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Encerramos com esta edição a Série sobre o metodismo no Brasil. São dez edições que contam a história de cada Região Eclesiástica e Missionária. Todas elas estão publicadas no site http://150anos.metodista.org.br. Quem escreveu a história abaixo sobre o metodismo na 2ª Região Eclesiástica foi o Secretário do Colégio Episcopal Bispo Honorário Stanley da Silva Moraes.

Uma igreja que nasce para servir e existe como serva – 2ª Região Eclesiástica

Num tempo em que as comunicações eram muito difíceis entre o Brasil do Sudeste e do Sul, o metodismo chega ao Rio Grande do Sul a partir do Uruguai. A Igreja Metodista do Uruguai recebeu o evangelho da Igreja Metodista do Norte dos Estados Unidos, enquanto o metodismo que chegou ao Sudeste e Norte brasileiro veio da Igreja Metodista do Sul dos Estados Unidos.

Os/as missionários/as do Norte tinham um forte compromisso missionário, pelo que o metodismo se espalhou pela América espanhola e Rio Grande do Sul.
O metodismo chegou ao Rio Grande do Sul em 1885, quando o médico metodista João da Costa Corrêa aceitou o desafio de levar o evangelho para o Rio Grande do Sul. Ele tinha sido consagrado ministro do evangelho pela Igreja Metodista do Norte dos EUA e pertencia à Sociedade Bíblica. Com essa raiz, ele trouxe a mensagem bíblica na experiência wesleyana e espalhou a Bíblia por todo o estado.

Ele fez longas peregrinações pelo Rio Grande do Sul, pregando o evangelho e distribuindo bíblias. Visitou cidades, aldeias, povos, chegando até Porto Alegre. A primeira viagem durou nove meses, quando enfrentou todos os tipos de adversidades, mas deixou a semente do evangelho espalhada por grande parte do estado. Sua vida foi consagrada a um ministério itinerante. Ele ouviu o Espírito dizer: “Separai-me agora a João Corrêa para a obra a que o tenho chamado. Então, jejuando e orando, recebeu a imposição de mãos dos/as missionários/as norte-americanos/as, que o despediram” (Paráfrase de At 13.3).

Pouco tempo depois, o Rev. J. J. Ramson visitou o estado. Este irmão talvez tenha sido o maior itinerante da história do metodismo brasileiro. Viveu muitos anos no lombo do cavalo espalhando o evangelho. Ouviu falar em João Corrêa e veio ao estado para encontrá-lo. No encontro dos dois, aproximaram-se os dois projetos missionários metodistas que atuavam no Brasil. Ramson voltou para o Rio de Janeiro e, seis meses depois, João Corrêa voltou para Montevidéu.
Após várias outras visitas, em 21 de março de 1885, o Dr. Rev. João Corrêa recebe sua nomeação para o Circuito do Rio Grande do Sul, onde fixa residência com sua esposa, Maria Rejos, sua filha Ponciana e a jovem Carmem Chacon.

 

Características da Igreja que nasce e seu contexto

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O estado tinha uma população cansada de ser espoliada e um romanismo aliançado com estas práticas, sedento da graça que liberta e dá sentido à vida. Iniciou-se assim uma Igreja com uma experiência mais liberal, que recebeu mais de 130 missionários/as norte-americanos/as durante sua história. As igrejas fundadas ao redor da anunciação da Palavra sempre tinham ao seu lado uma escola, com um novo projeto pedagógico. Muitas dessas igrejas/escolas nasceram no meio do povo mais humilde da Província, e quem delas fez parte acabou assumindo liderança na vida do Rio Grande do Sul.

As escolas mencionadas por Corrêa no seu relato estavam situadas em bairros operários e empobrecidos da cidade (entre eles Rua do Parque e Colônia Africana). Um exemplo disso é o relato seguinte “… durante o ano (1886) inauguramos uma escola noturna para mulheres pobres e o número foi crescido, contando uma matrícula de 84. Essa escola funcionava todas as noites com grande proveito para as alunas. É-nos grato mencionar aqui, que presentemente (1905) existe em uma das povoações perto da capital uma de essas alunas dirigindo uma escola pública, havendo tido a primeira parte dos seus estudos em a nossa humilde escola…”

Em 1905 o metodismo gaúcho se torna parte da Igreja do Brasil, tornando Conferência Anual Sul Brasileira, que, com a autonomia da Igreja em 1930, passa a ser a 2ª Região Eclesiástica da Igreja Metodista, naquele tempo com território que se estendia até Curitiba.

Os missionários e as missionárias que vieram para o Rio Grande do Sul encontraram uma população pobre e analfabeta, desenvolveram um ministério que enfatizou a alfabetização, para leitura da bíblia e de outras boas obras. Trabalharam para empoderar os/as convertidos/as que, com boa formação pessoal, logo foram assumindo posições de destaque nas cidades e no estado.

