Publicado em Opinião, Reflexão | 05/01/2018 às 11:22:11


A propósito do suicídio da Pastora Lucimari

E nós metodistas com isso?

Eu já havia escrito meu ultimo artigo de final de ano, intitulado: "Retrospectiva e esperanças de um Seguidor do Caminho - Diário de bordo". Minha ideia era retornar as postagens somente em 2018. Todavia, diante da notícia da ocorrência do quarto caso de suicídio, somente neste mês de dezembro, envolvendo pastores, eu mudei meu propósito. O mais recente caso envolve a pastora Lucimari Alves Barro que pastoreava a Igreja do Evangelho Quadrangular em Criciúma - Santa Catarina. Ela cometeu suicídio na quarta-feira, dia 27 de dezembro, e seu enterro aconteceu na quinta-feira (28), no Cemitério Municipal de Morro da Fumaça em Criciúma.

Certamente, assim como sempre ocorre, Lucimari deixou "sinais" de que provocaria sua morte. A pessoa suicida começa a idear a ação quatro anos antes. É um processo doloroso, em meio ao qual, na luta com sua angustia, ela vai deixando pistas, “pedindo socorro” por meio de uma música, um vídeo, um abraço repentino... É preciso estar atento, pois o futuro suicida, de fato não quer morrer, antes, o que deseja é matar a dor que lhe consome, e quando não consegue; acaba por provoca a própria morte como fuga de seu desespero interno.

Suicídios ocorrem em todas as classes profissionais e sociais, mas ultimamente vem se tornando cada vez maior sua ocorrência em meio a pastores e padres. Não sei como é o "universo" dos padres, mas enquanto ministro protestante, indo para dezesseis anos de pastorado; observo que pastores/as geralmente são pessoas fechadas, caladas sobre suas dores e angústias. O ambiente entre os pastores é de concorrência constante. Na fogueira das vaidades acesas em Conselhos ou congressos, as chamas de tal fogueira são alimentadas por veladas disputas manifestas em conversas sobre tamanho da membresia, templo e arrecadação. Fato é que muitos/as são orgulhosos, não admitem suas fraquezas, tentações, fracassos, vivem a se comparar com os gurus do crescimento de Igrejas. Se por um lado os/as pastores/as têm dificuldades de falarem sobre suas dores, por outro lado, a igreja, ou parte dela, não aceita que tal humanidade seja expressa. Os que querem manter o crescimento e pretensa “paz” da igreja não admitem, principalmente se for do púlpito, que o/a pastor/a faça um desabafo, pois ninguém seguiria uma pessoa que demonstra suas fragilidades, dores, temores, incertezas, em público. E é fato que, muitas das pessoas que são lideres locais ou gerais, nem sempre sabem lidar com as crises de seus/suas pastores/as. Porém, embora não seja aconselhável abrir o coração a partir do púlpito, o saber fazê-lo diante de toda comunidade poderá dar muito mais resultados do que com um grupo de líderes ou nos chamados fóruns próprios. Mas, indubitavelmente, no tocante a desabafos, a verdade é que, independente do ambiente ou fórum, nunca devemos esperar por unânime compreensão e empatia.

Diante das sequentes notícias de mortes por suicídios de lideranças pastorais, a pergunta que não quer calar é: "Por qual motivo pastores e pastoras estão se matando?" Creio que são múltiplos fatores que colaboram para isso, mas talvez o maior deles seja a depressão, o mal do século. Além dos problemas relacionados à depressão, aponto também a falta de real vocação para o ministério. Penso que há muitas pessoas que movidas por razões equivocadas entraram para o ministério. Eu acredito que existe o/a pastor/a chamado/a e o/a chamado/a pastor/a. Penso que, ser pastor/a não é fruto de uma escolha pessoal, uma carreira no estilo secular, antes é consequência de uma escolha divina, pois o próprio Jesus declarou: "Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça." João 15:16. Embora, segundo pesquisas, fulgure entre as dez profissões mais estressantes do mundo e possua desafios que lhe são inerentes, o ministério pastoral não é em si um fardo, uma cruz. Encarar o ministério assim é duvidar da fidelidade Daquele que nos chamou e enviou, e ao finalizar sua fala conhecida como a Grande Comissão, declarou: "...e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém." - Mateus 28:20. Ele está em nós por meio de seu Espírito. Ele estará ao nosso lado por meio de pessoas que levantará para nos ajudar, a semelhança do que Paulo narra em 2 Coríntios 7: 5 a 15.

