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Os nomes das ruas Moisés, Israel, Josafá, Jessé, Jeremias, entre outras, não deixaram dúvidas, estávamos realmente na Cidade de Deus – bairro periférico da zona oeste do Rio de Janeiro. Nossa missão ali era acompanhar o Projeto Missionário Momento de Deus para a Missão (PMDM) da Federação Metodista de Jovens (Femejo) da 1ª Região Eclesiástica. A ação missionária aconteceu entre os dias 14 e 16 de julho e reuniu cerca de 600 pessoas voluntárias de várias partes do estado. Não dá para mensurar quantos frutos serão colhidos nesse importante trabalho missionário que completou a 20ª edição este ano.

O bairro ficou conhecido mundialmente após o filme “Cidade de Deus” (2002), dirigido pelo cineasta Fernando Meirelles. Segundo informações da Secretaria Municipal de Educação, na semana anterior ao evento, após uma operação do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) na madrugada e manhã do dia 10 de julho, a região deixou 3.314 estudantes sem aulas. Na comunidade, duas creches, nove escolas e três Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs) foram fechados por conta da troca de tiros entre a polícia e traficantes da região, que conta com uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).

O presidente da Femejo, Luis Moura, explica por que Cidade de Deus foi escolhida para a realização do projeto. “Várias situações foram apresentadas, mas o Senhor permaneceu fiel. Deus se mostrou fiel e durante todos esses dias Ele foi mostrando que era para fazermos na Cidade de Deus”, disse.

O assessor financeiro da Femejo, Cristiano Silva dos Santos, disse que o projeto quase foi cancelado. “A Cidade de Deus vem vivendo conflitos desde janeiro. Na semana passada teve um conflito muito grande e pensamos em cancelar o evento. Convocamos os/as jovens para a oração e Deus foi generoso conosco”, contou Cristiano.

2017_08_cidadededeus2Mesmo com esse cenário, a Femejo decidiu “invadir” a Cidade de Deus com cânticos, orações e ações missionárias. Um ato de coragem! Mais de oito toneladas de alimentos arrecadados pelos distritos foram transformadas em 409 cestas básicas distribuídas na região mais pobre do bairro – o Brejo. Ali, os barracos de madeira, amontoados uns nos outros, mostram a carência da comunidade.

Uma marcha pela Paz nas ruas do bairro deixou os/as moradores/as boquiabertos/as. “Que bom ouvir esse tipo de barulho por aqui. Estamos cansados/as de ouvir tiros”, desabafa uma moradora enquanto centenas de jovens marchavam pela paz na Cidade de Deus. Outros/as acenavam das janelas e varandas para a juventude metodista.

No sábado, 15, dia mais intenso da programação, as equipes se dividiram pelas ruas e becos da região levando uma palavra de conforto, oração e convidando as pessoas para a Praça do Lazer – local onde teria atendimentos nas áreas de estética, saúde e trabalho com crianças. Segundo os/as organizadores/as, das 8h às 16h foram quase mil pessoas atendidas.

O Bispo Paulo Rangel dos Santos Gonçalves pregou no encerramento do evento no domingo, 16, pela manhã. O Bispo enfatizou em sua mensagem a diferença entre reputação e moral. Em depoimento ao Expositor Cristão, o Bispo destacou: “Esse é um projeto consolidado na região. Temos que semear, porque os frutos certamente virão”.

Vigiar e orar

Vanessa Miranda, liderança da Cidade de Deus, recomendou que não utilizássemos a câmera para filmar e fotografar. “Existem os meninos da localidade que não podem mostrar o rosto. Assim não trazemos problemas para mim e para mais ninguém”, alertou.

Nosso cinegrafista, Rodrigo de Britos, colocou a câmera na mochila e partimos sem saber o que iríamos encontrar pelo caminho. A pouco mais de 800 metros, nossa primeira parada com o grupo para orar foi numa barraca de drogas a céu aberto. Ao lado, tinha dois jovens com pouco mais de 17 anos. Cada um armado até os dentes com um Fuzil AR-15, que é usado pelo Exército americano e pode disparar 30 tiros entre uma recarga e outra, além de atingir o alvo a uma distância de 450 metros.

Enquanto o grupo orava com as mãos erguidas, os dois jovens estavam com os olhos arregalados e atentos ao redor; terminada a oração, eles agradeceram e deram um aperto de mão no Superintendente Distrital de Jacarepaguá, Pastor Alberto Saraiva Sampaio, que acompanhava esse grupo composto por quase cem pessoas, que seguiu adiante. A próxima parada foi em outra barraca maior e com mais pessoas armadas. O procedimento foi o mesmo. Oração e seguir adiante como se nada tivesse acontecido.

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Ao chegar a uma praça, uma pessoa que se apresentou sendo de uma igreja evangélica chamou o Pastor Alberto Sampaio e relatou. “Um jovem está encrepado para morrer, vamos orar!”, disse o cidadão. Encrepado é o termo utilizado quando uma pessoa é envolta numa fita crepe por várias vezes.

A chegada dos/as metodistas à Cidade de Deus, segundo relato dos/as moradores/as, foi uma providência divina para que esse jovem encrepado tivesse uma segunda chance. Quem recebeu a notícia do livramento foi o Pastor Alberto. “Ele já estava sentenciado à morte pelo tráfico. Os próprios traficantes entenderam, segundo relato das pessoas, que aquilo era uma resposta de Deus dando uma nova oportunidade para aquela pessoa que estava sentenciada à morte”, relatou.

Era comum encontrar nas esquinas adolescentes e jovens com rádio amador para avisar aos/às traficantes caso a polícia resolvesse aparecer por lá, mas como a Femejo fez contato com os/as traficantes para a realização do trabalho no bairro, a solicitação dos/as bandidos/as era avisar a polícia também para evitar confrontos. A polícia não apareceu durante o projeto.

Parceria e entrega

A Femejo foi a primeira parceira a participar do Projeto de Sustentabilidade do jornal Expositor Cristão (Jornal EC) após a divulgação na edição de junho. Os primeiros contatos para fazer a cobertura do PMDM na Cidade de Deus (RJ) aconteceu no início de julho. A ação missionária reuniu cerca de 600 pessoas voluntárias com pelo menos 15 distritos do Estado do Rio de Janeiro.

Foram sete meses de planejamento até chegar o dia de entrar na Cidade de Deus. Não havia conforto, somente a vontade de servir. Os/as jovens se alojaram no Instituto Presbiteriano Álvaro Reis (Inpar). Cada um/a levou seu colchonete e se espalhou pelo chão para passar as duas noites.

A equipe que trabalhou na cozinha preparando lanche, almoço e jantar se dedicou para fazer o melhor. E fez. Após a chegada das ruas da Cidade de Deus, estava tudo preparado e pronto para servir. O sentimento das pessoas que participaram é de gratidão. Assim foi a resposta do artista circense Perna de Pau, Mococó, quando perguntado de onde vem tanto talento: “Do céu, vem do céu”.

Assista aos vídeos produzidos pelo Expositor Cristão.

José Geraldo Magalhães
Publicado originalmente no jornal Expositor Cristão de agosto/2017

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