2017_05_jorgedomingues_imigrandes

A Bíblia nos relata o encontro de Jesus com uma refugiada síria (Mc 7.24-30). Jesus havia ido para as terras de Tiro e Sidom, no país que hoje conhecemos como Líbano. Ali, nas margens do Mar Mediterrâneo, ele é procurado por uma mulher grega de origem síria rogando-lhe que expelisse de sua filha um espírito que a atormentava. Jesus, que a princípio se recusa a atendê-la, pois “não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”, se impressiona com a resposta da mulher – “mas os cachorrinhos comem das migalhas das crianças” – e atende a seu pedido “por causa desta palavra”. Essa é apenas uma das histórias da Bíblia que nos ajudam, como igreja, a responder ao desafio atual e urgente de atender aos/às refugiados/as e imigrantes de nossos dias.

A migração não é um fenômeno recente. Ela é parte da história humana. O movimento de pessoas de um lugar para outro é um fenômeno complexo e contextual. Muitos fatores forçam ou atraem grandes contingentes de pessoas a buscar outra região para viver. As causas mais constantes desses movimentos, hoje em dia, são as razões econômicas, ecológicas, políticas ou situa­ções de guerra ou violência.

A migração pode ser voluntária ou forçada. Quando o/a migrante deixa sua terra de origem por decisão própria, é considerado/a emigrante de sua região de origem e imigrante na região que o/a acolhe, seja internamente ou em outro país. Entretanto, muitas vezes a pessoa que deixa seu país por decisão própria se sente forçada por circunstâncias além do seu controle, como, por exemplo as razões climáticas que afetam a sobrevivência de famílias que vivem da agricultura ou as condições econômicas que levam um pai ou uma mãe a buscar um trabalho melhor para poder alimentar sua família.

Por outro lado, quando uma pessoa é forçada a deixar seu país por causa de um conflito armado ou perseguição, ela é considerada refugiada. Essas pessoas, em geral, não podem retornar ao seu país de origem, pois a situação que deixaram é perigosa e intolerável. Esta é uma diferença importante, pois o/a refugiado/a é reconhecido/a internacionalmente pela Organização das Nações Unidas, e os países que assinaram a Convenção dos Refugiados devem oferecer proteção e assistência apropriadas. Quando se instalam em outro país, os/as refugiados/as buscam asilo, mas na verdade nem sempre o recebem.

Hoje em dia, a ONU estima que mais de 250 milhões de pessoas são migrantes e vivem fora do seu país de nascimento. Desses/as migrantes, mais de 65 milhões são pessoas que foram forçadas a migrar por diversas razões e mais de 21 milhões são refugiados/as que deixaram seus países por razões de guerra ou perseguição. Mais da metade desses/as refugiados/as são crianças e adolescentes.

O maior número de refugiados/as atualmente é da Síria (5 milhões), do Afeganistão (3 milhões) e da Somália (1 milhão), além dos 5 milhões de refugiados/as palestinos/as que fugiram ou foram expulsos/as pelas guerras entre Israel e os países árabes. E, apesar de as notícias sobre a crise de refugiados/as e imigração somente mostrarem a situação nos Estados Unidos e na Europa, os países que hospedam o maior número de refugiados/as são a Turquia (2,5 milhões), o Paquistão (1,6 milhão), o Líbano (1,1 milhão), o Irã (980.000), a Etiópia (740.000) e a Jordânia (670.000).

Em muitos países sempre existiu um sentimento anti-imigrante, todavia seu crescimento hoje está baseado na xenofobia – o medo do outro que é diferente de mim ou da minha comunidade. Esse sentimento, manipulado por grupos xenófobos diante da crise econômica e da violência extremista, alimenta uma percepção errônea de que a imigração causa desemprego, redução de salários e benefícios, perda de identidade cultural e ameaça à segurança nacional. Essa intolerância com a pessoa estrangeira existe tanto em países ricos como em países pobres no mundo. Infelizmente, ela afeta não apenas a sociedade secular, mas igrejas e comunidades religiosas também reproduzem o mesmo temor e rejeição aos/às imigrantes e refugiados/as.

É neste contexto que a igreja é chamada a seguir o exemplo de Jesus e assistir a refugiados/as e imigrantes, independentemente de sua religião. A história do povo de Israel é uma história de migração. Abraão deixou sua terra rumo a outro país mandado por Deus. O povo de Israel foi chamado a acolher o estrangeiro, pois também havia sido estrangeiro no Egito. Noemi e sua família migraram para fugir da fome. Ela e Rute, sua nora não judia, retornam a Israel em busca de sustento e são acolhidas. Entretanto, temos que nos lembrar também de que as histórias de Esdras e Neemias relatam a expulsão das esposas estrangeiras como tentativa de preservar uma pureza do povo judeu, mas que lhes fechou os olhos para serem luz para as nações.

Hoje em dia as igrejas buscam ser fiéis à mensagem de Jesus de amor ao próximo diante do grande número de imigrantes e refugiados/as que chegam aos seus países e que têm sido rejeitados/as e discriminados/as. Muitas igrejas locais têm resistido à atitude xenófoba de parte da população e de alguns governos e têm se voluntariado para receber famílias refugiadas ou para servir de santuário para pessoas correndo o risco de serem separadas de suas famílias. A Igreja Metodista Unida criou uma Equipe de Resposta Urgente para ativar a rede de igrejas e voluntários/as, a qual acompanha famílias e pessoas ameaçadas de detenção e deportação, e tem apoiado o trabalho das igrejas luteranas e anglicanas na América Central de acolhida e assistência às famílias que fogem da violência das gangues e aos/às imigrantes retornados/as por deportação.

A Igreja Metodista Britânica tem participado de um programa de apadrinhamento de famílias refugiadas. A Igreja Metodista e Valdense da Itália criou o projeto Esperança no Mediterrâneo que, entre outras coisas, estabeleceu um corredor humanitário em cooperação com o governo e a ONU para identificar e apoiar refugiados/as sírios/as no Líbano ou africanos/as no Marrocos que qualifiquem para um visto humanitário. Além de apoiá-los/as para imigrarem para a Itália, a igreja lhes dá assistência para se adaptarem ao novo país, inclusive ajudando a encontrar uma igreja ou uma mesquita onde possam congregar e continuar a praticar sua fé.

Esses são apenas alguns exemplos de como as igrejas e organizações religiosas têm respondido ao desafio da situação dos/as imigrantes e refugiados/as do nosso tempo. As igrejas cristãs não estão apenas em um lugar privilegiado para servir àqueles/as que por uma razão ou outra deixam sua terra para buscar a vida em outro país. Elas são chamadas a serem os braços e as mãos de Deus, acolhendo os/as peregrinos/as e estrangeiros/as. Como Jesus acolheu a mulher síria, temos que escutar a voz dessas pessoas que estão em busca de uma vida melhor e segura para suas famílias.

Rev. Jorge Luiz F. Domingues | Londres, abril de 2017
Publicado originalmente no Jornal Expositor Cristão impresso de maio/2017