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Pastora Kaká, que atua há mais de 21 anos com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social no RJ

O Sombra e Água Fresca (SAF) é um Projeto da Igreja Metodista no Brasil, que vem trabalhando com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade por todo país. No último encontro de capacitação do projeto, em novembro de 2016, conversamos com a Pastora Maria do Carmo Moreira Lima, mais conhecida como Pastora Kaká Omowalê nas comunidades onde atua. Além de exercer seu pastoreio no Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE), na 1ª Região Eclesiástica, a Pastora Kaká tem uma história única com crianças e adolescentes do SAF na cidade do Rio de Janeiro.

Desde o início da década de 90, Kaká acompanha pessoas em situação de vulnerabilidade social. Um de seus primeiros trabalhos foi junto a Fundação Centro de Direitos Humanos (FCDH) em Bento Rubião, onde acompanhou famílias nas imediações da Central do Brasil, no centro da cidade do Rio de Janeiro. A pastora vivenciou de perto a situação de crianças e adolescentes no tempo das Chacinas da Candelária, e teve a oportunidade de conhecer adolescentes que foram assassinados, comparecendo inclusive nos sepultamentos de alguns. A experiência contínua levou a metodista a ser convidada pela Defensoria Pública do RJ, para realizar serviço pastoral junto aos adolescentes privados de liberdade, logo no início da criação do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE). “Com a aprovação do Bispo Paulo Lockmann, atendemos ao convite que nos foi feito, e assumimos estar semanalmente com os  adolescentes em cumprimento de medida Socioeducativa de Internação, na Unidade João Luis Alves”, explica Kaká.

Confira abaixo a entrevista na íntegra, e entenda como a Pastora Omowalê encontrou no SAF uma resposta para sua comunidade.

1. Pastora, seu ministério começou há cerca de 21 anos e ainda está firme na comunidade. Conseguiria resumir como foi o início desse trabalho e o que a motivou a assumir essa missão?
Pastora Kaká: No decorrer dos anos experimentei, dentro ou fora das Unidades do DEGASE, muitas situações limites. Porém, também, vi surgir no caos dos espaços físicos do órgão por onde passei, muitas possibilidades, beleza e generosidade. Compreendi, no convívio semanal, com esta “comunidade”, os malefícios da ausência do Poder Público na vida destes/as adolescentes. E isto desde o momento em que estão sendo gestados em uma família privada de acessar os bens da cidadania, gerando filhos que tampouco o farão. Partilhei com  incríveis profissionais, das diferentes áreas, que buscavam fazer um atendimento de real comprometimento com a perspectiva da Sócio educação. Construí também,  uma relação próxima com a Associação de Familiares: AMAR RJ. Com a presidente da instituição, D. Valéria, fomos acionadas para atuarmos em complexas e diferentes situações, na defesa dos Direitos Humanos de adolescentes ou funcionários. Por vezes fomos interlocutoras entre a Instituição Socioeducativa e os sucessivos Governos do Estado do Rio, ao longo destes anos. Estive presente em situações de “rebelião dos adolescentes”, e na caminhada de fé, aprendi que todos/as nas Unidades Socioeducativas, são pessoas humanas vivendo sob pressão de seus limites pessoais, ou mesmo dos limites do descaso do Poder Público. Sem dúvida alguma, servir ao Senhor Jesus como Pastora, em Unidades de Sócio educação, ampliou meu ponto de vista em relação a condição humana. Sou grata a Deus por cada experiência, desde o tempo que passei com pessoas em situação de Rua, até os limites e possibilidades no DEGASE.

