2016_05_pentecostes_desenhoQuando criança, eu ouvia de minha avó, mulher simples e de muita sabedoria e sensibilidade espiritual, as perguntas dela sobre uma expressão escatológica comum na época: “de mil passará, dois mil não chegará”. Tratava-se das expectativas, com décadas de antecedência, daquilo que estava por vir com o novo milênio. Direta ou indiretamente, tais expectativas de um fim próximo ou iminente geravam formas de espiritualidade marcadas por despojamento e simplicidade de vida, pela entrega a Deus dos destinos da vida e do mundo, pela ânsia de compreender a Bíblia e de ler os sinais dos tempos.

O século XXI chegou e derrubou a referida “profecia”. Ao mesmo tempo, as expressões de espiritualidade se diversificaram, os desafios teológicos e pastorais se tornaram ainda mais complexos e o novo século passou a exigir novas compreensões da fé e um discernimento mais profundo no campo da espiritualidade. Para refletir sobre espiritua­lidade, especialmente motivados/as pela experiência de Pentecostes, se impõe a leitura adequada da Bíblia e uma sensibilidade profunda para discernir os sinais de nosso tempo. A espiritualidade, por ser dom de Deus, é como um “clima” que nos possibilita viver a vida, interpretando os seus desafios, dilemas e possibilidades. Assim entendemos a vida orientada pelo Pentecostes.

A espiritualidade humana é dom de Deus

Dentro de uma série de aspectos que marcam a vivência humana está a incessante busca de superação de limites, do ir além das contingências e das ambiguidades históricas, da procura por absolutos que possam redimensionar a relatividade e a precariedade da vida. As experiências religiosas pretenderam e pretendem possibilitar respostas para essa busca. Mas o olhar crítico da teologia produziu uma saudável distinção entre a fé e a religião. A primeira, a fé, requer uma espiritualidade que, embora seja autenticamente humana, vem de uma realidade que transcende as engrenagens históricas. Ela é recebida, acolhida.

Tem sido cada vez mais comum a indicação de que a fé é parte constitutiva do ser humano e que pode tornar-se religião, com todas as formalidades que a expe­riência religiosa acrescenta em nossas vidas. A expe­riência religiosa não é desvalorizada com a referida distinção da fé. Ao contrário, a religião é um meio pelo qual a fé antropológica se efetua. Ela está ao lado de outras expressões humanas, que podem contribuir muitíssimo para o cumprimento da vontade de Deus para a vida humana e toda a criação, assim como podem, em certos casos, inibir a realização do amor de Deus na vida humana e no mundo. A fé é maior que a religião. Essa talvez seja uma das grandes lições de Pentecostes.

Como não podemos nos abstrair da vida para fazer o julgamento que em geral desejamos fazer sobre ela – preciso, verdadeiro, calculado, irrefutável –, a espiritua­lidade, como clima da fé, ganha os contornos que, se estivermos atentos/as para perceber, constituem a sua própria natureza: o de aventura (ad ventura). A espiritualidade de Pentecostes é uma forma de viver. Mas não devemos nos esquecer de que viver é interpretar e que as interpretações podem ser direcionadas para práticas libertadoras ou para as que geram formas autoritárias, repressivas, alienantes, preconceituosas ou violentas. Não tem sido assim em nossas igrejas? Por outro lado, uma espiritualidade baseada na visão do Pentecostes, que valoriza o amor, a justiça e a alteridade, em geral, produz diferentes frutos.

Compreendemos que, pela graça de Deus, “uma força estranha no ar” move e remove percepções a ponto de vermos o que não está mostrado: que “um outro mundo é possível”, como nos indicaram os Fóruns Sociais Mundiais, que as pessoas têm valor independentemente de suas condições sociais e econômicas, que o amor de Deus é preferencialmente direcionado aos/às mais pobres, que a paz e a justiça andam juntas, que o amor e o respeito devem prevalecer nas relações humanas, que a salvação vem de Deus e é universal, não se limitando a uma igreja ou religião específicas, que Deus é maior do que todas as coisas. Esse tipo de espiritualidade não se aprende em livros ou conceitos teológicos, filosóficos ou políticos. Ele vem com a fé e é a expressão mais viva de Pentecostes.

Escrito por: Claudio de Oliveira Ribeiro | Pastor Metodisa na 3ª Região