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Confira abaixo o testemunho de Nayara Gervásio, a missionária que atua pelos refugiados em El Salvador.


Quando eu recebi meu chamado para missões eu não fazia ideia para onde Deus me levaria para fazer seu trabalho. Aos poucos meus olhos foram se abrindo as oportunidades, e ser um Global Mission Fellows (GMF) – Companheiros da Missão Global – é uma delas. Quando eu ouvi falar sobre o programa muitas coisas me encantavam na medida em que me assustavam, mas em tudo, o que mais me chamou a atenção e deu vontade em ser um GMF foi do seu principio de buscar justiça social para aqueles que ainda não haviam alcançado.

Nos meus pensamentos e conversas com amigos e igreja sobre missões, eu sempre falava sobre isso. Não tem como demonstrar amor de Deus pelas pessoas sem servir a essas pessoas. Como posso ser cristão e não ajudar meu próximo? Demonstrar o amor de Deus pelas pessoas através do serviço é muito mais do que realizar ações de caridade, é fazer com que as pessoas se sintam amadas e cuidadas por Deus na medida que seus direitos como seres humanos e sua dignidade são reconstruídos, mesmo em meio a um sistema injusto. E é exatamente nisso que tenho trabalhado na Pastoral de Migrantes, do Sinodo Luterano Salvadorenho.
Pouco mais de quatro meses que cheguei no país e tenho trabalhado com a temática de migrações. O escritório onde eu trabalho tem dois focos principais prevenção a migração – principalmente de crianças e adolescentes – e também ajuda de emergência e de médio prazo às pessoas retornadas ou deportadas. À medida que o tempo passa e eu vou conhecendo a historia do país e algumas comunidades, eu compreendo “os porquês” da migração no país.

Não é novidade os problemas sociais que existem em El Salvador, pobreza, escassez de infra estrutura e saneamento básico, falta de acesso a educação, desemprego além do “poder paralelo” quase institucionalizado pelas gangues no país são o reflexo de um país sobrevivente de uma guerra civil que terminou em 1992 e de desastres naturais como os terremotos de 2001. Todas essas problemáticas levam muitas famílias, a querer imigrar ou enviar seus filhos para viver o “sonho americano”. Atuando de maneira preventiva a Pastoral oferece workshop a líderes comunitários, pastores, policiais, agentes de saúde para que alertem as famílias sobre os riscos, implicações e perigos da migração de maneira irregular.

ProjetoLoja ET (2)Em 2017 desenvolvemos a campanha de educação “Migrar não é solução” e usamos um livro produzido pela própria pastoral, que conta desde a problemática vivida no país, o caminho e o regresso como deportado e também, com uma apresentação sobre leis migratórias nos EUA, sobre tipos de vistos, informações de pedidos de asilo e refugio e estatísticas reais dos casos que estão esperando e/ou são negados. O objetivo, é que os participantes repliquem as informações, a partir dos materiais disponibilizados para conscientizar as famílias, principalmente crianças e adolescentes para que não se iludam com a ideia migrar. Outra forma de atuação da pastoral é com ajuda de emergência às famílias que sofrem com o deslocamento forçado – quando uma família é ameaçada em sua comunidade pelas gangues, sendo com extorsões ou em recrutamento de crianças para seu grupo e precisa mudar de sua comunidade – então ajudamos essa família a buscar um outro lugar para viver dentro do próprio país, mesmo que em muitos casos a única opção é se mudar para algum país vizinho. Por fim, e não menos importante é o trabalho com pessoas retornadas e deportadas.

A pastoral ajuda essas pessoas com um pequeno projeto de empreendedorismo, uma vez que é difícil encontrar uma oportunidade de emprego quando se é um retornado. Apesar do baixo índice de educação, muitas pessoas têm uma habilidade para trabalho muitas vezes na agricultura ou comércio. Então, ajudamos essa pessoa a fazer um pequeno projeto de negocio sustentável que ela pode fazer junto com sua família e acompanhamos seu desenvolvimento. Esses projetos podem ser na agricultura, pesca, pequenas oficinas de concertos, pequenas lojas de alimentos ou roupas, ou salões de beleza por exemplo. Muitas pessoas retornam ao país sem esperanças e sem ideia de como sustentar sua família, já que seu sonho morreu no caminho, mas através desse projeto eles tem a oportunidade de reconstruir sua dignidade como cidadãos e de conseguir sustento para sua família. Nesses casos eu vejo mais que a caridade, eu vejo justiça.

Eu posso ver dignidades sendo reconstruídas e famílias podendo viver de uma maneira próspera. A frase, “Pregue o evangelho a toda criatura se necessário use palavras” sempre me tocou. Em El Salvador eu não uso muitas palavras, até mesmo pelo idioma que ainda não domino, mas tenho certeza que todas essas famílias e comunidades são tocadas pelo evangelho do amor de Jesus através do serviço. Isso faz de mim um “Global Mission Fellow” na grande comissão que Jesus enviou, isso me faz sentir parte de uma “Generation Transformation”.

Acesse o perfil de Nayara no programa “Global Misssion Fellow” para saber um pouco mais sobre a missionária, ou para apoiar esse trabalho: www.umcmission.org/…/Mi…/Missionary-Profiles/gervasio-navara

Texto e fotos: Nayara Gervásio | San Salvador
Publicado originalmente na Revista New World Outlook