Publicado por Sara de Paula em Notícias, Capa | 03/07/2018 às 17:07:10


As marcas da identidade metodista


“O momento presente é angustiante em todos os seus aspectos. A crise se estabeleceu em todos os níveis da vida, atingindo-nos profundamente. O quadro social, econômico, político, moral e religioso está tremendamente conturbado. As pessoas e o povo são levados por todos os ventos de doutrinas, agitadas de um lado para outro”

O texto em destaque acima faz parte da 3ª edição da pastoral As Marcas Básicas da Identidade Metodista publicada em 2003. A pastoral, que completa 25 anos em 2018, desde sua primeira publicação, em 1993, discute um tema relevante nos dias atuais, que é a identidade metodista.

Não é de hoje que se ouve nos bastidores que a Igreja Metodista perdeu a sua identidade. Talvez um discurso vazio repetido por muitos/as que desconhecem os documentos institucionais, mas, por outro lado, tenha perdido mesmo pelos excessos e modismos que são trazidos para dentro das igrejas locais. 

O assunto é tão importante que foi aprovado na decisão conciliar (19º Concílio Geral), em 2011, de estabelecer em uma seis das ênfases missionárias, uma que fosse voltada  para fortalecer a conexidade, identidade e unidade da Igreja. Pauta reforçada mais uma vez cinco anos mais tarde, no 20º CG, ao aprovar que todos os documentos vitais que afirmam o modo de ser e viver metodista sejam reeditados, recorrendo-se às diversas mídias, visando alcançar não somente as pessoas adultas, mas também jovens e crianças. 

Na opinião da Presidente da Federação Metodista de Mulheres da 4ª Região Eclesiástica, Eloisa Altino, os membros precisam interessar-se mais pela história da denominação. “A Igreja perdeu-se um pouco no caminho. Se as mulheres se capacitarem e conhecerem nossos documentos, é muito mais fácil para resgatar essa identidade. Nossos documentos estão acessíveis a todas as pessoas. Não conhecê-los gera alguns desvios doutrinários”, disse Eloisa, reforçando que o caminho para uma Igreja saudável passa pela educação cristã.

Já a Pastora Mara Freitas, da 2ª Região, pensa um pouco diferente. “Eu não sou tão atrevida para dizer que se perdeu a identidade, mas talvez não tenhamos dado a devida ênfase. Me parece que estamos voltando aos documentos da Igreja, pois são eles que nos dão as diretrizes missionárias, vão além da distribuição de folhetos e cultos em praças públicas. Fazem parte de nossa história wesleyana”, destacou.

Identidade

Vários livros, textos e artigos já foram escritos para fortalecer as marcas e identidade metodista (cf. final da página 9). O texto “Marcas fundamentais do Metodismo” foi escrito por um grupo de trabalho indicado pelo próprio Colégio Episcopal (CE) à época, sendo lançado à Pastoral, na década de 1990, e destacou que numa análise rápida de alguns textos citados, pôde-se verificar onde se encontram as ênfases que caracterizam as marcas fundamentais da identidade metodista, o que define o que é a Igreja Metodista e para que ela existe.

Uma das grandes ênfases históricas do Metodismo é que a sua postura representa uma visão e uma prática equilibrada da fé e da vida cristã; equilíbrio entre doutrina e prática da fé; ciência e fé; piedade e misericórdia; evangelização e serviço, além do testemunho e vida; unidade e diversidade; salvação pessoal e social; liberdade e moral; santificação pessoal e social; graça e fé; fé e obras; lei e graça; entre outros adjetivos destacados no documento.

Sobre a temática Identidade e Eclesiologia (igreja), em 2016, o 20º CG aprovou um posicionamento do CE mais rigoroso quanto aos excessos ocorridos na prática de várias igrejas metodistas que promovem um clericalismo do/a leigo/a e do/a evangelista; líderes de células se tornam pastores/a de rede, rea­lizam batismos, descaracterizando totalmente o sacramento e o ministério pastoral, além da eclesiologia metodista. A proposta aprovada contempla que se façam cumprir as doutrinas e a eclesiologia de dons e ministérios, em uma igreja em discipulado, fundamentada na Bíblia, Plano para a Vida e Missão e no Plano Nacional Missionário que norteiam a missão da Igreja Metodista.

