Imagem de um homem navegando de barco na Floresta da Amazônia

Andre Dib | shutterstock.com

 

Em 5 de junho comemora-se o Dia Mundial do Meio Ambiente. Se você tem mais de 40 anos, é bem provável que alguma vez na vida já tenha ouvido a seguinte expressão: “Brasil, ame-o ou deixe-o!”. Esse foi um lema usado durante anos pelo governo brasileiro no final de 1960 até meados da década de 1970. A ideia era motivar grupos de fazendeiros/as, empresas e famílias para po­voar a Amazônia.

 
E, acredite, se hoje a Amazônia ainda é um lugar de inúmeros desafios, imagine 40 anos atrás! Entretanto, as histórias, os mitos, as doenças e o clima não foram fortes o suficiente para espantar os/as inúmeros/as migrantes que chegavam semanalmente em busca do Eldorado no norte do Brasil.

 
A Amazônia, considerada como Amazônia legal, é constituída de nove estados brasileiros, entre eles, Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão; e cada um desses estados, a partir da propaganda e investimento do governo brasileiro (época da ditadura militar), começou a ser ocupado desordenadamente e sem leis, a começar por grandes fazendeiros/as que enviavam suas caravanas de vaqueiros/as com maquinários para derrubar a floresta e fazer pasto. Os/As madeireiros/as estavam logo atrás, abrindo caminhos em meio às tribos indígenas, cortavam, serravam para se beneficiarem das madeiras de lei – árvores centenárias (mogno, castanheira, cedro, louro, andiroba, copaíba, ipê rosa, maçaranduba, sumaúma). E ainda tivemos (e temos) centenas de garimpeiros/as que, no sonho da riqueza fácil, poluíram os rios com mercúrio, deixando um legado de veneno correndo pelos rios e igarapés de todos os estados do norte.

 
A partir dessas ocupações, inúmeras comunidades foram sendo criadas, tomando conta do solo nortista e amazonense, mudando a paisagem e expulsando os/as seus/as mais antigos/as moradores/as que viviam nessas terras há muitos anos. Evidente que com os/as desbravadores/as e migrantes, a igreja protestante veio junto.

 
Como nortista que sou, filho de uma família mestiça de negros/as com índios/as, sou grato a Deus pelo progresso que tivemos nesses últimos 40 anos na nossa região, sou grato a Deus porque o evangelho chegou ao nosso meio. Entretanto, percebo claramente que, no passado, não houve uma preocupação da igreja com o meio ambiente, com a degradação de rios e florestas e a extinção de inúmeras espécies da fauna e flora, ou seja, simplesmente a igreja veio e viveu, expandiu suas tendas sem nunca sinalizar uma defesa profética ou mesmo ética das terras no norte do Brasil.

 
Não podemos pensar em missão na Amazônia e nos inúmeros desafios que temos como Igreja no Norte sem exercer o nosso papel de mordomos mediante a criação de Deus e a responsabilidade que temos de preservá-la. Nossos documentos enfatizam: “Considerando as atuais condições de vida no planeta Terra – como a devastação das áreas verdes, a escassez de água, o acúmulo de lixo –, a atuação missionária também deve apoiar, incentivar e participar das iniciativas e defesa da preservação do meio ambiente”, de acordo com o Plano de Vida e Missão da Igreja Metodista (PVMI).

 
Talvez muitos/as não saibam ou não compreendam bem o que é estar ligado/a diretamente à natureza, mas 60% dos/as habitantes e moradores/as da Amazônia vivem segundo o ciclo da natureza: o plantio, a pesca, a educação, casamentos, festas, saúde, tudo está relacionado à seca ou à cheia dos rios, à quantidade de chuva e à posição do sol. A geografia dos ventos também é considerada, assim como por qual rio os peixes estão subindo ou descendo, se o peixe está com a escama fina ou grossa, se a chuva está caindo de cima ou de lado e por aí vai.

 
Como desafio, precisamos levar a Igreja a estender as suas tendas nas comunidades ribeirinhas e indígenas, pois o evangelho leva uma esperança primordial para a vida dos povos dos rios e das matas, porém, devemos implantar mais projetos de sustentabilidade para essas comunidades, como hortas comunitárias, cooperativas para beneficiamento dos mais diversos frutos da região (cupuaçu, açaí, jenipapo, bacuri, rambutan, castanha), confecção de artesanato indígena e ribeirinho, valorização das línguas e histórias dos povos.

 
Essas ações e projetos ajudariam a preservar não somente a vida do povo, mas todo o ecossistema, assim como geraria uma Igreja Metodista ribeirinha ou indígena, com consciência e ética, comprometida com a preservação da vida, da história, com voz profética em uma terra tão rica e tão vasta, que nos foi dada por Deus. Nós, o povo Metodista, podemos ainda desenvolver uma igreja cidadã no Norte do Brasil, responsável e comprometida, atuando e discipulando as novas gerações de metodistas dos rios e das matas, sem destruir, sem pilhar, sem poluir, sem extinguir.

 

Escrito por Pr. Augusto Cardias Filho | Pastor na Igreja Metodista no Mutirão, em Manaus/AM

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