O país está fragilizado diante da maior epidemia na história do Brasil. O mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus da dengue, zika e chikungunya, tem preocupado a Organização Mundial da Saúde (OMS). A instituição tem apoiado o Brasil no combate ao vírus zika, que já ultrapassou fronteiras. Está em 20 países das Américas e 10 da Ásia, África e Pacífico – no entanto, o Brasil é o que mais preo­cupa os/as especialistas.

O Ministério da Saúde investiga 3.448 casos suspeitos de microcefalia no país. O último boletim, divulgado no final de janeiro, aponta que 270 casos já tiveram confirmação de microcefalia, sendo que 6 estão ligados ao vírus zika. Outros 462 casos já foram descartados. Ao todo, 4.180 casos suspeitos de microcefalia foram registrados até 23 de janeiro. No geral, foram notificados 68 óbitos durante a gestação, ou por abortamento espontâneo ou por malformação congênita após o parto (natimorto).

Desse total, 12 estão confirmados e têm uma relação com infecção congênita. Todos eles na região Nordeste, sendo um no Piauí, um no Ceará e dez no Rio Grande do Norte. Continuam sob investigação do Ministério 51 mortes. As outras 5 já foram descartadas. Para o especialista em genética médica da PUC/PR, dr. Salmo Raskin, os números revelados pelo Ministério da Saúde não são confiáveis. “Os dados divulgados pelo Ministério da Saúde são inúteis no que se refere à epidemiologia da microcefalia. Melhor que não houvesse porque só serviram para atrapalhar ainda mais o cenário”, disse à Folha de S.Paulo.

Por outro lado, para parte da comunidade científica brasileira, não resta dúvidas: o vírus da zika é mesmo o responsável pelos casos de microcefalia. “Para mim, é evidência definitiva. Não se fala em outra coisa entre os/as cientistas”, disse o infectologista e professor da USP, Esper Kallas. Já para o especialista em medicina baseada em evidência, o cardiologista Luis Correia, as situações podem estar relacionadas, mas não necessariamente. “As coisas podem coexistir. Não é válido dizer que isso é evidência. É mais um exemplo de coexistência, apenas mais um caso de detecção do vírus em um feto com microcefalia”.

História e combate

O Instituto Oswaldo Cruz, órgão do governo federal, explica que no início do século 20, o mosquito Aedes aegypti foi identificado como transmissor da febre amarela urbana e estimulou a execução de medidas rígidas de controle que levaram, em 1955, à erradicação do mosquito no Brasil. Três anos mais tarde, a OMS considerou o país livre do vetor. No entanto, o mosquito continuou sua reprodução na Venezuela, no sul dos Estados Unidos, Suriname e Guianas, além de toda a extensão que engloba Cuba e Caribe. Para o médico metodista Wilson Bonfim, a contribuição de um missionário foi de suma importância para o dr. Oswaldo Cruz. “Foi o pastor metodista Hugh Clarence Tucker que introduziu a Oswaldo Cruz a pesquisa do mosquito Aedes aegypti”, disse dr. Wilson.

O pastor Tucker também ficou conhecido na época pela sua participação na criação do Hospital Evangélico, pela criação de um centro social na área do Morro da Providência e um playground na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro/RJ. No Brasil, as medidas preventivas de controle após a erradicação do Aedes aegypti não foram suficientes; com isso, permitiu sua reintrodução no país no final da década de 1960. Hoje, o mosquito é encontrado em todo o território nacional.

