Ilustração de garoto domindo

Vemos em alguns salmos o/a autor/a afirmar ter “consultado o travesseiro”. Isso pode ter ocorrido antes de dormir ou durante uma noite de insônia. Não tenho insônia, contudo demoro a dormir. Leio, medito, vejo algo na TV, oro buscando aquietar-me. Lembro-me de uma noite em que passei em claro. Estava fora do país numa missão do Conselho de Igrejas Evangélicas da América Latina e do Caribe (Ciemal), junto com o Secretário Executivo, num mesmo quarto. A noite foi invadindo a madrugada. “Já que não durmo, vamos aproveitar”, eu disse, e assim foi. Dessa insônia surgiu um dos meus livros escritos, talvez o melhor deles. A consulta ao travesseiro valeu a pena.

Estamos no período que antecede ao Concílio Geral. Os Regionais foram realizados, eleições efetuadas, indicações e escolhas. Pelo que ouço e acompanhei, mesmo pela internet, houve muita movimentação em busca de indicações e colocações. Diante disso, pergunto: “Consigo transparentemente perante Deus e a Igreja consultar o meu travesseiro?”
O ser humano é cheio de mistérios, escapes, racionalizações. Dos nomes que temos indicados para concorrerem à eleição episcopal, existem vários que, se não fosse campanhas, tête-à-tête, conchavos, acordos, etc., nunca seriam indicados. Da mesma forma, podemos dizer a respeito das pessoas que foram eleitas delegadas/os clérigas/os e leigas/os ao Geral. Quanta movimentação e acerto; empenhos os mais diversos, algo de estarrecer.

Lembro-me de alguns Concílios Regionais em que presidi, de ter anulado várias eleições devido a atitudes indignas ao Evangelho. Alguns/as líderes afirmam que isso é comum, sempre houve, etc. Isso não é verdade! No momento vivenciado pela Igreja, ela nunca chegou a ter uma situação como essa. Seja em nome de quem for, grupos, tendências, posições doutrinárias, visão, encontro com Deus, células, ortodoxo, confessantes, da libertação – qualquer que seja a linha. O que mais a Igreja carece ter é caráter. Falamos em santificação com facilidade, mas tem nos faltado o caráter de Cristo.

Vivemos uma crise sem precedentes no país e no mundo. Não há mais credibilidade, estamos ficando impassíveis, inoperantes; perdemos a indignação. Nesse contexto há ausência de caráter. O testemunho mais contundente que a Igreja pode dar a uma sociedade indiferente com Deus é a de testemunhar o “Caráter de Cristo” em si, entre si e através de si. Um testemunho justo, amorável, solidário, sem dolo. Não julgo e nem tenho essa autoridade, mas sofro essa dor e procuro “consultar no travesseiro” a essência de minha vida. Muitas vezes tenho que pedir perdão, misericórdia, piedade ao Senhor e quebrantamento. O que não posso é “fazer de conta que não”.