O CE tem procurado cumprir essa decisão conciliar que envolve identidade e disciplina eclesiástica, quando necessário. Além dos casos regionais que são tratados especificamente por cada Bispo e Bispa, o Colégio Episcopal emite Atos Complementares, Pronunciamentos, Normas e Diretrizes para orientar a Igreja e fortalecer a identidade metodista.

Para tratar da identidade metodista, o Presidente do Colégio Episcopal, Bispo Luiz Vergílio Batista da Rosa, destaca pelo menos três pontos que devem ser considerados:

1. Em primeiro lugar, a identidade da Igreja Metodista deve ser entendida dentro do conceito ‘Eclesia’, Neotestamentário; seguindo a tradição dos apóstolos. Somos uma comunidade de fé, de centralidade bíblica, de vivência comunitária e de prática missionária que sinaliza a presença do Reino de Deus, revelado plenamente em Cristo.

2. Em segundo lugar, a identidade metodista está ligada à tradição dos movimentos da reforma protestante do séc. XVI, bem como ao movimento metodista wesleyano de renovação da Igreja no séc. XVIII, protagonizado por João e Carlos Wesley.

3. Em terceiro lugar, somos uma Igreja autônoma, de natureza conciliar, governo episcopal e organizada em Dons e Ministérios, como comunidade missionária a serviço do povo. Neste sentido, buscamos cumprir com a missão de Deus, em seu propósito de salvar o ser humano, através de atos de piedade e obras de misericórdia.

Esses três pilares apontados pelo Bispo Luiz – Bíblia, Reforma Protestante e Comunidade Missionária a Serviço do Povo – são a essência do metodismo e aparecem não só nos documentos do metodismo, mas na prática das igrejas locais.

Conexidade

Ser uma Igreja conexional é um desafio. Na palavra episcopal desta edição, escrita pelo Bispo Adonias Pereira do Lago, há um resgate histórico dessa conexionalidade. “Nosso sistema conexional afirma que há uma só Igreja, que é o Corpo de Cristo, comprometida com a sinalização do Reino de Deus no mundo, que não se esgota na igreja local, mas se expressa na mutualidade dos dons e serviços do povo chamado metodista, em todo o Brasil e em todo o mundo. Afinal, acreditamos, conforme Efésios 4.4, que ‘há um só Senhor, uma só fé, um só batismo’ e, como metodistas, cremos também que há uma só Igreja”.

O Bispo Adonias chama a atenção para alguns equívocos: “As fragilidades institucionais, a grande irresponsabilidade de quem possui um espírito que divide a Igreja por qualquer motivo ou por busca de poder, o espírito exclusivista e egoísta de muitas comunidades de fé, o isolacionismo de crentes com uma espiritualidade apenas dentro dos templos, um rebanho que tem sido formado para seguir cegamente seus/as líderes centralizadores/as”.

Para o Bispo José Carlos Peres, a Igreja conexional está representada também na unidade do Corpo de Cristo. “São igrejas fortes, dinâmicas e que têm a visão missionária. Essas deveriam prestar assistência às igrejas que estão sofrendo com a falta de obreiros/as leigos/as, enviando irmãos e irmãs que tenham o coração na missão para que socorram a igreja em estado de carência”, disse o Bispo Peres. 

Essa também é a visão de Rosalina de Almeida de Belo Horizonte/MG. “Se somos conexionais e um só corpo, se uma de nossas igrejas irmãs precisa de apoio missionário, por que não deslocamos alguns músicos, evangelistas para apoiar o trabalho de uma congregação de nossos distritos? Às vezes queremos ver o resultado somente em nosso rebanho e não nos preocupamos com o arraial do Senhor”, desabafou Rosalina. 