2. Como passou a ser agente do Projeto Sombra e Água Fresca, e qual foi a relevância desse apoio no dia a dia da missão?
Pastora Kaká: Ao longo da ação Pastoral com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, fui convidada a construir oficinas nos encontros da Secretaria Regional de Trabalho com Crianças e sempre foi muito especial. Sou agradecida às irmãs Roséte de Andrade e Rogéria Valente, por me oportunizar a construção das oficinas dentro dos Encontros de Capacitação Regional. Nestas oficinas, conheci pessoas comprometidas com as crianças e adolescente em situação de vulnerabilidade social, e nossa partilha foi especial! Adiante também fui Oficineira no Encontro de Capacitação do SAF, que estava sob a responsabilidade da Revda. Rosinete Siqueira. Foi uma experiência sem igual, e quando a Revda. Rosi deixou as atividades do SAF, me coloquei à disposição para dar continuidade ao processo iniciado. Um tempo destes, reunida em circulo com os adolescentes na Internação, ouvi um depoimento que, para sempre, vai ecoar em meu coração. O menino frequentava as atividades para as crianças da comunidade, em uma de nossas Comunidades de Fé na Baixada Fluminense. Depois de um tempo, sua mãe faleceu, a sua vida mudou. Se referindo ao SAF, ele me disse com um sorriso no rosto: “foi o melhor tempo da minha vida!”. Eu não sei aonde este menino está, hoje. Mas eu sei que há disponibilidade interna para com os Projetos, assim como para as crianças e adolescentes em vulnerabilidade que estão nas comunidades empobrecidas. Sou muito grata ao SAF e a Maria Antonia.

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Voluntárias SAF do RJ vieram junto com a Pastora para participar de capacitação em SP

3. Você levantou um questionamento polêmico no último encontro de Capacitação do Projeto Sombra e Água Fresca, em São Paulo, sobre os procedimentos que a igreja e o SAF deveriam adotar para atender crianças vítimas de abuso sexual. Qual é a realidade da sua comunidade em relação ao problema?
Pastora Kaká: Este não é um tema fácil! Há várias questões delicadas a se levar em conta: a vítima, e o cuidado de profissionais minimamente preparadas/os; o autor do abuso, que precisa ser responsabilizado; e a necessidade de notificar o ocorrido junto ao Conselho Tutelar e Delegacia de Proteção da Criança e Adolescente. Entretanto, fazer este caminho, é pisar em “terreno minado” nas Comunidades controladas pelo narcotráfico. O autor do abuso pode ser assassinado, por exemplo. Mas é muito importante notificar. Esta criança/adolescente precisa receber os cuidados de compaixão e misericórdia para reconstruir-se, para a cura de suas emoções/corpo ferido.

4. Comente sua opinião sobre o Encontro de Capacitação e quais pontos destacaria sobre as oportunidades e orientações que foram oferecidas.
Pastora Kaká: A metodologia foi muito boa. É de vital importância, para mim, o repassar os princípios do SAF. Senti um renovo fantástico e agradeço muito a Equipe Nacional pela oportunidade de participar desse encontro.

5. Para 2017, quais são seus objetivos como agente do SAF em sua cidade?
Pastora Kaká: Desejo muitíssimo, a partir dos princípios norteadores do SAF, oferecer aos Projetos o suporte necessário para que possam caminhar com passos firmes. Entendo que para os Projetos na 1ª Região Eclesiástica, Rio de Janeiro, Grande Rio ou no interior do Estado, temos uma realidade bastante específica: a violência do narcotráfico, paramilitares, “justiceiros”, enfim… É infinitamente importante quando as capacitações levam em conta os limites destas comunidades, oferecendo suporte.

6. Gostaria de compartilhar alguma situação que vivenciou como agente do SAF e que acredita ser relevante para aqueles/as que desejam levar o projeto para sua Igreja Local?
Pastora Kaká: Eu me sentia muito desmotivada a seguir adiante. Uma coisa é atuar dentro das Instituições do Estado e poder intervir efetivamente, outra coisa é motivar, fortalecer o desejo de construir espaços alternativos para crianças e adolescentes empobrecidos, em vulnerabilidade, em terrenos não tão propícios. Mas recebi muito encorajamento de irmãs e irmãos que ao longo dos anos na 1ª RE, atuaram com Projetos e AMAS. Eu quero poder contribuir efetivamente, no que creio ser Rede de Proteção para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade: nossas iniciativas solidárias!

Leia sobre a última capacitação do Projeto Sombra e Água Fresca, na matéria publicada no Jornal Expositor Cristão de janeiro de 2017.

Sara de Paula