Bispo Paulo Ayres (à esquerda) entrega "bastão" para o Rev. Sérgio Andrade. Pastora Joana D´arc Meireles assume como 1° tesoureira.

Bispo Paulo Ayres entrega “bastão” para o Reverendo Sérgio Andrade. Pastora Joana D´Arc Meireles assume como 1° tesoureira.

O bispo emérito da Igreja Metodista, Paulo Ayres Mattos, encerrou em fevereiro suas atividades como presidente do Conselho Diretor da Diaconia – instituição cristã sem fins lucrativos. Ele assumiu a presidência em duas ocasiões distintas. Seu sucessor foi o reverendo Sérgio Fernando Lomeu de Andrade, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. O bispo Paulo Ayres conversou com o Expositor Cristão sobre os desafios e conquistas enfrentados nos dois períodos em que esteve presente no Conselho Diretor da instituição.

Como surgiu a Diaconia?

Bispo Paulo Ayres: Em 1967, no Rio de Janeiro/RJ, como fruto do desmantelamento da Confederação Evangélica do Brasil. O primeiro presidente foi o bispo Natanael Inocêncio do Nascimento da 1ª Re­gião. No início da década de 1980, a organização transferiu sua Sede para Recife/PE, atuan­do em quatro localidades do Nor­des­te, Pajeú, Oeste Potiguar e re­giões metropolitanas de Recife e Fortaleza. Esses polos concentram o maior número de pobres do país.

Foi nessa época que o senhor assumiu a presidência do Conselho Diretor?

Bispo: Quando fui nomeado para ser bispo no Nordeste levantei a questão para o Colégio Episcopal e, na ocasião, para o Conselho Geral da Igreja Metodista dizendo que aceitaria ser indicado para o Conselho Diretor; isso por volta dos anos 1990. Naquele tempo, Diaconia era um órgão de assistência social e cursos profissionalizantes. Começamos a ver que a organização tinha mais potencial na área social e investimos nisso. Nessa mesma ocasião fui eleito presidente do Conselho Diretor. Portanto, tive dois períodos de Presidência, de 1995 a 2000 e de 2010 a 2015.

Quando assumiu pela primeira vez a presidência do Conselho Diretor, qual foi a primeira iniciativa?

Bispo: Resolvemos fazer uma avaliação profunda da organização. O resultado nos levou a criar três programas: Assistência às crianças em Recife e Fortaleza; o programa de Apoio à Agricultura Familiar no sertão nordestino em Umarizal, no Rio Grande do Norte, e Região de Afogados de Ingazeira, em Pernambuco; e o terceiro programa foi de Apoio à Ação Diaconal nas Igrejas. Todos eles decolaram e a Diaconia passou a ser uma referência de transformação social dentro das áreas de atuação.

E na segunda gestão como presidente também houve mais mudanças?

Bispo: Após minha saída em 2000, a Diaconia continuou sua missão. Em 2006, o Conselho Diretor resolveu fazer outra avaliação. O pastor Arnulfo Barbosa (in memorian) desenvolveu um trabalho de equipe extraordinário. O falecimento dele criou uma desestabilização. Em 2008 me chamaram para participar da etapa final de reestruturação da Diaconia. No meio do processo dessa segunda estruturação, o pessoal me convidou para assumir o Conselho Diretor pensando que eu seria a pessoa ideal para resolver o problema. Novamente fui indicado pelo Colégio Episcopal. Hoje a Diaconia é uma instituição evangélica que se caracteriza pela defesa de direito, seja na metrópole, seja na zona rural. A instituição trabalha com as igrejas que defendem as causas humanitárias. Considero esses dois momentos que estive no Conselho Diretor uma experiência muito gratificante. Vejo que cada vez mais a Diaconia tem feito as obras de Misericórdia e Piedade.

Quais foram os maiores desafios à frente da Diaconia?

Bispo: O primeiro deles foi reassumir a presidência após o falecimento do rev. Arnulfo Barbosa. Tive que assumir em um processo difícil. Nossa primeira tarefa foi trazer um espírito de diálogo e convivência entre os/as funcionários/as da Diaconia. O Conselho Diretor acabou adotando algumas medidas que levaram à substituição de algumas pessoas que estavam nos postos de direção. Dessa forma, demos continuidade ao trabalho num ambiente de cooperação. Fizemos isso gradativamente.

Agricultora trocando alimentos com uma criança

Incentivo à produção e ao consumo sustentável é um dos programas da Diaconia

Quais projetos o senhor destacaria como relevantes para a instituição?

Bispo: Os programas de Apoio à Criança e Agricultura Familiar foram fundidos em uma coisa só. A Diaconia desenvolve projetos na comunidade em associações e igrejas para formar parcerias. Ela trabalha com criança e juventude, defesa dos direitos da mulher, por exemplo, contra a violência, exploração sexual da criança, desenvolvimento de agricultura sustentável, apoio ao armazenamento de águas em cisternas de alvenaria. Em decorrência disso, a organização foi desenvolvendo alguns Biodigestores para transformar esterco em gás de cozinha, além de ter água quente; o que evita a queima de madeira. Esses projetos são tão importantes que acabaram envolvendo organizações como sindicatos, igrejas, além de empresas a dar apoio à instituição. Isso tem levado a organização a receber prêmios nacionais, e este ano ela está concorrendo a um prêmio internacional como organização.

Durante todos esses anos à frente da instituição o senhor destacaria outras dificuldades?

Bispo: A situação mais preocupante é que a Diaconia tinha sua sustentabilidade financeira garantida por três fontes: Recursos das Igrejas na Europa (Alemanha, Inglaterra, Noruega e Suécia); Recursos de governos estaduais e federal; e Recursos do Fundo de Projetos da própria Diaconia. Com a crise mundial, as fontes europeias estão empregando os recursos na Europa por causa da onda migratória. Com a crise econômica no país, os recursos públicos estão diminuindo. Poucas organizações não governamentais tiveram um orçamento de R$ 27 milhões em 2015. Para este ano de 2016 tivemos de reduzir o nosso orçamento para R$ 20 milhões. Das três fontes, a única que não está tendo problemas é o fundo de projetos cujos recursos estão investidos em fundos do governo. Daqui para a frente a coisa vai piorar.

Como o senhor vê a participação e investimento da Igreja Metodista nos projetos da Diaconia?

Bispo: O apoio da Igreja Metodista tem sido muito importante. A Igreja está representada por meio de pessoas capacitadas que se identificam com a causa. Minha substituta no Conselho Diretor é a pastora Joana D’Arc Meirelles, nossa atual Secretária Nacional de Vida e Missão. Ao longo desses anos, a Igreja deu sua contribuição. Se não tiver mais pessoas preparadas para dar continuidade nos trabalhos da instituição, a Diaconia vai perder muito. Eu diria que a Diaconia, ao lado da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), são duas das mais importantes instituições evangélicas no Brasil de competência, de serviço e contribuição para o país.

Fonte: José Geraldo Magalhães