2016_05_familia_pastoral

Mas o/a filho/a do/a pastor/a faz!”. A afirmação sobrevive como um forte argumento para vários membros de igrejas evangélicas. O/A esposo/a não escapa, pois se o cônjuge do/a pastor/a der um passo em falso, rapidamente é submetido/a ao julgamento informal em algumas congregações.

Essa realidade tem gerado grandes problemas na vida de muitas famílias pastorais. O pastor George Paradela, nomeado para a Igreja Metodista em Nova Venécia no Espírito Santo, também é filho de pastor e destaca a pressão vivida por esse grupo. Segundo ele, as cobranças direcionadas à família são injustas, afinal, esposos/as e filhos/as não têm o compromisso profissional que o/a pastor/a da igreja tem. “Muitos/as filhos/as de pastores/as que eu conheço acabam se distanciando da igreja por esse tipo de cobrança”, afirma o pastor.

Os desafios para manter uma vida saudável em família são diversos – um deles é a itinerância pastoral. O Pastor George defende sob a ótica de filho e explica que um pré-adolescente ou jovem tem necessidade de criar vínculos afetivos. “Você perde a oportunidade de criar raízes nos lugares por onde passa por causa do curto tempo de pastoreio dos pais naquela cidade”, disse.

É essencial que uma igreja saudável esteja submetida à oração em todas as áreas, e a família dos/as pastores/as necessita dessa intercessão para se manter firme em seu propósito, apesar de desafios, pressões e renúncias. A pastora Ludmila Couto explica que é preciso renunciar aos pequenos encontros em família, nem sempre dá para comparecer em todas as reuniões familiares, mas ainda assim destaca que a sua maior preocupação é com o crescimento dos filhos nesse ambiente. “Transportar tudo isso na vida dos meus filhos é o que eu prezo mais, pois quero que o relacionamento deles com o Senhor seja pleno e eterno”, conta a pastora.

A pastora Renata Lucas explica que a comunidade precisa entender a vida da família pastoral. “Precisamos fazer a igreja entender que o pastor tem família”, disse ela, que é esposa do pastor Nelson Lucas, o qual está nomea­do para Curicica/RJ. Mesmo encarando a situação com otimismo, ela conta como é complicado para sua família se enxergar sem o termo “pastoral”. A transparência com a igreja pode ser uma resposta para melhorar o relacionamento na congregação. “Nesses 14 anos como família pastoral, nossa relação com a igreja tem sido bem transparente e a igreja tem visto isso”, afirma a pastora.

Encarando com humor

Encarar as dificuldades com bom humor também é uma das alternativas para superar os desafios da família pastoral. Alynne Susan, estudante de publicidade e filha do atual pastor da Igreja de Deus (Church of God), no Ceará, fala da responsabilidade da igreja em acolher a família pastoral. Alynne lembra que a realidade que tem sido enfrentada hoje por esposos/as e filhos/as de pastores/as evangélicos/as é de “muita cobrança, pressão, incompreensão, e muito pouco cuidado, amor e ajuda”. Por isso, a estudante recentemente deu início ao projeto “Vida de Filho de Pastor” nas redes sociais.

A ideia já conta com mais de três mil cadastrados/as no Facebook e dois/duas mil seguidores/as no Instagram. O propósito é reunir peças publicitárias que contam detalhes irônicos (e hilários) que uma criança e jovem vive quando o/a pai/mãe é o/a responsável pela comunidade.

“Provavelmente você foi esquecido/a algumas muitas vezes na igreja”, diz um dos posts. O que muitos veriam como um grande problema, a postagem mostra como algo comum e divertido, afinal, a igreja acaba sendo um pouco casa para essas famílias também.

Mas, apesar do bom humor, Alynne não nega as dificuldades. A convivência com outros/as filhos/as de pastores/as fez com que ela entendesse que não era a única a sentir a cobrança da igreja. “Em grande maioria, eles/as me falavam que o maior sentimento que havia nos seus corações era a pressão”, afirma.

Ver o lado positivo da situação encoraja filhos/as de pastores/as a atenderem ao chamado pastoral que também surge na vida de alguns/as. Assim como o Pastor George, Isabelle Freitas da Região Missionária do Nordeste (Remne) também é filha de pastor Metodista e, mesmo conhecendo todos os desafios, optou por seguir o ministério pastoral. Isabelle acredita que “ser filho/a de pastor/a é viver a missão em conjunto, é ser família pastoral, e não apenas estar nessa posição”, concluiu.

Escrito por: Sara de Paula