Grupo de pessoas estudando a Bíblia

A história da Igreja Cristã mostra que ela sempre passou por mudanças ao longo dos anos. Com a Igreja Metodista não foi diferente. Vários Concílios Gerais apontaram para essa direção. À luz dos seus Planos Quadrienais de 1974 e 1978 e, finalmente, com o Plano de Vida e Missão em 1982, ela é levada a se organizar ministerialmente. Nascia, então, no XIV Concílio Geral, a Igreja de Dons e Ministérios. O pastor e professor Clovis Pinto de Castro junto com a professora Magali Cunha publicaram, em 2001, o livro Forjando Uma Nova Igreja. O autor e a autora destacam que a proposta de ser uma igreja ministerial, organizada em Dons e Ministérios, valorizava mais a igreja local, sendo que a estrutura burocrática tinha mais flexibilidade.

Esse movimento ministerial criou uma nova esperança, um novo ânimo na vida da Igreja Metodista. Foi possível, mesmo com as diferenças, desenvolver um projeto de igreja mais missionária.
De uns anos para cá, principalmente nos dois últimos conclaves gerais (2006 e 2011), o concílio tem apontado para o avanço missionário em uma estrutura mais discipuladora, ou seja, novamente ela está propícia às mudanças. O Expositor Cristão entrevistou o pastor e professor da Faculdade de Teologia, dr. Nicanor Lopes, para saber se há a possibilidade de ser uma Igreja Ministerial dentro dos moldes atuais nesse processo de transição eclesiológica.

Como ser uma Igreja Ministerial na atualidade?

Nicanor: Uma Igreja Ministerial não é resultado das correntes religiosas contemporâneas, mas é uma proposta eclesiológica recomendada pelo cristianismo no século primeiro. Com a expansão do cristianismo, em especial nas ações missionárias que encontramos nas cartas pastorais de Paulo, fica claro que uma igreja deve agir de forma ministerial. O conceito bíblico é: Igreja é o Corpo de Cristo no mundo, e este corpo tem uma variedade de membros com funções específicas, assim se faz o mistério da Unidade na Diversidade (cf I Co 12). Se cumprirmos a vocação da presença de Cristo no mundo, asseguramos a Unidade do Corpo de Cristo na Unidade do Espírito pelo vínculo da Paz, como orienta Paulo aos Efésios (4.3).

A Igreja tem promovido o discipulado na perspectiva da salvação, santificação e serviço?

Nicanor: Não me sinto muito à vontade para fazer esse tipo de juízo de valor, mas a princípio creio que sim. Observo uma forte ênfase no discipulado de forma geral e creio que isso é muito bom. Os parâmetros wesleyanos (salvação, santificação e serviço) parece-me que não estão claros para o povo metodista.

O que pode ser feito para melhorar?

Nicanor: A dimensão discipular no contexto metodista propõe que a partilha da Salvação (salvos pela graça) precisa ser mais bem comunicada. Observo que muitas partilhas indicam a salvação como mérito pessoal, e isso não é evangelho, muito menos wesleyano. Existe uma cultura velada de valorizar o/a discipulador/a como se ele/a fosse o/a responsável pela salvação, e merecedor/a de “galardão” pelas pessoas que aceitam a fé em Cristo por meio de seu testemunho. Não precisamos desmerecer o testemunho dos/as discipuladores/as, mas não é compatível com a fé cristã tributar mérito às pessoas por causa da salvação de outras.

E o que dizer sobre a santificação?

Nicanor: Muitos discursos sobre a santificação em nosso meio se assemelham ao discurso Romano. Antes mesmo da idade média, a santidade era conjugada com a vida monástica. Parece-me que muitos/as metodistas entendem a santificação como atitude monástica, mas não é. Na compreensão wesleyana, a santidade é social, os frutos da santidade não se enclausuram, pelo contrário, eles articularam a transformação social. Há uma conhecida expressão de Wesley que afirma: “O evangelho de Cristo não conhece religião, que não seja religião social; não conhece santidade, que não seja santidade social”.

Então, a santificação promove o serviço?

Nicanor: Se discipular promove salvação por meio da graça de Cristo, envolve pessoas na vida de santidade junto a outras pessoas, ela certamente promoverá ações de serviços, sejam eles espirituais, sejam eles humanitários como testemunho da fé. Creio que a Igreja Metodista tem cumprido a terceira ênfase missionária, mas se nossas ações forem mais bem fundamentadas, certamente seremos mais fiéis à nossa identidade wesleyana.

É possível ser uma Igreja de dons e ministérios nos moldes do discipulado?

Nicanor: Sem dúvida nenhuma. Uma igreja ministerial é discipuladora por natureza. Os múltiplos ministérios do Corpo de Cristo asseguram um discipulado que inclui todas as pessoas. Estou convencido de que a melhor eclesiologia para as ações do discipulado é a igreja ministerial. Essa eclesiologia garante a pluralidade dos dons e ministérios.