A Escola Dominical se tornou a principal agência de evangelização e, em geral, tinha mais alunos e alunas do que o número de membros da Igreja. Os templos antigos foram construídos entre 1910 e 1930 e se localizaram na maioria das cidades em que passava a linha férrea. Muitos deles eram templos de múltiplo uso, qual seja, nos horários em que não havia culto, se tornavam salas de aula para alfabetização, profissionalização, cuidados da saúde. Por exemplo, o templo Central de Porto Alegre tinha paredes móveis que em cinco minutos se transformavam em sete salas de aula. Assim, por exemplo, na Escola Dominical todos estavam no templo para o culto de abertura. No horário das classes o professor puxava a parede móvel e já estavam as sete classes trabalhando, sem que ninguém precisasse mudar de lugar. Nos últimos 30 anos a Igreja construiu um edifício educacional e o templo foi transformado em uma belíssima catedral.

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Em 1898 foi construído o Templo de Fundo dos Valos, um distrito da cidade de Cruz Alta. Ali no meio rural a igreja tinha 180 membros, mais crianças e visitantes. Em 1901 a igreja se estabelece na cidade e chega na primeira década do século com cerca de 100 membros. Na década de 1920 constrói o seu templo na cidade, com característica que guardam semelhança com a Central de Porto Alegre.


Inauguração

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Inauguramos dia 20 de setembro o templo do Ponto Missionário no bairro Vista Alegre em Palmeira das Missões/RS. Relembramos a Revolução Farroupilha na inauguração e, por essa razão, realizamos nossa inauguração em estilo bem campeiro, cultivando nossa tradição gaúcha. Estavam presentes conosco pastores e pastoras que fizeram parte da história deste Ponto Missionário.

Informou Pra. Leidiane Mello


A Igreja no tempo atual

A Igreja na 2ª Região Eclesiástica está organizada em 12 distritos e se espalha por todo o estado. Sob a liderança do Bispo Luiz Vergílio Batista da Rosa, a igreja experimenta avanços em várias áreas da vida e missão.

Como parte do metodismo brasileiro, abraçou a vocação de fazer discípulas e discípulos nos caminhos da missão. O metodismo gaúcho existe com uma diversidade própria do evangelho, entre pequenos/as agricultores/as, em igrejas do meio rural, igrejas nos centros das cidades, igrejas nas periferias, em instituições sociais, em instituições educacionais, em projetos de evangelização, no combate ao racismo, em defesa e empoderamento das crianças, no enfrentamento da violência contra as mulheres, em projetos de capacitação desenvolvidos nas diferentes áreas da missão, no cuidado do meio ambiente, na participação em projetos missionários no país e no exterior, em parceria com o metodismo do Uruguai, da Argentina e do Paraguai, na revitalização de igrejas locais fragilizadas, no crescimento de igrejas.

Um evento importante da igreja hoje é o Projeto Missionário Regional, que nasceu da iniciativa leiga há mais de 20 anos, através da Federação Metodista de Jovens, que buscou apoio nos demais grupos societários. Hoje ele é um projeto regional com aval do Ministério de Ação Episcopal, Ministério Regional de Ação Missionária, e dele participam o Bispo Presidente, os/as Superintendentes Distritais e vários/as outros/as dos Ministérios e Pastorais Regionais. Desde 2014 ele agrega outras ações, como a Revitalização de Igrejas e um vasto projeto de ação social.

Durante o projeto acontece uma contundente ação na área de evangelização (evangelismo pessoal e evangelismo criativo), educação e serviço social, com o que se traz um forte impacto no local que o recebe. Nos serviços são oferecidos: consultas médicas, assessoria jurídica, estética e massagem, aferição de pressão e medição de glicose.

Já receberam o impacto do projeto, nos últimos 12 anos, as seguintes cidades: 2006 – Rio Grande; 2006 – Erechim; 2007 – Porto Lucena; 2008 – Itaqui; 2010 – Cachoeira do Sul; 2011 – Santa Maria; 2012 – São Gabriel; 2013 – Não Me Toque; 2014 – Ibirubá; 2015 – Pelotas/Rio Grande/Chuí; 2016 – Santa Rosa; 2017 – Rosário do Sul. Além dessa ação, o metodismo gaúcho estabeleceu parcerias missionárias com a Igreja Metodista na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, bem como com a 6ª Região Eclesiástica. A Igreja que nasceu para servir e existe como serva continua sua jornada respondendo aos grandes desafios do século XXI. A Deus Pai, Filho e Espírito Santo toda honra e glória.

Bispo Honorário
Stanley da Silva Moraes
Secretário do Colégio Episcopal da Igreja Metodista
Publicado originalmente no Expositor Cristão de outubro/2017

/// Bibliografia

JAIME, Eduardo Mena Barreto – História do Metodismo no Rio Grande do Sul, 1963.
CORRÊA, João – História da Igreja Metodista no Rio Grande do Sul.
O TESTEMUNHO – Órgão da Missão Sul-Brasileira da Igreja Metodista Episcopal do Sul, 1907 e 1908.
100 ANOS DE METODISMO NO RS – 1885 a 1985, Secretaria Regional de Comunicação da II RE, julho de 1987.
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