Também creio que o aumento do número de pastores/as cometendo suicídios tem a ver com as novas formas de pastorado e estrutura de igrejas, que em muito se assemelham a empresas. Modelos nos quais, o/a pastor/a é um/a gerente que precisa multiplicar o rebanho, pois assim ocorrendo aumenta a arrecadação e o repasse para os de cima, o que consequentemente influenciará no aumento de sua prebenda (rendimentos). Igrejas empresas que giram tal qual linha de produção com metas a serem batidas, em tal engrenagem, totalmente fora do Espirito do Evangelho, quem entrar poderá até ganhar i/números, mas certamente irá perder a sanidade e a própria alma.

Mas, o que fazer? Como ajudar a cuidar de quem cuida? E nós Metodistas com isso?

Obviamente que sem intenção de esgotar o complexo assunto, arrisco apontar cinco ações que ajudam na construção da resposta para as questões que levantei. O que abaixo escrevo é dentro de minha realidade de pastor metodista e considerando nossa estrutura, mas penso que pode ser adaptado a outras estruturas eclesiásticas. Na busca de prevenir que suicídios venham a ocorrer no nosso meio pastoral metodista acredito que podemos dar os seguintes passos:

1. Cabe a/o pastor/a desenvolver parceria de jugo por afinidade, e assim ter para quem ligar, com quem se encontrar para desabafar, orar junto ou mesmo simplesmente conversar e se divertir. Penso que os representantes da Instituição devem se fazer mais presentes na vida do/a pastor/a. Tais presenças não devem ocorrer somente para cobrar resultados, em época de avaliação ou quando surgem rumores de problemas na vida do/a pastor/a ou de sua igreja. Tais presenças devem ocorrer como expressão de real cuidado de quem cuida, como manifestação de amizade, de parceria. Cada Distrito deveria realizar encontros dissociados das reuniões para planejamento, fora dos Concílios Distritais. Encontros que tenham como metas estimular a amizade e afinidade entre o quadro pastoral e suas famílias, envolvendo o a naturalmente tratar das coisas cotidianas da vida, com prática de lazer e esportes. O ambiente e a organização devem estimular espontâneos bate-papos, fugindo de focar temas teológicos, estudos bíblicos, números, cifras, estratégias para multiplicar membros. Insisto em reuniões distritais ou bi-distritais, pois encontros micros têm maior abrangência e resultados. Geralmente os encontros regionais ou nacionais que envolvem famílias são longe e caros. Em quase dezesseis anos de ministério, sempre a frente de igrejas pequenas, nunca consegui ir a um Ministerial da Família, regional ou nacional, e sei que não sou o único no quadro pastoral com uma confissão assim.

2. Criação de uma "Pastoral da escuta" formada por presbíteros e presbíteras, (com pessoas formadas em psicologia integrando o quadro) que auxiliariam o Colégio Episcopal e os Superintendentes Distritais.

3. Penso que a Comissão Ministerial Regional poderia trabalhar junto com a supracitada proposta Pastoral da Escuta. Entre nós, é notório muitos colegas que no início de seus ministérios passaram pela (CMR) - Comissão Ministerial Regional, e que se forem avaliados hoje, talvez não sejam novamente aprovados. Obviamente que teriam que ocorrer mudanças na CMR, e criar dispositivos para uma avaliação bienal ou a cada cinco anos. Sei que isso que proponho provoca medo, pois muitos/as pastores/as temem que quando suas crises forem diagnosticadas, elas sejam usadas contra eles/as, e ao invés de tratados/as sejam postos em disponibilidade. Sim, medo!! Creio ser esse um dos motivos pelos quais muitos e muitas sofrem em silêncio. A grande maioria dos/as pastores/as só fizeram teologia ou alguma coisa ligada a área religiosa, poucos são aqueles/as que possuem outras qualificações, grande parte não teria como sobreviver se repentinamente o ministério for tirado. O fantasma da não nomeação assusta a muita gente em nosso quadro pastoral.

Em 1ª João 4. 18, 19, o apostolo diz que "no amor não existe receio; antes, o perfeito amor lança fora todo medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor." - Aqui, em se falando de medo, devemos nos perguntar: “Será que a pessoa que teme não foi aperfeiçoada em amor pelo fato de ela não se sentir amada pela Igreja, tanto pelos membros locais como por seus superiores?” Já ouvi colegas dizerem: "Meu SD não gosta de mim, até já me ameaçou! O Bispo ultimamente não tem sido meu pastor, sem motivo ele tem me tratado com rispidez!"

Como respostas ao supracitado, no propósito terapêutico de cura das almas, cuidando quem cuida de outras vidas, as lideranças locais, distritais e regionais, precisam mostrar mais a face amorosa do Cristo a quem representam. Uma liderança que causa medo e não segurança, nada tem a ver com o estilo de Jesus de Nazaré que com poucas palavras, ou somente com sua presença, conseguia com que as pessoas falassem de si mesmas, como ocorreu com Zaqueu. É preciso lançar fora todo medo, pois o medo amarra! O medo embaça a mente, turva a visão, adoece o coração e aborta as ações!

