2017_09_confessionalidade

A Igreja Metodista, no exercício de sua vocação missionária por meio da educação, desde sua gênese, tem contribuído de maneira significativa para a transformação da pessoa e da sociedade por meio da confessionalidade metodista: um jeito de ser, de existir e coexistir que tem como fundamento a ética cristã.

Na intenção de trazer à memória o que nos dá esperança e tendo como inspiração os 150 anos de metodismo no Brasil, nada mais propício do que relembrar, reviver para recriar, ressignificar um estilo de vida, a partir da confessionalidade, da educação e do ensino religioso na tradição wesleyana.
Confessionalidade e educação nos tempos de John Wesley

A valorização da educação como possibilidade de transformação da pessoa e da sociedade na Igreja Metodista tem suas origens no movimento religioso na Inglaterra do século XVIII com John Wesley (1703-1791), um homem cuja vida fora marcada por uma intensa intimidade com Deus, pela convicção da justiça social como parâmetro nos relacionamentos e por um profundo amor pelas pessoas. Amor que nutriu a “fé” no ser humano, na convicção de que a potencialidade humana floresceria pela força de Deus e, na convivência com Ele, as pessoas seriam capazes de superar suas fragilidades e promover sua humanidade. E para tal finalidade, a educação, a formação eram essenciais. No entanto, na Inglaterra do século XVIII, a educação popular era quase desconhecida. Havia apenas as escolas “circulantes” de Gales, escolas primárias de Eduardo e Elizabeth destinadas à educação religiosa.

Com a crise econômica, política e social que pairava na Inglaterra, os/as pobres não tinham condições de custear as escolas particulares. Porém, o que mais preocupava os/as metodistas era o estado moral que existia neles/as. Diante dessa constatação, John Wesley estudou minuciosamente o sistema educacional inglês e fundou escolas nas quais procurou unir o saber à piedade com base em uma educação religiosa para a promoção da vida. Acreditava que, sendo alfabetizadas, as pessoas pobres poderiam educar a si mesmas por meio da leitura.

A primeira escola fundada por João Wesley, e também seu maior empreendimento educacional, foi a escola de Kingswood. O idealizador desta escola foi Whitfield, com o objetivo de atender os/as filhos/as dos mineiros que estavam entrando para as sociedades metodistas.

Após receber 60 libras em dinheiro, e crendo nas promessas de mais ajuda, lançou a pedra fundamental da escola e foi para a América do Norte. João Wesley transformou esse ideal em evidente realidade. Em uma de suas cartas, define a razão da existência dessa instituição: “propõe-se nas horas usuais do dia a ensinar as crianças a escrever, ler e contar; mas especialmente, com a ajuda de Deus, a conhecer a Deus e a Jesus Cristo que Ele enviou.”

Na convicção de que os princípios cristãos eram fontes que possibilitariam uma vida movida pela compaixão, generosidade e solidariedade para a construção de um mundo melhor, mais humano e mais gentil, Wesley seguiu promovendo a educação. Imbuído desta perspectiva, outras escolas foram criadas pelos/as metodistas, como a Escola da Fundação em Londres e a Casa dos Órfãos em Bristol.

A Confessionalidade e a Educação Metodista no Brasil

John Wesley exerceu o ministério pastoral tendo a educação para a humanização como princípio norteador da vivência e anúncio da fé em Jesus Cristo. Uma educação delineada pelo amor a Deus, às pessoas, à criação. Concepção de educação que permeou e norteou, de maneira decisiva, o metodismo na Inglaterra, na América do Norte e na América do Sul, onde se encontra o Brasil. E, ao chegar a terras brasileiras, em 1835, trouxe a mensagem cristã mediada pela educação e levou adiante esta metodologia como prática missionária: Metodismo e educação para a transformação pessoal e social.

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No exercício de sua vocação missionária por meio da educação, desde 1881, a Igreja Metodista Brasileira implantou diversas instituições educacionais no que diz respeito à Educação Básica, Educação Superior, Pesquisa e Extensão (Pós-graduação).

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Além dos colégios, havia também as Escolas Paroquiais, que atendiam as pessoas de baixa renda. Eram gratuitas, ou semigratuitas, e mantidas pela igreja local.
Nessa missão educativa, a Igreja Metodista Brasileira aprovou, no 13º Concílio Geral, as Diretrizes para a Edu­ca­ção na Igreja Metodista (DEIM). Na implementação dessas diretrizes, desenvolveu, ao longo dos anos, diversas alternativas para gerir suas instituições educacionais. Para tanto, criou o Sistema Metodista de Educação, configurado na Rede Metodista de Educação, que “[…] é constituída das Instituições Metodistas de Educação – IME, e tem por objetivo oferecer uma educação de boa qualidade, com as marcas de sua confessionalidade”.

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A educação como parte da missão é o processo que visa oferecer à pessoa e à sociedade uma compreensão da vida e da sociedade, comprometido com uma prática libertadora, recriando a vida e a sociedade segundo o modelo de Jesus Cristo e questionando os sistemas de dominação e morte à luz do Reino de Deus (IGREJA METODISTA, 2012, p. 106).

