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O dia 8 de março é sempre lembrado como o Dia Internacional da Mulher. Recordamos muitas vezes o episódio dos/as 145 trabalhadores/as, sendo a maioria mulheres, que foram queimados/as numa fábrica, em Nova Iorque, no ano de 1911, apenas porque reivindicavam melhores salários e condições trabalhistas iguais. Na verdade, à data 8 de março soma-se o resultado de uma série de fatos, lutas e reivindicações das mulheres (principalmente nos EUA e na Europa) por melhores condições de trabalho e direitos sociais e políticos, que tiveram início na segunda metade do século XIX e se estenderam até as primeiras décadas do século XX.

Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu o dia 8 de março como sendo o Dia Internacional da Mulher. No entanto, de quais mulheres estamos falando? Das que seguem um determinado padrão de beleza e comportamentos predeterminados pela sociedade?

Daquelas que são bem afortunadas; das ditas “normais”? O que teriam para comemorar as que não fazem parte das esferas aqui mencionadas? Em especial as mulheres com deficiência de nossas igrejas e sociedade? Que embora tenham alcançado significativos avanços, ainda permanecem vítimas de exclusão e discriminação.

Sim, para as que estão às margens da sociedade, talvez não haja muito para festejar. Existem no mundo cerca de 300 milhões de mulheres com deficiência, e 80% delas vivem em países pobres. Elas são marginalizadas e invisíveis para as pessoas que criam as políticas públicas. Seus direitos humanos são massivamente violados, independentemente de sua idade, origem étnica, orientação sexual, religião e outras condições. Somam-se a isso: um terço de todas as mulheres com deficiência que são analfabetas ou têm menos de três anos de educação formal, quando conseguem trabalho, seu salário é menor do que todas as demais classes de trabalhadores/as.

Desafio missionário

No livro teologia e deficiências, da editora Sinodal, Iára Muller, ao discorrer sobre a temática da teologia e gênero, chama nossa atenção para uma gravíssima violência que afeta mulheres e crianças deficientes:

“Existem muitas mulheres e meninas com deficiência (especialmente com deficiência mental) sendo abusadas em hospitais por alguém da equipe de atendimento (especialmente enfermeiros). O mesmo acontece em lares e instituições e em suas próprias casas. Uma das razões que torna as mulheres e meninas com deficiência mais vulneráveis ao abuso é o fato de que há uma grande falta de informação e inadequada educação sexual. Casos de abuso contra mulheres e meninas com deficiên­cia são raramente relatados à polícia, porque não se acredita no que elas contam”.

O livro propõe o respeito à diversidade e o reconhecimento do pluralismo da criação de Deus. Somente reconhecendo que todos somos diferentes é que poderemos entender que a presença de outros e outras nos complementa.

É fato bastante recorrente o não acreditar no que as pessoas com deficiência falam porque as ditas “normais” acham que podem decidir, sentir e escolher por elas. Nesse sentido, quando se apresenta o caos e as muitas injustiças, também se conclama a igreja de Cristo a combatê-las, pois nossa fé precisa ser missionária e cidadã mediante uma prática que promova a vida em sua totalidade.

Nesta direção temos muito por fazer, denunciando todo tipo de exclusão, segregação e escancarando as portas de nossas comunidades nas mais diferentes esferas para que as mulheres com deficiência possam escrever uma nova página em suas vidas. Devemos viver a alteridade onde o outro me faz existir, como bem disse Frei Beto: “Quem, na cultura ocidental, melhor enfatizou a radical dignidade de cada ser humano, inclusive a sacralidade, foi Jesus. O/a sujeito/a pode ser paralítico/a, cego/a, imbecil, inútil, pecador/a, mas ele/a é templo vivo de Deus, é imagem e semelhança de Deus”. Feliz dia de todas as mulheres.

Enoque Rodrigo de Oliveira Leite e Gabriela Leite (esposa)
Pastor na 3ª Região Eclesiástica