Ainda na percepção do Bispo Peres, a conexidade tem também como propósito manter a unidade da igreja. “O metodismo dentro do princípio wesleyano preza pela unidade doutrinária e eclesiástica, assim, nenhuma Igreja Metodista deve trabalhar fora das decisões dos Concílios e dos documentos produzidos por eles e das cartas pastorais redigidas pelo Colégio Episcopal. Concílios e Governo Episcopal dão sustentabilidade para a conexidade da Igreja”, concluiu o Bispo Peres. 

Unidade

O Concílio Geral de 1982 aprovou como base para o Plano para a Vida e a Missão da Igreja os “Elementos fundamentais da unidade metodista”, entre eles, a Bíblia, experiência pessoal com Cristo para a vida cristã pessoal e comunitária e vida de disciplina pessoal e comunitária são alguns exemplos que estão publicados na Pastoral As Marcas Básicas da Identidade Metodista.
Para quem é metodista de berço e já participou de vários momentos decisivos na vida da igreja, as divisões às vezes assustam. O metodista Marcos Romero dos Santos de São Paulo desabafa: “Não há igreja sem defeito. Todas elas, sem placa denominacional, têm as suas diferenças doutrinárias. Por isso que há muitas denominações. Se a pessoa não se encaixar em uma, ela vai à outra. O que não deveria acontecer é a divisão da mesma Igreja”, relatou Marcos. 

Mesmo com o desabafo, Marcos encontra esperança no texto de Atos dos apóstolos. “Mas fazer o quê? Se Paulo e Barnabé, que serviam a Cristo, separaram-se para o avanço missionário, quem somos nós para julgar, mas toda separação deixa as suas marcas”, finalizou.

Para a Bispa Marisa de Freitas Ferreira, a carta aos Efésios relata, de forma profunda e sintética, todo o conteúdo da vida cristã. “A Carta nos apresenta o Deus da salvação. Relata também o grande amor dEle por todas as vidas humanas, principalmente do versículo 22 em diante do primeiro capítulo onde nos é apresentado o Corpo vivo de Cristo”, disse a Bispa destacando que o corpo não é formado de pessoas uniformes.

“Como é possível que um corpo caminhe com tantas diferenças? Com tantos desejos de ser maior que o/a outro/a? Este é um corpo todo transplantado; é uma vinha cheia de enxertos de qualidade complicada. Mas é corpo. Como? Só há um jeito deste corpo não viver em degeneração a não ser que se submeta ao Cabeça. A unidade se dá exatamente em torno de Cristo”, concluiu a Bispa Marisa.

O desafio maior, segundo o Bispo Adonias Pereira do Lago, é manter a unidade. “Como Igreja viva que somos, podemos em unidade fazer diferença na cidade onde estamos, sendo uma igreja preocupada em ser relevante e que provoca transformação social, espiritual na vida de muitas pessoas”, finalizou o Bispo.

Publicações

Diversos livros e estudos já foram publicados para fortalecer as marcas e identidade metodista. Entre eles estão: Aspectos do Metodismo histórico, de Sante Uberlo Barbieri; As crenças fundamentais dos metodistas, de Mack B. Stokes; traduções de Os sermões de Wesley; João Wesley, o evangelista, de Francis Gerald Enslcy; Metodismo: releitura latino-americana, de José Míguez Bonino; O desafio de João Wesley para os dias de hoje, de Gonzalo Baéz Camargo; Vida devocional na tradição wesleyana, de Steve Harper, e Salvos pela graça, do Concílio Mundial Metodista. 
 

“Preguem a nossa doutrina, inculquem a experiência, estimulem a prática, reforcem a disciplina. Se vocês pregarem somente a doutrina, o povo será antinomiano; se pregarem somente a experiência, ele será entusiasta; se pregarem somente a prática, fariseu; e se vocês pregarem tudo isso e não reforçarem a disciplina, o Metodismo será como um jardim cultivado, porém sem cercas, exposto à destruição de porcos selvagens” 

(Texto encontrado abaixo de um antigo retrato de João Wesley, exposto na Nícolson Square Church, em Edimburgo, Escócia. É a resposta de Wesley a respeito de como o Metodismo seria mantido vivo após a sua morte). 

Pr. José Geraldo Magalhães
Publicado originalmente no Jornal Expositor Cristão de julho/2018


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