A Igreja, na existência de seus pastores e pastoras, precisa se fazer mais presente de forma espiritual e maternal; e não somente de forma fria, burocrática e institucional. Quem sabe chegue o dia em que desde o Colégio Episcopal até os quadros de Superintendentes Distritais, dirigindo-se a todos e todas, e não somente aos mais chegados e chegadas, possamos ouvir da boca de nossos superiores a seguinte paráfrase de João 15:15: “Já não vos chamamos presbíteros/as, discípulos/as, pastores/as, missionários/as designados/as, evangelistas, leigos/as, porque isso tudo é secundário; mas chamamos-vos de amigos/as, porque por conta das funções que recebemos do Pai, em tudo queremos servir a vós, dar a vós outros o melhor nos conhecer.” É impossível? Esperar de mais? Utópico??? Não!! Não creio ser uma utopia, creio sim ser possível! E creio que se isso começar lá de cima logo repercutirá nas comunidades locais, e certamente cresceremos em amor, santidade, serviço, quantidade e qualidade. As únicas estratégias evangelísticas (se é que posso assim falar) de Jesus de Nazaré, o Senhor e cabeça da Igreja, foram: humildade e amor, esvaziamento e serviço. Se o corpo, a Igreja, seguir o exemplo de seu Cabeça e Senhor, faremos coisas iguais ou maiores do que as que ele fez.

4. Nossas comunidades devem ser terapêuticas, espaços de escuta e acolhida, de cura e consolidação, de capacitação e de envio. Faróis do Reino que como intermitências brilham em meio a um obscuro sistema religioso corrompido. Comunidades que, fugindo aos utilitaristas modelos de religiosidade de mercado, persistem na busca da saúde integral do quadro pastoral e de sua membresia. Comunidade que cuida por amar, e não simplesmente pelo fato de que a pessoa cuidada vai lhe render dividendos. Um modelo de ser Igreja onde o quadro pastoral e membros leigos são alvos de cuidados unicamente pelo fato de que vão multiplicar o rebanho, a meu ver, é um modelo que foge completamente do caloroso Espírito do Evangelho de Cristo e se encaixa plenamente no frio e calculista esquema empresarial de Mamom. A evangelização, a partir de tal ótica, se torna capitalista e utilitarista, pois é visão que vê e incentiva resultados, e por assim ser, foge do olhar do Reino de Deus que, antes e acima de tudo, enxerga e valoriza pessoas.

5. Maior presença cuidadora, e menos "supervisora", dos Bispos, Bispas e Superintendentes Distritais. Muitos/as pastores/as sofrem calados/as, isso é verdade, mas penso que quando um filho ou uma filha não fala de suas dores, por medo, orgulho, ou quaisquer outros motivos, os pais devem saber detectar que algo não vai bem com eles/as. E só é capaz de detectar a dor do outro, mesmo quando ele por vários motivos não a verbaliza, quem se faz presente.

A guisa de conclusão:

Paulo disse a Timóteo: "cuida de ti mesmo e da doutrina" (1 Tm 4:16), a partir de tão precioso conselho entendo que o cuidado de nossas emoções deve ser prioridade primeiramente nossa, nós pastores, e nossas amigas pastoras, precisamos nos cuidar. Temos que investir em nós mesmos, nos amar, cuidar de nossas famílias, de nossa saúde integral. Paulo fala para Timóteo primeiramente cuidar dele mesmo, pois sem o cuidado de si, sem ter amor próprio, não tem como cuidar de outros. Mas, igualmente creio que o cuidado de si mesmo não impede, antes pede, o cuidado mútuo, receber e dar cuidado ao outro, pois a Igreja é, ou deveria ser, uma comunidade onde devemos compartilhar os sofrimentos e alegrias da caminhada. Na dinâmica de vida comunitária precisamos resgatar muitas coisas que se perderam ao longo dos séculos, pois como Comunidade Terapêutica a Igreja é a resposta curadora de Deus para um mundo doente. Todavia, enquanto obreiros e obreiras nós precisamos nos cuidar, e como disse Tiago; confessar nossos pecados uns aos outros e orar uns pelos outros para que, (enquanto curamos o mundo) também sejamos curados (Tiago 5:16 ). Posso estar equivocado em muito do que escrevi, e aqui conclui, todavia, é isso o que eu aprendi de Paulo, o qual afirmou:

"Quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele; quando um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele. Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo." 1 Coríntios 12:26, 27

 

José do Carmo da Silva, um amigo.


Tags: sem tags no momento!