A médica e bispa da Igreja Metodista na Região Missionária do Nordeste (Remne), Marisa de Freitas Ferreira, alerta para a prevenção e combate ao mosquito. “Precisamos como Igreja participar ativamente na erradicação desse mal. Sabemos que a infecção do vírus zika tem outras complicações. Ainda não é definitivo, mas há suspeitas de que seja transmitido também pela saliva e pelo ato sexual. É preciso ter cuidado, sobretudo com as formas de transmissão. O combate ao vetor depende não só do poder público, mas de todos nós, população brasileira”, disse. A bispa e bispos da Igreja Metodista orientaram seus membros a participar da mobilização do governo federal que ocorreu no dia 13 de fevereiro. Um vídeo foi produzido pela Área Nacional da Igreja com o depoimento da bispa Marisa de Freitas Ferreira sobre o assunto. O Colégio Episcopal também emitiu um pronunciamento por escrito: “O Colégio Episcopal entende que se trata de um momento histórico em que devemos unir esforços para combater um inimigo comum, o mosquito Aedes aegypti”, diz parte do documento publicado no site nacional da Igreja Metodista (www.metodista.org.br).

O bispo Roberto Alves de Souza, presidente da 4ª Região Eclesiástica, aponta algumas ações importantes que podem ser realizadas. “A Igreja pode ter ações significativas na comunidade onde está inserida indo aos/às vizinhos/as, distribuindo folhetos de conscientização e orientando as pessoas a combater o mosquito transmissor. Esse é um problema não somente do governo, mas de todos nós metodistas. Não podemos ficar à margem dessa realidade”, finalizou.

Mobilização dos/as metodistas

Somente no dia 13 de fevereiro, dia da mobilização nacional, 23,8 milhões de vistorias foram realizadas. Número que, segundo o governo federal, já representa 35,6% dos 67 milhões estimados a serem atingidos pelo programa em todo o Brasil. Entre os Estados, a Paraíba com 79,1% e o Piauí com 77,8% continuam entre os que registraram maior percentual de imóveis percorridos. Na sequência, aparece Minas Gerais, com 67,7% de abrangência, sendo a maior unidade federativa em números absolutos: 4,8 milhões de estabelecimentos. O Estado de São Paulo é o segundo em visitas, com 26,3% que totaliza 4,3 milhões. Em terceiro segue o Rio de Janeiro, somando 3,2 milhões ou 48,6% do total.

Muitas pessoas se anteciparam à campanha do governo. É o caso da metodista no Estado do Espírito Santo Rosa da Silva Lisboa. “Antes de o governo fazer a mobilização nacional, minha família já tinha o cuidado em não manter água parada nos vasos de planta, nas calhas e em qualquer outro lugar onde possa facilitar a multiplicação do mosquito”, afirmou. A metodista do Distrito Federal Elin Mary Lima foi além dos espaços de onde mora. “Essa semana fui pela segunda vez tirar água dos pneus jogados na lateral de onde moro. Nossa administração faz a limpeza, mas a comunidade volta a jogar o lixo no local impróprio. O importante é fazer o que tiver ao nosso alcance para evitar a reprodução do mosquito”, finalizou.

O Missionário Designado em Almenara/MG, no Vale do Jequitinhonha, pr. Diviraldo Rodrigues, também tem contribuído com a prevenção. “Tenho orientado a comunidade, assim como os/as vizinhos/as, a verificarem se nos quintais há vasilhas com água parada, pneus e outros ambientes propícios para a reprodução do Aedes. Queremos eliminar toda possibilidade de reprodução do mosquito”, disse o pastor.

Na cidade de Além Paraíba/MG, os/as jovens estão engajados/as no combate ao vetor dentro e fora da Igreja. “Em todos os cultos as pessoas são orientadas sobre o cuidado e a prevenção, mas nossos/as jovens estão com uma campanha que se iniciará em março. Sairemos em mutirão, juntamente com uma mobilização da prefeitura, com camisetas personalizadas da igreja. Iremos de casa em casa para uma conscientização e prevenção”, afirmou o pastor Sávio Ferreira de Abreu.

O governo federal garante que outras ações também serão realizadas após a mobilização nacional, que ocorreu dia 13 de fevereiro. Em nota divulgada no Portal Brasil, o governo irá intensificar o combate em mais 270 municípios com apoio de 55 mil militares, além dos 310 mil agentes comunitários de saúde e de controle de endemias.