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A educação, sem distinção de etnia, classe social… é considerada como parte da Missão de Deus e da Igreja Metodista, um dos principais meios de contribuir com a promoção da cidadania por meio do conhecimento, que tanto pode transformar a vida da pessoa quanto da sociedade. É uma forma de possibilitar a interpretação da vida e dos acontecimentos a fim de propor iniciativas, intervenções para a promoção da dignidade humana e correção das distorções sociais. Neste sentido, muito embora ações afirmativas da confessionalidade metodista fossem realizadas pelas gestões educacionais em consonância, diálogo com as Pastorais Escolares e Universitárias, ainda se detectava a ausência de um material literário de Ensino Religioso para as escolas metodistas.

A Confessionalidade e o Ensino Religioso

2017_09_confessionalidade2O Ensino Religioso assume o compromisso de ser uma forma de expressão do projeto educativo da Igreja Metodista explícito em seus documentos, e o desejo tão esperado de um material de ensino religioso por muitos educadores e educadoras se torna realidade para a Educação Básica da Igreja Metodista para o próximo ano.

A definição dos referenciais do Ensino Religioso pautado na confessionalidade metodista objetiva nortear os princípios da sua prática pedagógica na verdade proclamada por João Wesley, fundador da Igreja Metodista, no século XVIII, na Inglaterra, quando afirmou: “Vamos unir ciência e piedade vital, há tanto tempo separadas”. Com essa afirmação, trazemos à memória o retrato da nossa realidade carente da união entre teoria e prática. Para o Ensino Religioso, traduz-se no cuidado com o resgate da Vida; como lugar da comunhão e recriação das relações e da conexão entre todos e tudo, pois, segundo o Credo Social da Igreja Metodista: “Cremos que ao Senhor pertence a terra e a sua plenitude, o mundo e todos e todas que nele habitam, por isso proclamamos que o pleno desenvolvimento humano, a verdadeira segurança e ordem sociais só se alcançam na medida em que todos os recursos técnicos, econômicos e os valores institucionais estão a serviço da dignidade humana na efetiva justiça social.”

Portanto, a definição da missão do Ensino Religioso afirma sua crença no ser humano, criado e sustentado na prática do amor, que é gratuito, que move a concretude da solidariedade e igualdade entre todas as pessoas. Deus é amor! Esse amor é que determina, pela fé, uma conduta ética coletiva de sua expressão no mundo. No Verbo que se torna Filho – O Deus revelado que se faz imanente – Jesus Cristo.

Assim, a construção do currículo do Ensino Religioso nas suas concepções, dimensões e eixos está fundada na natureza confessional metodista, na adequação entre as normas e leis que regem a educação nacional (LDB9394\96\PNE\BNCC e PNCs do Ensino Religioso), bem como no referencial didático-pedagógico para a Educação Básica da Educação Metodista. Explicita, ainda, seus pressupostos conceituais na teo­ria e prática do resgate do ser humano como projeto pessoal e coletivo, onde a Ética Cristã tem como princípio a alteridade para a construção da responsabilidade para o bem viver. O sonho confessional da fé cidadã.

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Enfim, o projeto de Ensino Religioso como construção coletiva do saber/conhecimento humano nas escolas metodistas, por meio das Pastorais Escolares e Universitárias (CONAPEU), fez-se unindo vocação e esperança, utopia e realidade, ciência e fé. Pois a esperança ajuda a transcender a nós mesmos/as, a nossa conjuntura, a nossa realidade. Renascer na esperança é celebrar a vida, partilhar o pão em peregrinação, anunciar na terra boa brasileira que Deus renova a criação, que Jesus ensina como ser feliz quando se vive em comunhão. Ou seja, nos marcos da fé metodista crermos que o Ser de Deus é o amor testemunhado e vivido nos projetos do Ensino Religioso com práticas de diálogo, igualdade e respeito.

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Suprir essa lacuna do Ensino Religioso é prioridade para qualificar, ainda mais, a educação, que é o processo que oferece formação mais bem qualificada nas suas diversas fases, possibilitando às pessoas desenvolvimento de uma consciên­cia crítica e seu comprometimento com a transformação da sociedade segundo a missão de Jesus Cristo (IGREJA METODISTA, 2012, p. 112), mas não é toda educação que produz este efeito, e sim aquela que promove uma formação para além do desenvolvimento de competências e habilidades; uma educação que contribua para que a pessoa na intencionalidade e na busca de ser mais, seja mais humana, consciente, reflexiva e crítica, tendo em vista a construção de um mundo melhor, mais humano e solidário na promoção da vida.

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A vida é dádiva de Deus, e regá-la com sabedoria e conhecimento é um dos desafios do Ensino Religioso.

Profa. Horizontina Mello Canfield | Mª em Educação
Revda. Renilda Martins Garcia | Dra. em Educação
Publicado originalmente no Expositor Cristão de setembro/2017