palavra que atesta a revelação e torna-se realidade no encontro com Deus e o ser humano. O texto bíblico está, portanto, sempre aberto a novas interpretações e releituras.

Por fim, nenhum evento que tenha sido narrado pelo texto bíblico chegou a nós sem uma interpretação. Qualquer experiência mediada pelo tempo, pelo espaço e pelos sujeitos chegará até nós enriquecida pela interpretação. Assim, é sempre possível que, diante de um mesmo texto e dos mesmos fatos, alguém possa encontrar a confirmação vigorosa de sua fé, com consequências transformadoras para a vida, enquanto outros/as desenvolvem interpretações pessoais e naturais sem qualquer apelo à possibilidade de alguma mudança.

Ao longo da história de interpretação das Escrituras, muitos métodos foram criados com a intenção de facilitar e sistematizar os textos da Bíblia. Porém, alguns grupos desenvolveram receios quanto à crítica bíblica, por considerá-la ameaçadora da integridade da Palavra de Deus. Por outro lado, essa forma de investigação que analisa os fatos e as circunstâncias que nos trouxe o texto bíblico mostra o quanto somos pequenos/as e humildes diante dessa imensidão cultural, religiosa e social de povos tão antigos.

Bem mais do que a interpretação literal e a explicação dos fatos que serviram de alicerce para a construção do texto bíblico, a essência reveladora de Deus na Bíblia se faz através de sua mensagem. Este é o ponto essencial da palavra de Deus, a mensagem. Ela nos direciona a constantes atualizações e nos proporciona fontes renovadoras de possibilidades que dão sentido à vida.

A mensagem, a pregação, o anúncio e a proclamação são sinônimos do kerigma, palavra de origem grega presente no Novo Testamento, que, traduzida por mensagem, torna-se a base da pregação de Cristo aos homens e às mulheres. Essa revelação para a vida, encarnada em Jesus Cristo, transforma-se no ato essencial do evangelho. O kerigma – a mensagem ou a revelação bíblica – pode ser realizado por todo cristão/ã, que mesmo sem experiência ou treinamento prévio tenha disposição “para anunciar a Boa-Nova aos pobres, para proclamar a libertação dos cativos, recobrar a vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos, proclamar um ano de graça do Senhor” (Isaías 61.1). 

Rev. Jovanir Lage
Pastor na Igreja Metodista Eldorado, em Contagem/MG • Diretor do Instituto Teológico João Ramos Júnior • Professor de Hebraico e Antigo Testamento no Curso de Teologia do Instituto Metodista Izabela Hendrix


Referências Bibliográficas
Bíblia Almeida Revista e Atualizada no Brasil, 2ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
KONINGS, Johan. A palavra se fez livro. 2ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 1999, p. 63-67. 
RÖMER, Thomas; MACCHI, Jean-Daniel; NIHAN, Christophe (Org.). Antigo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo: Loyola, 2010.
SIQUEIRA, Tércio Machado. Exegese e teologia do Antigo Testamento Parte I. In: Fundamentos Bíblico – Históricos. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo. 2009, p. 33-38.



Publicado originalmente na edição de DEZEMBRO de 2019 do jornal Expositor Cristão 

*Reprodução parcial ou integral deste conteúdo autorizado desde que seja citado a fonte conforme abaixo:

[Nome do repórter ou autor do artigo], Expositor Cristão (Edição dezembro de 2019)


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