"Por aproximadamente 300 anos, a igreja de Cristo não conheceu templos. Ela era perseguida e tida como subversiva e prejudicial à ordem. E quanto mais perseguida, mais crescia. A violência e a matança de pessoas cristãs não foram suficientes para detê-la”

Bispa Marisa de Freitas Ferreira

É certo que cremos e professamos que igreja é corpo vivo de Cristo. Ele é o Cabeça (Ef 1.22; I Co 12.12ss). Todo/a o/a que nEle crê e o confessa como Salvador é parte deste corpo. Essa figura de linguagem usada nas Escrituras favorece a nossa compreensão quanto ao desenvolvimento deste corpo no decorrer dos séculos. Tendo por cabeça um Santo e Perfeito, e tendo por corpo pessoas imperfeitas e pecadoras, há de se esperar que nem tudo caminhe como o desejado. Não é tudo que o Cabeça pensa e diz que o corpo compreende com facilidade. Consigo imaginá-lo desta forma: firme no comando e incerto nas ações. Ou seja, Jesus não erra, mas o seu corpo sim. As passadas nem sempre são firmes e seguras. Embora o Cabeça seja absolutamente íntegro, o restante do corpo oscila entre o acerto e o erro. Se não optar por total obediência ao Cabeça, certamente poderá provocar quedas e feridas. Era o que se dava com a igreja no século XVI, culminando com um movimento de transformação: a chamada REFORMA PROTESTANTE.

Por aproximadamente 300 anos, a igreja de Cristo não conheceu templos. Ela era perseguida e tida como subversiva e prejudicial à ordem. E quanto mais perseguida, mais crescia. A violência e a matança de pessoas cristãs não foram suficientes para detê-la. Percebendo esta força e esta determinação da igreja, o Império Romano mudou de tática: decidiu declarar-se cristão, e todas as pes­soas do reino precisavam tornar-se cristãs. Sem perseguição, houve adesão de pessoas que não amavam mesmo a Cristo. Quando o Estado se junta com a Igreja, geralmente o corpo desanda. Se os interesses não são os mesmos, como andar bem com dois Cabeças? A Igreja foi se transformando. Enriqueceu. Clericalizou-se. Uniu-se aos interesses dos governantes e dos países. Até o ponto de se vender a salvação nos templos: garantia seu lugar no céu quem pagasse por ela. O Cabeça já não era ouvido e muito menos obedecido. Embora a igreja permanecesse viva, a religiosidade cristã ocupava a liderança. E, consequentemente, desvirtuava os princípios de fé.

Quem pode esconder a luz sob um alqueire? Ninguém. Se tentar, ela se apaga. E é assim que Deus levanta pessoas para auxiliar na restauração deste corpo. Vem o tempo da REFORMA PROTESTANTE. Nesta realização histórica, a figura mais conhecida é a do Martinho Lutero. Lendo as Escrituras, ele percebeu que o corpo de Cristo estava distante das orientações do Cabeça. Essas percepções de Lutero foram seguidas por outros/as, que levaram adiante esse movimento de mudanças. Como fruto desse movimento estão algumas ênfases: somente a Bíblia como livro de regra de Fé; somente a Graça de Deus é que permite a salvação; somente Deus é Senhor; somente Jesus é o Cabeça da igreja (posição contrária à autoridade papal; vivemos somente para a Glória de Deus. Esses fundamentos revolucionaram a igreja existente. Já não se via o papa como autoridade máxima da Igreja, a bíblia passa a ser traduzida e colocada nas mãos dos/as fiéis, não se paga mais pela salvação, a expansão missionária ganha um espaço considerável, e as celebrações cúlticas passam a ser acessíveis aos/às adoradores/as. Por outro lado, possibilitou as divisões denominacionais; o massacre de camponeses/as adeptos/as da Reforma; as diferenças passaram a ser motivo de intolerância; surgem as guerras religiosas. Mais uma vez o corpo acerta e desacerta.

Ler e conhecer esta história é muito positivo para a Igreja. Ocorre que, sendo a Igreja um organismo vivo, formado por Jesus e por pessoas que o confessam, então está e sempre estará sujeita a desviar-se da vontade de Deus. Neste tempo de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante, o corpo de Cristo deve sempre se autoavaliar. Como anda o corpo de Cristo hoje? Temos ouvido o Cabeça? Temos atendido ao que Ele diz? Imaginando este corpo a partir do que você vê hoje, o que diria acerca dEle? Se fosse possível tirar uma foto dEle, que imagem entende que veria? Creio que vale a máxima: Igreja Reformada, sempre reformando. Que, como corpo, ouçamos a voz do Mestre.

Marisa de Freitas Ferreira 
Pastora no exercício do episcopado na Remne
Publicado originalmente no Expositor Cristão de outubro/2017

 

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